
Os recentes incêndios florestais na Califórnia, considerados entre os mais destrutivos da história, evidenciam a crescente interseção entre mudanças climáticas e sua relação com a gestão de riscos. Os incêndios,especialmente na região de Los Angeles, já causaram infelizmente pelo menos 27 mortes e destruíram mais de 12.300 casas, levando o custo financeiro dos incêndios para um nível alarmante, com estimativas iniciais apontando perdas econômicas entre US$ 250 bilhões e US$ 275 bilhões, aonde a destruição atinge principalmente áreas de alto valor imobiliário, como Pacific Palisades, onde o preço médio das residências ultrapassa US$ 3 milhões. Queria abordar alguns temas relacionados que me chamam atenção neste caso, e que podemos levar como lições aprendidas com este desastre, e tentar evitar que aconteça por aqui.
Nova Realidade dos Incêndios Florestais
Segundo especialistas os incêndios florestais na Califórnia estão se tornando mais intensos e frequentes, invadindo áreas suburbanas e urbanas, com as linhas entre incêndios estruturais e florestais estão se tornando indistintas, criando desafios complexos para o combate ao fogo. Segundo estudos desde 2014 a média de terrenos queimados dobrou, e seis dos dez incêndios com mais casas destruídas ocorreram desde 2017.
Além disso um relatório do Departamento de Florestas e Proteção contra Incêndios da Califórnia aponta que todos os nove maiores incêndios do estado ocorreram após 2017, demonstrando uma tendência alarmante de destruição em larga escala. O aumento da severidade dos incêndios está diretamente relacionado às mudanças climáticas, que causam temperaturas mais altas, períodos de seca prolongados e ventos extremos que propagam o fogo rapidamente.
Crise de Seguro Contra Incêndios na Califórnia
Quando lembramos deste desastre, não dá para não comentar sobre a crise de seguro contra incêndios, que está impactando profundamente os proprietários de imóveis e associações condominiais em todo o estado. Com o aumento do risco de incêndios, muitas apólices de seguro estão simplesmente não sendo renovadas, enquanto as que são os prêmios aumentam drasticamente. Para ter uma idéia prática disto entre 2021 e 2024, algumas associações condominiais enfrentaram aumentos superiores a 800%, tornando a cobertura inacessível para muitos.
As seguradoras pressionadas por perdas financeiras e falta de reasseguro, têm abandonado áreas de alto risco, forçando os proprietários a recorrerem ao mercado secundário de seguros, caracterizado por prêmios elevados e coberturas limitadas. A California FAIR Plan, que tem sido a última opção para muitos, oferece cobertura básica que não inclui riscos como terremotos e vandalismo, deixando muitos proprietários vulneráveis.
Desafios no Combate aos Incêndios em Áreas Urbanas
Os incêndios urbanos apresentam desafios específicos devido à proximidade de estruturas inflamáveis, como veículos e construções residenciais, somado aos chamados ventos Santa Ana, que combinados com vegetação ressecada por secas prolongadas, criam um cenário propício para "tempestades de fogo", que se espalham rapidamente e são difíceis de conter.
Tem ainda o problema da infraestrutura urbana, que não foi projetada para incêndios de grande escala, assim os sistemas de abastecimento de água e hidrantes não conseguem atender à demanda durante incêndios intensos, e muitas áreas possuem ruas estreitas que dificultam o acesso das equipes de resgate. Outro desafio é a falta de pessoal e equipamentos adequados para incêndios florestais em regiões suburbanas.
Se formos olhar o que aprendemos poderia listar algumas lições:
Redução do tempo de análise pós-incêndio: Processos mais ágeis podem encurtar os prazos de resposta e permitir ações de mitigação mais eficazes.
Utilização de tecnologia avançada: Sensoriamento remoto e modelagem computacional podem fornecer informações em tempo real sobre riscos secundários, como deslizamentos e inundações.
Capacitação de autoridades locais: Programas de treinamento para governos municipais e estaduais são essenciais para garantir a continuidade da gestão de riscos após a retirada dos agentes federais.
Parcerias estratégicas: Colaboração entre agências estaduais e federais para garantir financiamento e priorização de recursos.
Os devastadores incêndios florestais da Califórnia são um lembrete claro da necessidade urgente de enfrentar as mudanças climáticas por meio de medidas proativas e sustentáveis. A integração de princípios de gestão de riscos com a responsabilidade ambiental não apenas reduz a frequência e o impacto desses desastres, mas também abre caminho para um futuro mais resiliente.
A recente flexibilização regulatória beneficia as seguradoras a curto prazo, permitindo uma precificação mais alinhada com os riscos futuros. No entanto, o envolvimento da sociedade e dos órgãos reguladores será fundamental para garantir que incentivos de mitigação sejam incorporados, promovendo um equilíbrio entre acessibilidade dos prêmios e medidas preventivas eficazes.
À medida que os incêndios florestais continuam a ameaçar comunidades, investimentos em infraestrutura resistente ao fogo, educação comunitária e práticas de construção seguras tornam-se cada vez mais essenciais para a mitigação dos riscos a longo prazo. O futuro da gestão de riscos na Califórnia depende de uma abordagem colaborativa e inovadora que contemple a realidade climática emergente.