Artigo
27/04/2025

ESG Entre formalidade e estratégia: A materialidade

Explora como a materialidade pode se tornar burocrática e desconectada da estratégia empresarial em projetos ESG.

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Nos últimos anos, tenho acompanhado um aumento considerável de estudos e de discussões sobre materialidade. É bem interessante vermos apresentações cada vez mais “bonitinhas”, matrizes bem desenhadas, metodologias sendo replicadas, questionários longos, tabelas gigantes, infinidades de stakeholders pesquisados e relatórios que precisam de um número absurdo de páginas apenas para explicar de onde surgiram os temas prioritários. Mas é aí que começa o problema que quero discutir nesse artigo: quando o processo de materialidade é feito pensando mais no método do que no conteúdo e respostas que pode trazer, esse processo perde sua importância. Vira um rito burocrático que não se conecta em nada com a estratégia do negócio.

A fragilidade mais comum está onde muitos acreditam ter total controle: no excesso de apego ao formato. Em vez de usar o método como um meio para extrair conhecimento estratégico de priorização, passamos a tratá-lo como um objetivo. Seguimos roteiros, aplicamos questionários prontos, buscamos amostragens cada vez maiores e até mesmo, vemos especialistas de todo lado mostrando um processo “padrão”, mas não questionamos a maturidade das respostas recebidas, nem a profundidade das análises internas que determinam a magnitude de cada tema, sendo que eles, serão responsáveis por direcionar toda a estratégia de sustentabilidade de uma empresa. Ou seja, o estudo é perfeito no papel, mas a gestão da organização pouco se identifica com ele.

Quem já participou de processos de materialidade sabe o quanto o ruído é alto. Muitos stakeholders ainda não entendem os temas sobre os quais opinam (quando opinam), respondem sem contexto, projetam uma visão em prol do seu benefício pessoal, sem entender a relação daquele tema com o negócio. Do outro lado, a empresa também falha muitas vezes, definindo a relevância dos temas com base em impressões unilaterais ou interesses baseados na retórica (quem convence mais é escutado), sem considerar riscos futuros e entender como esse ponto é importante para determinar tudo o que será feito pela organização a partir desse momento.

O resultado é um estudo que diz muito pouco sobre o que realmente importa, mas que, gera conforto porque "cumpre um método” que alguém disse por aí que era o ideal.

A verdade é que o processo de materialidade deveria ser muito mais sobre escuta qualificada e maturação de temas x visão de futuro do negócio do que sobre estatística, mas isso exige um perfil analítico que estamos perdendo a cada dia com os "mágicos ESG". Com o boom de gente falando qualquer coisa sobre ESG e sustentabilidade, falta dentro das empresas, gente para fazer perguntas incômodas, para ouvir o que não se quer ouvir, para rejeitar respostas desalinhadas, priorizar quem realmente impacta o negócio e para investir tempo em construir uma estratégia e não um documento. Essa demanda, depende também de uma disposição da empresa em confrontar sua própria cultura, já que quem determina a magnitude de um tema dentro da organização nem sempre está olhando para o futuro, mas sim para as pressões do presente ou para os seus interesses específicos.

E aqui encontramos um ponto principal: o valor do estudo de materialidade está diretamente relacionado à capacidade da organização de transformar percepções em aprendizado, e aprendizado em estratégia.

Materialidade não é um retrato de opinião ou um levantamento percentual, mas sim, um processo de amadurecimento. É sobre transformar uma enxurrada de percepções em um conjunto de prioridades verdadeiras. Prioridades que protejam a reputação, que fortaleçam a sustentabilidade financeira do negócio e que sinalizem os caminhos possíveis de crescimento da empresa com responsabilidade.

Infelizmente, enquanto a maior parte do mercado ainda estiver mais preocupada em “ter o estudo pronto” do que em “extrair valor da essência desse projeto”, seguiremos vendo diagnósticos bonitos na foto, mas que não geram mudança nenhuma (e ainda direcionam as empresas para o caminho errado).

