Notícia
17/08/2016

Vencedores do primeiro Prêmio BC de Economia e Finanças focam impacto do ‘crédito governamental’ na política monetária

Premiados do primeiro Prêmio BC de Economia e Finanças destacam impacto do crédito governamental na eficácia da política monetária.

​​​Os pesquisadores Bruno Silva Martins (na foto, à esquerda, ao lado do presidente do BC, Ilan Goldfajn) e Marco Antônio Cesar Bonomo (à direita, com o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana) são a dupla vencedora do primeiro Prêmio Banco Central de Economia e Finanças, criado como parte das comemorações dos 50 anos da instituição, com objetivo de estimular a pesquisa em ciência econômica e nos temas relacionados à missão do BC, como política monetária, estabilidade financeira e cidadania financeira. A solenidade de premiação ocorreu em São Paulo, durante o XI Seminário sobre Riscos, Estabilidade Financeira e Economia Bancária.


Para elaborar o trabalho “The impact of Government-driven loans in the Monetary Tramsmission Mechanism: what can we learn from firm level data?”, Bruno Martins e Marco Antonio Bonomo usaram dados de empréstimos ao nível da firma da Central de Risco de Crédito do Banco Central do Brasil (SCR). "Encontramos evidência de que a transmissão da política monetária pelo canal do crédito é menos efetiva para empresas com maior acesso ao crédito direcionado e/ou ao crédito concedido por bancos públicos, o que chamamos no artigo de ‘crédito governamental’. Consequentemente, a variação da taxa Selic necessária para atingir o mesmo efeito sobre o crescimento do crédito e do emprego na economia seria menor caso não houvesse crédito governamental, ou se o mesmo se comportasse de forma similar ao crédito livremente ofertado pelos bancos privados. Adicionalmente, verificamos que o impacto de choques externos sobre o custo dos empréstimos e sobre o crescimento do crédito e do emprego é menor em empresas com maior acesso ao crédito governamental", explicou Bruno Silva Martins, que trabalha no Depep, no Rio de Janeiro. 

Segundo o pesquisador, os resultados encontrados no artigo mostram que a interferência do governo no mercado de crédito impacta a transmissão de choques na economia, gerando efeitos alocativos e alterando a condução das políticas monetária e fiscal. 

Impacto regional
Em segundo lugar, ficou a dupla Fábio Martins Serrano (à esquerda na foto, com o presidente do BC) e Marcio Issao Nakane, com o trabalho “Impacto regional da política monetária no Brasil”. "Em uma abordagem bayesiana, o artigo busca responder duas perguntas: primeiro, tentamos entender se variações inesperadas na taxa Selic teriam impactos diferenciados na atividade econômica dos Estados brasileiros. De fato, encontramos evidência empírica que aponta para a existência de respostas regionais assimétricas. São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná são os Estados mais sensíveis. Em um segundo momento, buscamos compreender quais seriam os principais determinantes para os resultados encontrados na primeira parte do artigo”, explica Fábio Serrano. 

De acordo com ele, a evidência encontrada indica que a estrutura produtiva é um dos principais fatores para explicar a sensibilidade dos Estados à política monetária. “Estados com um setor industrial mais desenvolvido apresentam uma sensibilidade maior ao choque no instrumento de política do Banco Central", afirma, reforçando que a diversidade socioeconômica brasileira é muito grande e que a compreensão completa dos impactos de políticas horizontais, como é o caso da política monetária, tem de passar também por uma análise regional da questão. 

Assimetrias
O terceiro lugar ficou com Ederson Luiz Schumanski (à esquerda na imagem, com o presidente Ilan Goldfajn), autor do trabalho “Asymmetric Price and Wage Rigidity in Brazil: Estimation of a DSGE Model via Particle Filter”. O artigo tem como objetivo averiguar se há assimetria entre preços e salários na economia brasileira; ou seja, se os participantes da economia (empresas e ofertantes de mão de obra) são mais rígidos em reajustar seus preços e salários para baixo ou para cima. "Adicionalmente, realiza-se a análise dos efeitos da política monetária e fiscal na dinâmica da economia. Para isso, utiliza-se um modelo Dinâmico Estocástico de Equilíbrio Geral (DSGE) não linear com custos de ajustamento assimétricos de preços e de salários com base no trabalho de Aruoba, Bocola e Schorfheide (2013). Diante da não linearidade gerada por essas assimetrias, o modelo é solucionado através de um método de solução não linear e os seus parâmetros estimados com a ajuda do Filtro de Partículas. O resultado encontrado é que tanto os preços quanto os salários são mais rígidos para baixo e essas assimetrias na rigidez influenciam a dinâmica da economia quando ela sofre choques de política monetária e fiscal", explicou Ederson Luiz Schumanski.

Na avaliação do autor, o trabalho é importante porque a maior parte dos trabalhos envolvendo economias dinâmicas foca na representação linearizada das condições de equilíbrio, considerando uma versão simplificada da realidade, o que limitaria a análise de fenômenos não lineares que podem ser observados nos dados reais. "Um exemplo seria a presença de assimetrias na economia, com agentes econômicos mais rígidos em reduzir do que em aumentar preços e salários, que poderia trazer maior dificuldade para o Banco Central desinflacionar a economia após uma redução dos juros com o objetivo de estimular a atividade econômica. Esse trabalho é um dos primeiros, utilizando dados da economia brasileira, a considerar assimetrias na rigidez de preços e de salários e mensurá-las, bem como verificar seus efeitos nas principais variáveis macroeconômicas. Encontrar evidências de que existem essas assimetrias ajuda o Banco Central a ser mais acurado no seu processo de condução da política monetária", argumentou.

O consultor Joao Barata Ribeiro Blanco Barroso, do Banco Central, em Brasília, recebeu menção honrosa pelo quarto lugar com o trabalho “Quantitative Easing and United States Investor Portfolio Rebalancing Towards Foreign Assets”. 

Diferentes abordagens 
Para a consultora Katherine Hennings, do BC, que fez parte da banca examinadora do concurso, o Prêmio constitui uma oportunidade para estimular a reflexão e a produção de estudos em frentes de trabalho do Banco Central por estudantes, acadêmicos, analistas de mercado e estudiosos desses assuntos. “Quanto mais esses temas forem estudados, mais serão compreendidos, o que favorece a atuação do BC. Essa primeira edição teve como tema a política monetária e os trabalhos que recebemos para analisar englobaram diversos pontos de vista e preocupações. A diversidade de abordagens e de metodologias foi muito positiva. Está traduzido nos trabalhos selecionados”, apontou.

A banca contou com sete membros, sendo três servidores do BC e quatro especialistas externos. "Todos têm experiência na avaliação de trabalhos dessa natureza e a definição dos critérios de análise transcorreu sem polêmicas, uma vez que foram utilizados quesitos padrão como a originalidade do problema e da abordagem, a estruturação logica do problema, a metodologia utilizada e o artigo em si. Todos esses aspectos foram intensamente avaliados em cada trabalho candidato ao prêmio. Houve consenso quanto ao resultado final", concluiu Katherine.