Notícia
01/07/2014

Presidente Alexandre Tombini fala sobre cenário externo e inflação

Entrevista do presidente do Banco Central sobre cenário econômico internacional e controle da inflação no Brasil.

​Leia abaixo a entrevista do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, à Conexão Real, órgão de comunicação interna do Banco Central, publicada nesta terça-feira.


O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, falou com a Conexão Real  ao retornar da Assembleia Geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), que ocorreu neste final de semana em Basileia, na Suiça. Perguntado sobre a inflação brasileira, o presidente também fez uma avaliação sobre o cenário econômico. Veja a seguir.

1. O senhor acabou de retornar da Assembleia Geral do BIS, na Suíça. O seu cenário sobre a economia internacional foi alterado?
Primeiro, gostaria de lembrar que a nossa análise da economia global resulta, em parte, dos contatos que mantemos no exterior e de nossa presença em importantes fóruns de discussão, como é o caso das reuniões em Basileia.
No momento, a minha leitura da economia internacional passa pela avaliação de que a recuperação em 2014 continua em curso, mas em ritmo menos intenso do que o esperado inicialmente. Não se trata de reversão, mas simplesmente da constatação de que um grande número de países está revendo para baixo suas projeções de crescimento. Isso engloba países avançados, como os Estados Unidos, assim como economias emergentes, como o México, a China, o Brasil e outras. Apesar dessas revisões, não estamos em situação semelhante a de 2011, onde desenvolvimentos na Europa indicavam agravamento da crise.  No Banco Central, continuamos operando dentro das margens do cenário que tínhamos nos últimos meses, e que comunicamos nos nossos vários documentos, apenas com alguns ajustes.

2. Quais seriam as explicações para esses ajustes na sua visão?
A explicação central para esse fenômeno que atinge diversos países parece ser a seguinte: apesar das políticas de estímulo monetário e financeiro sem precedentes que foram adotadas e permitiram evitar uma nova Grande Depressão, o aumento da liquidez global não foi capaz de traduzir-se em mudança permanente e significativa da confiança dos setores reais das economias avançadas. Ou seja, os “espíritos animais” dos empreendedores ainda não se restabeleceram. A assunção de riscos de mais longo prazo, por meio de investimentos ainda não foi retomada de maneira significativa, não obstante termos sinais positivos nos mercados acionários, e de certa forma, nos mercados de imóveis.

3. Mas esse processo é homogêneo?
Naturalmente, algumas economias estão em fase mais avançada do processo de recuperação, como é o caso dos Estados Unidos, mas sofreram recentemente com choques climáticos que levaram a uma contração significativa do produto no 1º trimestre e isso deve se refletir no crescimento ao longo de 2014. Sem embargo, não acredito que isso modifique a atual estratégia de retirada gradual dos estímulos monetários nos Estados Unidos, mas pode facilitar a compreensão pelos mercados de que poderá haver um período mais longo de normalização da política monetária. Outro elemento mais recente que temos observado é a possibilidade da Zona do Euro aprofundar os seus estímulos à atividade e do Japão continuar os seus, o que, de certa forma, pode suavizar o movimento de retirada observado na economia norte-americana. E no caso da China estamos observando uma gradual mudança de patamar de crescimento. Todos esses elementos do cenário externo estão sendo gerenciados com uma melhor comunicação pelas autoridades dos respectivos países, o que deve permitir também uma maior previsibilidade para as economias emergentes.

4. Com todos esses elementos considerados, qual é a mensagem que fica?
O cenário internacional não apresenta grande mudança, apenas recuperação um pouco mais lenta do que se antecipava há pouco tempo.

5. No cenário interno, qual é a sua avaliação sobre a evolução dos preços?
Em relação ao comportamento dos preços, a inflação está sob controle e encerrará o exercício de 2014 respeitando os limites estabelecidos no âmbito do regime de metas.
A inflação mensal ao consumidor se encontra em patamar baixo e deve permanecer bem comportada nos próximos meses. Nesse sentido, deflações nos índices gerais de preços observadas recentemente tendem a se refletir com mais intensidade nos preços ao consumidor.
Não obstante isto, a inflação acumulada em doze meses deve permanecer ainda em patamar elevado, em parte, reflexo do choque de preços dos alimentos no início do ano, concentrado em março, e, em parte, reflexo do realinhamento de preços relativos que ocorre na economia brasileira.

6. Como o senhor está vendo a inflação dos alimentos?
Em relação ao choque de preços de alimentos, observamos que estes estão se dissipando e revertendo, e como mencionei anteriormente, inclusive com registro de redução de preços no atacado que começa a se traduzir em beneficio para o consumidor.

7. E quanto ao realinhamento dos preços relativos?
No que diz respeito ao realimento de preços relativos, há dois processos que ocorrem simultaneamente. O primeiro é o realinhamento das taxas de câmbio de moedas de economias emergentes e avançadas, no caso do Brasil, movimento observado nos últimos dois anos, e o segundo é o realinhamento entre os preços administrados e os preços livres, ora em curso.
Ajustes de preços relativos são frequentes e têm impactos diretos sobre a inflação, mas cabe à política monetária conter os efeitos de segunda ordem deles decorrentes.

8. Como o Banco Central atua nesse cenário?
Para combater essas e outras pressões de preços as condições monetárias foram apertadas, mas os efeitos da elevação da taxa Selic sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar.
De todo modo, em momentos como o atual, onde a inflação acumulada em doze meses ainda mostra resistência, a política monetária deve se manter vigilante para mitigar riscos.
Para concluir, gostaria de reafirmar que, mantidas as condições monetárias, a inflação tende a entrar em trajetória de convergência para a meta ao longo do horizonte relevante para a política monetária.