Por isso, vale sempre perguntar: sua materialidade é uma ferramenta de gestão ou um quadro decorativo para atender o padrão do relatório de sustentabilidade?

Se a resposta for a segunda opção, essa é a hora de parar, respirar e recomeçar. Porque quando a materialidade é feita só por formalidade, ela perde seu maior potencial: fazer a empresa pensar com profundidade sobre o que realmente importa e que deve direcionar tudo o esforço financeiro e humano da organização.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que se entende por materialidade no contexto empresarial?
A materialidade é um processo que visa identificar os temas prioritários para uma empresa. Seu objetivo é transformar um volume grande de percepções diversas em um conjunto conciso de prioridades genuínas. Essas prioridades devem ser capazes de proteger a reputação da organização, fortalecer sua sustentabilidade financeira e apontar caminhos para um crescimento responsável.
Qual é um problema frequente na execução de estudos de materialidade?
Um problema comum é que os estudos de materialidade são, muitas vezes, conduzidos com um foco desproporcional no método e no formato, em detrimento do conteúdo e das respostas estratégicas que poderiam oferecer. Isso pode fazer com que o processo se torne apenas um procedimento burocrático, sem conexão real com a estratégia do negócio.
De que forma o apego excessivo ao formato pode comprometer um estudo de materialidade?
O apego excessivo ao formato pode levar as empresas a encararem o método como um objetivo em si, e não como uma ferramenta para extrair conhecimento estratégico. Isso resulta na aplicação de roteiros e questionários padronizados sem uma análise crítica da qualidade das respostas ou da profundidade das avaliações internas. Consequentemente, o estudo pode ser metodologicamente correto, mas pouco relevante para a gestão da empresa.
Quais desafios podem surgir com a participação dos stakeholders em processos de materialidade?
Um desafio significativo é o "ruído" que pode ser gerado. Muitos stakeholders podem não compreender totalmente os temas sobre os quais estão opinando, podem responder sem o devido contexto, ou ainda projetar suas opiniões com base em benefícios pessoais, sem considerar a relevância do tema para o negócio como um todo.
Como as empresas podem cometer erros ao definir a importância dos temas em um estudo de materialidade?
As empresas podem falhar ao definir a relevância dos temas baseando-se em impressões unilaterais, em interesses influenciados pela retórica (onde a opinião de quem tem maior poder de persuasão prevalece), ou sem uma análise adequada dos riscos futuros e da importância estratégica desses temas para as futuras ações da organização.
Qual deveria ser a principal abordagem de um processo de materialidade para que ele seja eficaz?
Um processo de materialidade eficaz deveria priorizar a escuta qualificada e a maturação dos temas em relação à visão de futuro do negócio, em vez de se concentrar excessivamente em aspectos estatísticos. Isso demanda um perfil analítico capaz de formular perguntas incômodas e de priorizar os fatores que genuinamente impactam a organização.
Por que é importante ter um perfil analítico e questionador ao conduzir estudos de materialidade?
Um perfil analítico e questionador é fundamental para fazer perguntas difíceis, ouvir opiniões desconfortáveis, descartar respostas desalinhadas com os objetivos, priorizar os stakeholders que realmente impactam o negócio e, principalmente, focar na construção de uma estratégia, em vez de apenas produzir um documento. Esse perfil ajuda a empresa a confrontar sua própria cultura e a direcionar o olhar para o futuro, em vez de se limitar às pressões do presente ou a interesses particulares.
Como o valor de um estudo de materialidade se relaciona com a capacidade da organização?
O valor de um estudo de materialidade está diretamente ligado à capacidade da organização de transformar as percepções coletadas em aprendizado e, subsequentemente, converter esse aprendizado em uma estratégia eficaz e acionável.
Qual a distinção entre materialidade como um processo de amadurecimento e um simples levantamento de opiniões?
