O que realmente faz um profissional de compliance se destacar?

O que realmente faz um profissional de compliance se destacar?

Nos últimos anos, o universo do compliance ganhou destaque inédito no Brasil. O que antes era um tema restrito a grandes corporações multinacionais passou a ocupar o centro das discussões empresariais, impulsionado por escândalos de corrupção, novas exigências legais como a Lei 12.846/13 e uma sociedade cada vez mais atenta à integridade das organizações. Nesse contexto, surge uma pergunta que ecoa nas rodas de conversa de quem atua ou deseja atuar na área: o que é mais importante para um profissional de compliance se destacar – o conhecimento teórico, a vivência prática ou as famosas soft skills?

A verdade é que não existe uma resposta simples. O conhecimento teórico é indispensável. Um profissional que não domina as diretrizes da ISO 37301, os requisitos da Lei Anticorrupção, as nuances do FCPA ou as exigências da LGPD dificilmente conseguirá estruturar um programa de integridade robusto. A técnica é a base. Não dá para construir uma casa sem saber onde colocar os alicerces. Mas teoria sem aplicação é como um manual de instruções que nunca saiu da gaveta. Há quem colecione certificados e siglas no LinkedIn, mas trave ao ser colocado diante de uma denúncia delicada, de um conflito de interesses real ou de um dilema ético que exige ação imediata.

É aí que entra o valor da experiência prática. Quem já participou de uma investigação interna, mediou tensões entre áreas ou enfrentou a resistência silenciosa de lideranças pouco engajadas sabe que a realidade é muito mais cinzenta do que os manuais sugerem. Um compliance officer que só conhece o “dever ser” das normas pode acabar frustrado quando perceber que a cultura organizacional nem sempre acompanha o discurso institucional. Casos como o da Wells Fargo, onde uma estrutura de compliance supostamente robusta falhou em conter metas tóxicas impostas pela alta gestão, mostram que o risco não está só em não ter regras – mas em não praticá-las de verdade.

Porém, mesmo a melhor formação acadêmica e as melhores experiências práticas podem ser insuficientes se esse profissional não souber se comunicar. Não basta apontar o risco: é preciso convencer. E convencer requer mais do que lógica jurídica – exige empatia, escuta, visão de negócio. Um bom profissional de compliance é, antes de tudo, um influenciador ético. Ele navega em ambientes complexos, muitas vezes conflituosos, sem ter poder formal de decisão. Atua mais como um conselheiro estratégico do que como um fiscal da lei. E para isso, inteligência emocional não é um “plus”. É uma ferramenta essencial de sobrevivência.

Claro que tudo isso nos leva a uma constatação importante: o profissional de compliance que mais se destaca é o que consegue integrar os três pilares. Técnica, prática e sensibilidade humana não se excluem – se completam. O mercado já entendeu isso. Segundo relatórios recentes da Michael Page e Robert Half, empresas estão buscando perfis cada vez mais híbridos: gente que conhece a norma, aplica no dia a dia e sabe dialogar com a alta liderança e com o chão de fábrica. Alguém que entende de planilhas, mas também de pessoas.

No fim, o que torna um profissional de compliance verdadeiramente relevante não é o currículo, a autoridade ou a retórica. É a capacidade de gerar confiança. De traduzir regras em condutas. De construir pontes em vez de muros. De fazer com que a ética seja percebida não como obstáculo, mas como diferencial competitivo. Num mundo em que a reputação vale mais do que ativos tangíveis, essa habilidade pode ser o maior ativo de todos.

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