Nos últimos anos, tenho acompanhado um aumento considerável de estudos e de discussões sobre materialidade. É bem interessante vermos apresentações cada vez mais “bonitinhas”, matrizes bem desenhadas, metodologias sendo replicadas, questionários longos, tabelas gigantes, infinidades de stakeholders pesquisados e relatórios que precisam de um número absurdo de páginas apenas para explicar de onde surgiram os temas prioritários. Mas é aí que começa o problema que quero discutir nesse artigo: quando o processo de materialidade é feito pensando mais no método do que no conteúdo e respostas que pode trazer, esse processo perde sua importância. Vira um rito burocrático que não se conecta em nada com a estratégia do negócio.
A fragilidade mais comum está onde muitos acreditam ter total controle: no excesso de apego ao formato. Em vez de usar o método como um meio para extrair conhecimento estratégico de priorização, passamos a tratá-lo como um objetivo. Seguimos roteiros, aplicamos questionários prontos, buscamos amostragens cada vez maiores e até mesmo, vemos especialistas de todo lado mostrando um processo “padrão”, mas não questionamos a maturidade das respostas recebidas, nem a profundidade das análises internas que determinam a magnitude de cada tema, sendo que eles, serão responsáveis por direcionar toda a estratégia de sustentabilidade de uma empresa. Ou seja, o estudo é perfeito no papel, mas a gestão da organização pouco se identifica com ele.
Quem já participou de processos de materialidade sabe o quanto o ruído é alto. Muitos stakeholders ainda não entendem os temas sobre os quais opinam (quando opinam), respondem sem contexto, projetam uma visão em prol do seu benefício pessoal, sem entender a relação daquele tema com o negócio. Do outro lado, a empresa também falha muitas vezes, definindo a relevância dos temas com base em impressões unilaterais ou interesses baseados na retórica (quem convence mais é escutado), sem considerar riscos futuros e entender como esse ponto é importante para determinar tudo o que será feito pela organização a partir desse momento.
O resultado é um estudo que diz muito pouco sobre o que realmente importa, mas que, gera conforto porque "cumpre um método” que alguém disse por aí que era o ideal.
A verdade é que o processo de materialidade deveria ser muito mais sobre escuta qualificada e maturação de temas x visão de futuro do negócio do que sobre estatística, mas isso exige um perfil analítico que estamos perdendo a cada dia com os "mágicos ESG". Com o boom de gente falando qualquer coisa sobre ESG e sustentabilidade, falta dentro das empresas, gente para fazer perguntas incômodas, para ouvir o que não se quer ouvir, para rejeitar respostas desalinhadas, priorizar quem realmente impacta o negócio e para investir tempo em construir uma estratégia e não um documento. Essa demanda, depende também de uma disposição da empresa em confrontar sua própria cultura, já que quem determina a magnitude de um tema dentro da organização nem sempre está olhando para o futuro, mas sim para as pressões do presente ou para os seus interesses específicos.
E aqui encontramos um ponto principal: o valor do estudo de materialidade está diretamente relacionado à capacidade da organização de transformar percepções em aprendizado, e aprendizado em estratégia.
Materialidade não é um retrato de opinião ou um levantamento percentual, mas sim, um processo de amadurecimento. É sobre transformar uma enxurrada de percepções em um conjunto de prioridades verdadeiras. Prioridades que protejam a reputação, que fortaleçam a sustentabilidade financeira do negócio e que sinalizem os caminhos possíveis de crescimento da empresa com responsabilidade.
Infelizmente, enquanto a maior parte do mercado ainda estiver mais preocupada em “ter o estudo pronto” do que em “extrair valor da essência desse projeto”, seguiremos vendo diagnósticos bonitos na foto, mas que não geram mudança nenhuma (e ainda direcionam as empresas para o caminho errado).
Por isso, vale sempre perguntar: sua materialidade é uma ferramenta de gestão ou um quadro decorativo para atender o padrão do relatório de sustentabilidade?
Se a resposta for a segunda opção, essa é a hora de parar, respirar e recomeçar. Porque quando a materialidade é feita só por formalidade, ela perde seu maior potencial: fazer a empresa pensar com profundidade sobre o que realmente importa e que deve direcionar tudo o esforço financeiro e humano da organização.