A materialidade não se resume a um retrato de opiniões ou a um levantamento de percentuais. Ela é, essencialmente, um processo de amadurecimento. Seu objetivo é transformar uma multiplicidade de percepções e dados brutos em um conjunto coeso de prioridades estratégicas e verdadeiras para a empresa.
Quais são as implicações de um estudo de materialidade que se concentra apenas em "cumprir um método"?
Quando um estudo de materialidade é realizado com o único intuito de "cumprir um método", ele tende a oferecer pouca informação sobre o que é realmente importante para a empresa. Embora possa proporcionar um falso conforto por seguir um padrão supostamente ideal, o resultado pode ser um diagnóstico que não impulsiona mudanças significativas e, em alguns casos, pode até direcionar a empresa para caminhos equivocados.
Qual o risco de encarar a materialidade apenas como uma formalidade burocrática?
Encarar a materialidade apenas como uma formalidade burocrática faz com que ela perca seu maior potencial: o de estimular a empresa a refletir profundamente sobre seus temas mais críticos. Esses temas deveriam ser a base para direcionar todos os esforços financeiros e humanos da organização, e a negligência dessa reflexão estratégica é o principal risco.
O que significa quando um estudo de materialidade é descrito como "perfeito no papel, mas a gestão da organização pouco se identifica com ele"?
Isso significa que, embora o estudo possa ter seguido uma metodologia rigorosa, com matrizes bem elaboradas e relatórios extensos, o conteúdo e as prioridades identificadas não se conectam com a realidade, as necessidades estratégicas ou a cultura da empresa. Geralmente, isso ocorre quando o processo foca excessivamente nos aspectos metodológicos em detrimento da qualidade e relevância das informações para a tomada de decisão.
Como a ausência de profundidade nas análises internas pode prejudicar um estudo de materialidade?
A falta de profundidade nas análises internas sobre a magnitude de cada tema é prejudicial porque essas análises são essenciais para definir o direcionamento da estratégia de sustentabilidade de uma empresa. Se a relevância dos temas é determinada de forma superficial, o estudo resultante pode não refletir as prioridades estratégicas reais e, consequentemente, não agregar valor à organização.
O que se compreende por "escuta qualificada" no âmbito da materialidade?
No contexto da materialidade, "escuta qualificada" refere-se à habilidade de ouvir atentamente e interpretar de forma crítica as informações e percepções provenientes dos stakeholders e da própria organização. Isso envolve ir além das respostas superficiais, estar disposto a fazer perguntas incômodas, saber filtrar informações desalinhadas e concentrar-se nos temas e atores que realmente impactam o negócio. O objetivo é construir uma estratégia robusta, e não apenas um documento formal.
Por que a materialidade deve ser vista como uma ferramenta de gestão e não como um "quadro decorativo"?
A materialidade deve ser encarada como uma ferramenta de gestão porque seu propósito é orientar a empresa a refletir profundamente sobre o que é verdadeiramente importante, direcionando assim seus recursos financeiros e humanos de forma estratégica. Quando tratada apenas como um "quadro decorativo" – algo feito para cumprir uma formalidade ou para inclusão no relatório de sustentabilidade – ela perde seu potencial de gerar aprendizado, estratégia e mudanças positivas, podendo, inclusive, levar a empresa a tomar decisões inadequadas.
Qual pode ser o impacto negativo do aumento de discussões superficiais sobre ESG e sustentabilidade nos processos de materialidade?
O aumento de discussões superficiais sobre ESG e sustentabilidade, muitas vezes por pessoas sem o devido preparo (referidas como "mágicos ESG"), pode resultar na carência de profissionais com perfil verdadeiramente analítico e crítico dentro das empresas. Esse cenário dificulta a formulação de perguntas essenciais, a escuta de feedbacks desafiadores, a rejeição de informações desalinhadas com a estratégia e a priorização de temas e stakeholders que de fato impactam o negócio. Como consequência, o foco pode se desviar da construção de uma estratégia sólida para a mera produção de documentos que cumprem formalidades.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado