PLD = Desconfiar Bastante das Movimentações e Pagamentos em Dinheiro em Espécie

PLD = Desconfiar Bastante das Movimentações e Pagamentos em Dinheiro em Espécie

Não paramos de ver notícias na mídia levantando dúvidas em vários casos que se tornaram públicos sobre o procedimento de movimentações e pagamento em espécie, e o que posso lhe dizer que na maioria das vezes aonde há fumaça, há quase sempre fogo, e os bombeiros de PLD precisam verificar com muito cuidado estes casos, que caem diariamente nas ferramentas de monitoramento, que dão os alertas, e precisam de uma análise mais cuidadosa, e se detectado alguma atipicidade, reportado ao COAF, até para evitar depois problemas de questionamento, e até pior de Processos Administrativos do Bacen, como comentei em outro post recente.

O uso do dinheiro vivo em espécie tem uma razão simples, que é tentar não deixar rastros da origem do dinheiro. Veja que não é errado usar dinheiro em espécie, nenhum problema ou crime nisto, mas é sim um indicador de atipicidade que merece ser melhor analisado.

Saques e depósitos altos em espécie, já fazem parte das operações que devem ter comunicação automáticas ao COAF, tanto que o problema maior aqui é pegar as movimentações menores abaixo do radar, em que há fracionamento destes depósitos e saques, para tentar passar despercebido, por isto importante que seus alarmes (ou filtros) consigam medir não apenas uma operação, mas o conjunto e somatório de movimentação em espécie em um determinado período.

Assim como também detectar as movimentações de muitas pessoas depositando dinheiro vivo em uma conta de outras específica, os chamados filtros: "de N para 1". Precisa entender o motivo de tal movimentação atípica. Por que esta conta esta recebendo tanto deposito, ainda mais em espécie? Pode ter um bom motivo para isto, e precisa entender, pois pode também estar sendo usado para lavagem. Bastant

Além disto outras operações em espécie merecem também uma atenção diria que até maior das áreas de PLD, que são os pagamento de boletos e contas, ou até de faturas de cartão de crédito, ainda mais se for por terceiros, todas em espécie, o que não deveria ser comum ainda mais se os valores são altos. Ou pagamento de compra de bens caros (caros, motos, barcos, casas, etc) também em espécie. Vimos isto acontecer bastante disto durante a lava-jato, e ainda infelizmente continuamos vendo. Por isto toda atenção é pouca.

As instituições financeira tem a obrigação de tomar cuidado redobrado com o dinheiro em espécie. Tanto que em um banco de câmbio, em que era responsável (estatutário perante ao Bacen o que aumenta ainda mais a responsabilidade) pela área de PLD, tínhamos uma série de alarmes rodando diariamente olhando todas movimentações (uma a uma) do dia, e várias delas eram para monitorar exatamente as movimentações em espécie, e não fazia apenas com os clientes, mas também tinha controles internos para entender o comportamento de agências e até de caixas/funcionários.

Foi através de um destes monitoramento de movimentação em espécie de uma agência, que detectamos uma atipicidade, pois apesar de estar em um shopping de classe alta no interior de São Paulo, havia muita movimentação acima do normal para este perfil de agência, e ao olhar mais a fundo o caso depois disto, vimos que um determinado caixa/funcionário fechava a grande maioria de suas operações recebendo em espécie. Bom sinal amarelo foi ligado. Maiores investigações eram necessárias sobre o caso.

Veja que algumas regiões e cidades tem a característica de ter sim mais movimentação em espécie, como por exemplo o centro de São Paulo, mas outras em regiões mais nobres, bem menos. Tríplice fronteira é uma destas regiões, e não por menos um local aonde sua atenção é maior, como agências perto de comunidades/favelas aonde o tráfico de drogas e outros crimes são forte.

Próxima etapa foi ver e acompanhar remotamente sem avisar ninguém ainda, o trabalho deste funcionário em tempo real pelas câmeras de segurança da agência, que tivemos acesso. Foi quando detectamos que uma mulher de conhecimento e confiança dele, chegava quase que diariamente na agência com uma bolsa grande, que vimos depois cheia de bolos (já contados) de dinheiro, que entregava para este funcionário, que por sua vez contava e preparava a operação de câmbio. Depois a mulher chamava um a um, outras pessoas (funcionários de lojas do shopping que vinham inclusive uniformizados das suas empresas), que entregavam sua identidade e davam seu nome e dados para fechar uma série de operações de compra de moedas estrangeiras, mas saiam da agência sem ela, mas recebiam ainda no caixa uma nota de 50 reais, pelos serviços de laranja prestados. No final deste processo com dezenas de laranjas, a mulher recebia a moeda estrangeira do Caixa, e saia tranquilamente.

O esquema de lavagem usando espécie estava detectado, documentado e agora faltava o flagrante, o que foi armado depois de uma queixa na polícia, até para proteger a instituição, mostrando que não era conivente com a situação, além obviamente da comunicação ao COAF de todos os nomes destes laranjas todos usados, e da mulher e do funcionário. O funcionário e a mulher foram presos para maior investigação, agora nas mãos de que é o responsável por isto. Não vamos nunca nos esquecer de que por mais que pareça, as áreas de PLD não tem a responsabilidade de investigar, mas sim de alertar ai sim as instituições adequadas (Coaf, PF, Polícia, etc), que vão dar continuidade levando em considerações todas informações e provas que reuniu para eles.

Poderia inclusive contar outras dezenas de casos, algumas por exemplo usando lotéricas, ou outros segmentos de mercado que lidam com grande volume em espécie, e assim sendo um local ou player propício para algum esquema. Fiquem de olho nestes segmento de maior risco (supermercados, postos de combustível, empresas de transporte, farmácias, etc).

Casos de lavagem de dinheiro usando espécie são quase que diários. Não dá para fingir de que não existem na sua instituição, se ela lida com espécie.

O ponto que queria deixar aqui é primeiro de que movimentação em espécie por menor que seja, sempre deve ter sua atenção, depois que não apenas o cliente em si deve ser monitorado, mas todos aqueles que estão pagando suas contas, e também como vimos no caso real acima, os seus próprios funcionários e suas agências.

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