Artigo
21/02/2020

Como definir a remuneração de cada sócio em um negócio

Explica critérios para definir a remuneração dos sócios que atuam na empresa, considerando funções, mercado e aspectos tributários.

Imagem de capa do artigo

Publicado originalmente na Folha PE.

Misturar as contas da pessoa física com as da pessoa jurídica está entre os piores erros cometidos por empreendedores. E isso acontece quando se dispensa a definição de um pró-labore, que é uma remuneração mensal ao sócio ou aos sócios que exercem uma função na companhia.

Em muitos casos, o que ocorre é a simples divisão do dinheiro que sobra por mês entre os parceiros.

"Se um negócio tem dois donos com partes iguais, cada um tem direito a 50% do lucro. Mas, se um deles trabalha na empresa -administrando-a, por exemplo-, é justo que seja remunerado mensalmente por seu serviço", diz o doutor em ciências contábeis Eric Barreto, professor da escola de negócios Saint Paul. "O pró-labore é como se fosse um salário", completa.

O ideal é que esse valor seja calculado com base na média do mercado para aquela determinada função, sempre considerando o porte e o setor da organização, segundo o especialista.

Se todos os sócios forem ativos, vale a mesma regra, o que justifica um receber mais que outro, conforme as atividades que desempenham.

É possível, ainda, que as retiradas difiram entre si em razão da produtividade individual. "É quando os sócios estabelecem que o pró-labore terá uma parte fixa e outra variável. Essa última é paga a quem trouxer um cliente novo, por exemplo, ou a quem for alocado em um projeto vendido em que trabalhará mais horas que os outros", explica Barreto.

Paulo Sérgio Cereda, gerente regional do Sebrae, afirma que o cálculo da retirada sempre pede "a avaliação da situação atual da empresa, de sua capacidade de pagamento e do impacto nos custos". No caso de categorias com representação de classe, ainda é possível que exista um piso mínimo a ser respeitado.

Para negócios que estão começando ou ainda não geram dividendos, nada impede que os sócios que trabalham não sejam remunerados ou tirem muito pouco. Porém, Cereda insiste que desde o início devem ser estabelecidos quais seriam os pró-labores adequados. "Ao inseri-los no orçamento de custos, os sócios podem traçar metas de venda e de faturamento que permitam realizar a retirada no futuro", diz.

Isso é especialmente importante quando se planeja captar recursos financeiros ou mesmo passar o empreendimento para frente depois de um tempo. "Investidor adora ter tudo certinho. E quando desconfia de alguma inconsistência no pró-labore ou em outros aspectos do negócio, já vê o risco de sofrer uma fiscalização e ter problemas depois", alerta o professor da Saint Paul.

Uma razão para o meio corporativo muitas vezes ignorar o pró-labore é que ele sofre mais tributação que a distribuição de lucro. Além de recolher Imposto de Renda sobre a remuneração que recebe, o sócio que trabalha ainda paga 11% de INSS. E a empresa arca com os outros 20%.

"Se observássemos só isso, acharíamos preferível não ter pró-labore ou reduzi-lo a um salário mínimo. Mas o governo pode entender que as leis trabalhistas estão sendo infringidas e que está ocorrendo sonegação de impostos", diz Barreto.

A vantagem de pagar INSS está na possibilidade de o sócio aposentar-se pelo sistema previdenciário oficial. Mas o pró-labore, ao contrário de um salário convencional, não dá direito a FGTS, férias nem 13º salário. Para garantir esses benefícios, só se for incluída uma cláusula a respeito no contrato do pró-labore.

"Esse documento precisa ser redigido e assinado, mas não existe a obrigação de registrá-lo em cartório. Pode ficar na gaveta mesmo", afirma o professor.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é pró-labore?
Pró-labore é uma remuneração mensal paga aos sócios que exercem uma função na empresa, similar a um salário.
Qual é a importância de definir um pró-labore para os sócios?
Definir um pró-labore evita a mistura das contas pessoais com as da empresa e garante uma remuneração justa para os sócios que trabalham na empresa, além de facilitar a captação de recursos e a venda do negócio.
Como deve ser calculado o valor do pró-labore?
O valor do pró-labore deve ser calculado com base na média do mercado para a função desempenhada, considerando o porte e o setor da organização.
O que pode justificar diferenças no valor do pró-labore entre sócios?
Diferenças no valor do pró-labore podem ser justificadas pelas diferentes atividades desempenhadas pelos sócios ou pela produtividade individual, como trazer novos clientes ou trabalhar mais horas em projetos específicos.
Quais fatores devem ser considerados ao calcular a retirada dos sócios?
Deve-se avaliar a situação atual da empresa, sua capacidade de pagamento e o impacto nos custos. Em categorias com representação de classe, pode haver um piso mínimo a ser respeitado.
O que deve ser feito em negócios que estão começando e ainda não geram dividendos?
Mesmo que os sócios não sejam remunerados ou recebam pouco inicialmente, é importante estabelecer desde o início quais seriam os pró-labores adequados e incluí-los no orçamento de custos para traçar metas de venda e faturamento futuras.
Por que é importante ter um pró-labore bem definido ao buscar investidores?
Investidores preferem negócios com finanças bem organizadas. Inconsistências no pró-labore podem levantar suspeitas de problemas fiscais e afastar potenciais investidores.
Por que o pró-labore é menos vantajoso em termos tributários em comparação à distribuição de lucros?
O pró-labore sofre mais tributação, incluindo Imposto de Renda e contribuições ao INSS, enquanto a distribuição de lucros é menos onerada fiscalmente.
Quais são as vantagens de pagar INSS sobre o pró-labore?
Pagar INSS sobre o pró-labore permite que o sócio se aposente pelo sistema previdenciário oficial.
O pró-labore dá direito a FGTS, férias e 13º salário?
Não, o pró-labore não dá direito a FGTS, férias nem 13º salário, a menos que esses benefícios sejam incluídos em uma cláusula no contrato do pró-labore.
É necessário registrar o contrato de pró-labore em cartório?
Não, o contrato de pró-labore precisa ser redigido e assinado, mas não há obrigação de registrá-lo em cartório; ele pode ser mantido arquivado na empresa.

Autor

Foto de perfil de Eric Barreto

Eric Barreto

Partner e Prof. do Insper