Os tempos estão mudando, e com eles, os discursos também. Quem usou a governança ambiental, social e corporativa (ESG) como uma soma de práticas isoladas para fins meramente comerciais vai resistir por um tempo. Vai tentar remendar narrativas. Mas, no fim, será em vão e sua estratégia de negócio vai se dissolver.
O cenário global, fortemente influenciado por um reforço conservador na política, está transformando o ambiente de negócios. Empresas que usaram da agenda ESG apenas como uma ferramenta de marketing ou para surfar no hype, inevitavelmente pularão fora quando a pressão mudar de direção (o que já estamos vendo). E, junto com elas, muitos profissionais, consultorias e certificados sem substância desaparecerão do mapa.
Nesse “pós-boom ESG”, acredito que veremos as empresas se agruparem de novas formas:
As que abandonarão a agenda – Essas darão adeus aos compromissos e metas, muitas vezes para aliviar a pressão sobre suas ações. Para elas, ESG era apenas um capricho que poderia ser um aditivo aos seus resultados. E, com isso, a falsa transparência que já existia será jogada fora e ela voltará a ser o que sempre foi (mas agora sem uma máscara).
As que resistirão por ideologia – Algumas empresas continuarão pela presença de ativistas em seus boards, sendo guiadas mais pela visão pessoal do que pela estratégia. Não é tão sustentável assim, mas é o que as manterá de pé na agenda por conexão direta aos seus interesses e propósitos e claro, por vezes seu foco não será no ESG propriamente dito, mas em atividades específicas que se conectam com sua visão de mundo.
As que entendem o valor estratégico da agenda – Poucas, mas sólidas, continuarão usando ESG como ferramenta estratégica. Elas sabem que se trata de proteger riscos, aproveitar oportunidades e manter os negócios no rumo certo. Essas são as que realmente importam. As organizações que ao invés de metas publicas criaram estratégias sólidas, serão as que conseguirão manter-se em funcionamento e crescimento, porque seu foco está no impacto da agenda para os negócios e não no número e na visão externa, portanto tais organizações não terão qualquer impacto com as mudanças e conseguirão se destacar ainda mais pela governança sólida que criarão.
A visão do novo presidente americano de priorizar a soberania econômica, centrada em combustíveis fósseis, mostra claramente uma posição contrária a transição climática (algo que surpreende um total de zero pessoas). Ao mesmo tempo, o protecionismo econômico travestido de proteção ambiental também levanta dúvidas (que sabemos que ocorre do outro lado da moeda). Esses extremos mostram que, na prática, tudo se resume a interesses, e quem sobrevive são aqueles que conseguem especular e ajustar suas estratégias de forma rápida e inteligente sem perder sua identidade base.
Para os profissionais de ESG, o momento é de reflexão. Se sua narrativa se apoia em ideologias, conscientização coletiva ou tendências passageiras, é hora de repensar. O mundo é cíclico, e o pêndulo nunca para: o movimento para um lado inevitavelmente gera a reação oposta.
Por isso, o ideal é reforçar que ESG não tem lado político ou ideológico. Essa agenda não é uma ferramenta de guerra cultural. Ela é, e deve ser, sobre negócios estruturados, perenes e resilientes. É sobre entender o mercado e antecipar movimentos, não seguir tendências.
No fim das contas, só quem constrói sobre bases sólidas permanece. E ESG, quando feito do jeito certo, é uma dessas bases que ajuda organizações a enxergar muito além da tomada de decisão através de números do passado, mas sim através de proteção dos maiores patrimônios de um negócio (financeiro e reputacional), melhor gerindo os capitais mais relevantes da organização (natural, humano e financeiro) através de uma governança única por sobre aquilo que pode quebrar uma empresa (governança ambiental, social e corporativa).