Artigo
01/07/2025

AGMs Totalmente Virtuais Ganham Força no Reino Unido: Avanço, Retrocesso ou Transformação?

Analisa a proposta de AGMs 100% virtuais no Reino Unido e seus efeitos na governança corporativa.

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O debate sobre governança corporativa ganhou um novo e relevante capítulo no Reino Unido. Em maio de 2024, o governo britânico apresentou uma proposta legislativa que promete mudar, de forma permanente, a dinâmica das Assembleias Gerais de Acionistas — as conhecidas AGMs.

A proposta foi divulgada no contexto de uma ampla revisão das regras corporativas, liderada pelo Department for Business and Trade (DBT), equivalente ao Ministério da Economia britânico. O texto sugere que as empresas listadas possam, se desejarem, realizar suas assembleias 100% online, eliminando a exigência de encontros presenciais ou híbridos.

A medida surge como resposta à experiência vivida durante a pandemia de Covid-19, quando as AGMs virtuais se tornaram uma solução emergencial, adotada de forma provisória entre 2020 e 2022. Na época, a digitalização foi bem recebida por parte do mercado, que viu ganhos em agilidade, eficiência operacional e redução de custos.

Agora, o governo britânico quer transformar essa prática em algo permanente, oferecendo às empresas mais flexibilidade na condução de seus processos societários.

No entanto, a proposta rapidamente acendeu um alerta entre investidores, especialistas em governança e organizações que representam acionistas. Se, de um lado, é inegável que a tecnologia oferece ganhos operacionais, de outro, surgem dúvidas sérias:

🔍 Será que as AGMs totalmente virtuais conseguem garantir o mesmo nível de transparência, diálogo e fiscalização? 🔍 O engajamento dos acionistas — especialmente dos minoritários e dos investidores estrangeiros — estará realmente protegido nesse novo formato?

Essas são questões centrais que dominam as discussões nas rodas de negócios, nos fóruns de governança e nos bastidores do mercado de capitais britânico.

Vamos entender, em detalhes, o que está em jogo, quais são os argumentos de cada lado e os impactos dessa decisão — não só para o Reino Unido, mas também para o mercado global.

O que são AGMs e qual sua importância?

A Annual General Meeting (AGM), ou Assembleia Geral Ordinária, é um evento fundamental na governança corporativa. É o momento em que os acionistas se reúnem para:

  • Analisar os resultados da empresa.

  • Votar nas demonstrações financeiras.

  • Eleger conselheiros e membros de comitês.

  • Deliberar sobre dividendos e outros temas estratégicos.

Em resumo, é quando os donos da empresa — os acionistas — exercem formalmente seus direitos.

Por isso, garantir que essas reuniões sejam transparentes, acessíveis e democráticas é vital para qualquer sistema de governança.

Por que o Reino Unido está discutindo AGMs 100% online?

A origem desse debate não é nova. Durante a pandemia de Covid-19, muitos países flexibilizaram suas regras e permitiram que as AGMs fossem realizadas de forma virtual.

A experiência foi, em muitos casos, positiva. Empresas reduziram custos. Houve aumento da participação de investidores estrangeiros e minoritários, que antes não conseguiam comparecer presencialmente.

Mas a volta à normalidade trouxe a pergunta: Devemos manter esse modelo digital?

No Reino Unido, uma proposta de lei sugere que as empresas possam optar por AGMs totalmente online, sem a obrigação de reuniões presenciais ou híbridas.

Quais são os argumentos a favor?

Os defensores da proposta no Reino Unido argumentam que as assembleias totalmente virtuais representam um avanço natural no processo de modernização das práticas corporativas. Apontam uma série de benefícios, tanto operacionais quanto estratégicos, que não podem ser ignorados.

Acessibilidade ampliada

Ao adotar o formato online, as empresas tornam suas assembleias mais acessíveis para todos os acionistas, independentemente de onde estejam. Acionistas estrangeiros, investidores institucionais, minoritários ou até pessoas físicas que antes tinham dificuldade para participar por conta de deslocamento ou custos logísticos, agora podem acompanhar, votar e interagir diretamente de qualquer lugar do mundo, apenas com acesso à internet.

Redução significativa de custos

Realizar uma assembleia presencial envolve despesas consideráveis: aluguel de auditórios, equipamentos de som e imagem, impressão de materiais, coffee breaks, segurança, transporte de executivos, entre outros. O ambiente virtual elimina grande parte desses custos, tornando o processo mais econômico para as empresas e, consequentemente, mais eficiente na gestão de recursos dos próprios acionistas.

Sustentabilidade e responsabilidade ambiental

Outro argumento muito relevante no contexto atual é o impacto ambiental. AGMs virtuais contribuem para a redução da pegada de carbono, eliminando deslocamentos de centenas de pessoas, viagens aéreas, consumo de energia em grandes eventos e uso de papel. Ou seja, alinham-se diretamente às práticas ESG, cada vez mais exigidas pelo mercado global.

Agilidade e eficiência nos processos

Organizar uma assembleia virtual é mais simples e rápido. As plataformas digitais oferecem soluções que automatizam o credenciamento, a condução da votação, o registro dos votos e até a geração de atas digitais. O resultado são processos menos burocráticos, com menor risco de erros e maior velocidade na divulgação de resultados.

E quais são os riscos e preocupações?

Apesar dos benefícios claros, a proposta também levanta alertas importantes entre investidores, especialistas em governança e entidades reguladoras.

🔸 Riscos para a transparência

Um dos pilares da boa governança é a transparência nas discussões e nas deliberações. No ambiente virtual, surgem dúvidas legítimas: será que os acionistas têm a mesma visão clara dos debates? É possível perceber nuances, reações, acordos de bastidores e mudanças de última hora quando tudo se limita a uma tela? A falta de contato físico pode reduzir a capacidade dos investidores de fiscalizar, questionar e até entender completamente as dinâmicas internas da empresa.

🔸 Perda de engajamento e diálogo limitado

As AGMs presenciais sempre foram espaços de debate aberto. Acionistas podem fazer perguntas diretamente aos conselheiros e executivos, solicitar esclarecimentos e até articular pautas junto a outros investidores. No ambiente online, existe o risco de que esse diálogo seja reduzido ou até controlado pela administração, que pode filtrar perguntas, limitar o tempo de fala e reduzir a interação a um canal de mensagens ou perguntas pré-selecionadas.

🔸 Desigualdade no acesso tecnológico

Embora a digitalização tenha avançado muito, nem todos os acionistas possuem a mesma familiaridade com ferramentas digitais. Investidores mais idosos, pessoas em regiões com internet instável ou aqueles com menor acesso à tecnologia podem acabar sendo excluídos do processo, mesmo que involuntariamente. Isso levanta preocupações sobre a inclusão e a equidade no exercício dos direitos dos acionistas.

🔸 Risco de concentração de poder

Esse talvez seja o ponto mais sensível. Ao reduzir os espaços de interação presencial — onde minoritários podem se reunir, trocar informações e até organizar movimentos coletivos —, o modelo 100% virtual pode, na prática, fortalecer ainda mais o poder dos acionistas majoritários ou do grupo controlador. Sem o ambiente físico de pressão e exposição pública, fica mais fácil para a administração controlar a pauta, limitar questionamentos e conduzir as assembleias de forma mais conveniente aos seus próprios interesses.

O que dizem os especialistas em governança?

A proposta de permitir que as Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs) sejam realizadas 100% online de forma permanente não passou despercebida no Reino Unido. Pelo contrário, ela desencadeou um debate intenso entre os principais atores do mercado — advogados especializados em direito societário, investidores institucionais, conselheiros, órgãos reguladores e especialistas em governança corporativa.

Instituições de grande relevância no ecossistema de governança britânico, como o Institute of Directors (IoD) — que representa conselheiros, administradores e executivos — e o Investor Forum, que atua na defesa dos direitos dos investidores institucionais, já se posicionaram publicamente sobre o tema.

Essas organizações reconhecem que a transformação digital é bem-vinda e necessária. Não se trata de rejeitar a tecnologia. Ao contrário: a digitalização é vista como uma evolução natural, capaz de modernizar processos, tornar as empresas mais eficientes e até promover maior inclusão — desde que bem implementada.

O ponto central da crítica não está na adoção da tecnologia em si, mas sim na forma como ela será regulamentada e aplicada. Há uma preocupação clara: se as empresas puderem adotar, sem critérios mínimos, um modelo totalmente virtual para suas AGMs, isso pode abrir espaço para práticas que enfraquecem os princípios básicos da boa governança.

Os especialistas alertam que, sem regras bem definidas, o modelo digital pode:

  • Reduzir o espaço para o contraditório.

  • Limitar o debate aberto entre acionistas e a administração.

  • Enfraquecer os mecanismos de fiscalização.

  • E, principalmente, prejudicar a participação dos investidores minoritários, que já costumam ter menos poder e influência nas decisões.

Por isso, o que eles defendem não é o retorno obrigatório às assembleias presenciais, mas sim que qualquer transição para o digital venha acompanhada de salvaguardas robustas de transparência, inclusão, acessibilidade e proteção dos direitos dos acionistas.

Em resumo, a mensagem dos especialistas é clara: A tecnologia deve ser uma ferramenta para fortalecer a governança — e não um atalho para reduzir a accountability e concentrar ainda mais poder nas mãos de poucos.

E o que isso tem a ver com o Brasil e o mundo?

Muito mais do que parece à primeira vista. Embora o debate tenha ganhado força agora no Reino Unido, essa discussão é, na verdade, global e extremamente atual.

A origem desse movimento está diretamente ligada aos impactos da pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022. Durante aquele período, praticamente todos os países precisaram flexibilizar suas regras societárias para permitir que as assembleias de acionistas fossem realizadas no ambiente virtual. Foi uma solução emergencial, necessária para garantir a continuidade dos processos de governança mesmo em meio às restrições sanitárias.

Com o fim da emergência sanitária, veio a reflexão: Será que vale a pena manter esse modelo digital como regra permanente?

No Brasil, essa discussão também se materializou rapidamente. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado de capitais brasileiro, autorizou oficialmente, a partir de 2020, a realização de assembleias digitais, tanto de companhias abertas quanto de fundos de investimento. Mas, diferente da proposta em debate no Reino Unido, a regulação brasileira trouxe desde o início regras claras, exigindo que:

  • As plataformas ofereçam segurança e rastreabilidade.

  • Os acionistas possam se manifestar, votar, enviar perguntas e participar ativamente das deliberações.

  • Haja mecanismos de validação de identidade e preservação dos registros.

Portanto, a digitalização já é uma realidade no Brasil — assim como em boa parte do mundo. Mas sempre acompanhada de uma preocupação com a efetividade da participação e a preservação dos princípios da boa governança.

A tendência é clara: A digitalização dos processos societários veio para ficar. O uso de tecnologia não é mais uma exceção. É parte integrante da governança moderna.

No entanto, o desafio, tanto no Brasil quanto no Reino Unido e em outros mercados, está justamente em encontrar o equilíbrio ideal. Como conciliar os ganhos de eficiência, praticidade e redução de custos com a necessidade de manter a transparência, o engajamento e a proteção dos acionistas?

Esse é o dilema que hoje permeia não só conselhos de administração, como também investidores, reguladores e entidades que defendem a governança responsável.

Linha do Tempo: Evolução Legislativa das AGMs Virtuais no Reino Unido

Reflexão final: avanço, retrocesso ou transformação?

A tecnologia, sem dúvida, é uma aliada poderosa da governança. Ela aproxima, conecta, moderniza e torna processos mais acessíveis, ágeis e eficientes.

Mas, como toda ferramenta, ela carrega riscos quando utilizada sem critérios ou sem os devidos cuidados. Se bem aplicada, fortalece a governança, amplia a participação e melhora a fiscalização. Se mal conduzida, pode se tornar um risco silencioso:

  • Reduzindo o espaço para o contraditório.

  • Enfraquecendo a voz dos acionistas minoritários.

  • Facilitando a concentração de poder nas mãos de poucos.

Por isso, a pergunta que se impõe é direta e urgente: AGMs totalmente virtuais representam um avanço na governança? Ou escondem um possível retrocesso, mascarado de modernização?

Fontes:

  • Department for Business and Trade (DBT) – UK Government 📄 Corporate Governance Reform Consultation Paper, maio de 2024.

  • Institute of Directors (IoD) – Comunicado Oficial sobre AGMs Virtuais, maio de 2024.

  • Investor Forum – UK – Position Paper sobre Digital Shareholder Meetings, 2024.

  • Financial Times – "UK companies to be allowed fully virtual AGMs under new proposal", publicado em 17 de maio de 2024.

  • The Guardian – "Virtual shareholder meetings: governance revolution or step back?", maio de 2024.

  • Nikkei Asia – Reportagens sobre impactos das AGMs virtuais no Reino Unido e na Ásia, 2024.

  • CVM (Comissão de Valores Mobiliários – Brasil) – Instrução CVM 622/2020 e atualizações sobre assembleias digitais no Brasil.

  • OECD – Organisation for Economic Co-operation and Development 📄 G20/OECD Principles of Corporate Governance, 2015.

  • IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa 📘 Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa, 5ª edição, 2015.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é uma Assembleia Geral Ordinária (AGM) e qual a sua importância para a governança corporativa?
A Annual General Meeting (AGM), ou Assembleia Geral Ordinária, é um evento fundamental na estrutura de governança corporativa de uma empresa. É o momento formal em que os acionistas, que são os donos da companhia, se reúnem para exercer seus direitos.Durante uma AGM, os acionistas têm a responsabilidade de:
  • Analisar os resultados financeiros e operacionais da empresa.
  • Votar para aprovar as demonstrações financeiras.
  • Eleger os membros do conselho de administração e de outros comitês.
  • Deliberar sobre a distribuição de dividendos e outros assuntos estratégicos.
Por ser o principal fórum para o exercício dos direitos dos acionistas, é vital que as AGMs sejam conduzidas de forma transparente, acessível e democrática, garantindo a fiscalização e o diálogo entre os investidores e a administração da empresa.
Qual proposta sobre a realização de Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs) foi apresentada no Reino Unido em maio de 2024?
Em maio de 2024, no contexto de uma revisão das regras corporativas, o governo britânico, por meio do Department for Business and Trade (DBT), apresentou uma proposta legislativa para alterar a dinâmica das Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs).A proposta sugere que as empresas listadas no mercado de capitais do Reino Unido tenham a opção de realizar suas assembleias em formato 100% online, de forma permanente. Isso eliminaria a exigência legal de promover encontros presenciais ou híbridos, oferecendo maior flexibilidade às companhias.
Qual foi o contexto que motivou a discussão sobre a permissão de AGMs 100% virtuais de forma permanente no Reino Unido?
A discussão sobre a adoção permanente de Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs) 100% virtuais no Reino Unido surgiu como uma resposta direta à experiência vivida durante a pandemia de Covid-19.Entre 2020 e 2022, a realização de AGMs em formato virtual foi autorizada de forma provisória e emergencial para garantir a continuidade dos processos de governança em meio às restrições sanitárias. A experiência foi considerada positiva por parte do mercado, que observou benefícios como agilidade, eficiência e redução de custos. Com o fim do período de emergência, iniciou-se o debate sobre transformar essa prática temporária em uma opção permanente para as empresas.
Quais são os principais argumentos a favor da realização de Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs) em formato 100% online?
Os defensores das AGMs totalmente virtuais apontam uma série de benefícios operacionais e estratégicos, argumentando que a medida representa uma modernização das práticas corporativas. Os principais pontos a favor são:
  • Acessibilidade ampliada: O formato online permite que acionistas de qualquer lugar do mundo, incluindo investidores estrangeiros, institucionais e minoritários, participem sem a necessidade de deslocamento físico, superando barreiras geográficas e logísticas.
  • Redução significativa de custos: Elimina despesas relacionadas a eventos presenciais, como aluguel de espaços, equipamentos, impressão de materiais e segurança, tornando o processo mais econômico para as empresas.
  • Sustentabilidade e responsabilidade ambiental: Alinha-se às práticas de ESG (Ambiental, Social e Governança), pois reduz a pegada de carbono ao eliminar viagens e o consumo de recursos associados a grandes eventos.
  • Agilidade e eficiência: As plataformas digitais simplificam e automatizam processos como credenciamento, votação e registro, resultando em procedimentos menos burocráticos, com menor risco de erros e maior rapidez na divulgação dos resultados.
Quais são os riscos e as preocupações relacionados à adoção de Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs) em formato totalmente virtual?
A proposta de permitir AGMs 100% virtuais levanta preocupações significativas entre investidores e especialistas em governança. Os principais riscos apontados são:
  • Riscos para a transparência: A falta de contato físico pode dificultar a capacidade dos acionistas de fiscalizar, perceber nuances nos debates e entender as dinâmicas internas da empresa, comprometendo a transparência das deliberações.
  • Perda de engajamento e diálogo limitado: Existe o risco de que o diálogo aberto, típico dos encontros presenciais, seja controlado pela administração. A empresa poderia filtrar perguntas ou limitar o tempo de fala, reduzindo a interação e o debate.
  • Desigualdade no acesso tecnológico: Nem todos os acionistas possuem a mesma familiaridade ou acesso a ferramentas digitais e internet estável. Isso poderia excluir, mesmo que involuntariamente, investidores mais idosos ou de regiões com infraestrutura digital precária, ferindo os princípios de inclusão e equidade.
  • Risco de concentração de poder: O modelo 100% virtual pode enfraquecer a capacidade de acionistas minoritários de se organizarem e articularem pautas coletivas, que muitas vezes surgem em interações presenciais. Isso poderia fortalecer o poder dos acionistas majoritários e da administração, que teriam mais controle sobre a pauta e menos exposição à pressão pública.
Qual é a visão de especialistas e instituições de governança do Reino Unido sobre a proposta de AGMs 100% online?
Especialistas e instituições de governança no Reino Unido, como o Institute of Directors (IoD) e o Investor Forum, reconhecem os benefícios da tecnologia e a necessidade de modernizar os processos corporativos. No entanto, eles expressam forte preocupação com a proposta de permitir AGMs 100% online sem a devida regulamentação.O ponto central da crítica não é a rejeição à tecnologia, mas o temor de que a sua aplicação sem critérios claros possa enfraquecer os pilares da boa governança. Eles alertam que, sem regras bem definidas, o modelo digital pode reduzir o espaço para o contraditório, limitar o debate, enfraquecer a fiscalização e prejudicar especialmente os acionistas minoritários.Portanto, defendem que qualquer transição para o formato digital deve ser acompanhada por salvaguardas robustas que garantam a transparência, a inclusão e a proteção efetiva dos direitos de todos os acionistas. A mensagem é que a tecnologia deve servir para fortalecer a governança, e não para reduzir a accountability (prestação de contas).
Como a regulamentação sobre assembleias digitais no Brasil se posiciona em relação ao debate no Reino Unido?
A discussão sobre assembleias digitais é global e também ocorreu no Brasil, impulsionada pela pandemia de Covid-19. No entanto, a abordagem regulatória brasileira foi diferente da proposta em debate no Reino Unido.A partir de 2020, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado de capitais brasileiro, autorizou oficialmente a realização de assembleias digitais. Desde o início, a regulamentação brasileira estabeleceu regras claras para garantir a proteção dos acionistas. As exigências incluem:
  • Uso de plataformas que ofereçam segurança e rastreabilidade.
  • Garantia de que os acionistas possam se manifestar, enviar perguntas, votar e participar ativamente das deliberações.
  • Implementação de mecanismos para validar a identidade dos participantes e preservar os registros da assembleia.
Dessa forma, enquanto a proposta britânica gerou preocupações sobre a falta de salvaguardas, a regulamentação no Brasil já incorporou exigências para preservar os princípios de boa governança no ambiente digital.
Qual é o principal desafio ao conciliar o uso de tecnologia com a boa governança nas Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs)?
O principal desafio na digitalização das Assembleias Gerais de Acionistas (AGMs) é encontrar um equilíbrio entre os ganhos de eficiência e os princípios fundamentais da boa governança.De um lado, a tecnologia oferece benefícios claros como redução de custos, agilidade, acessibilidade e sustentabilidade. Por outro lado, seu uso inadequado pode gerar riscos significativos, como a perda de transparência, a redução do diálogo entre acionistas e administração, a exclusão de participantes com menor acesso tecnológico e a concentração de poder.O dilema central, portanto, é garantir que a tecnologia seja usada como uma ferramenta para fortalecer a governança, ampliar a participação e melhorar a fiscalização, em vez de se tornar um meio para reduzir a accountability (prestação de contas) e enfraquecer a voz dos acionistas, especialmente os minoritários.

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Mónica Sofia Polaco Vieira

Economista | Governança Corporativa | Finanças | Transformação | Estratégia e Desenvolvimento de Negócios | Treinamentos e Palestras in Company