Ministro da Fazenda fala sobre perspectivas econômicas, enquanto especialistas internacionais discutem o rumo da economia mundial
A Operação Lava Jato é um passo importante, mas insuficiente, para o Brasil superar os problemas decorrentes da corrupção. Essa é a avaliação dos personagens que protagonizaram o painel “As consequências econômicas e políticas da Lava Jato”, que abriu o último dia do 8.º Congresso Internacional de Mercados Financeiros e de Capital, promovido pela B3 em Campos do Jordão.
O coordenador da força-tarefa da Lava Jato e procurador do Ministério Público Federal, Delton Dallagnol, disse que o País deve atuar sobre as condições que favorecem a corrupção. Nesse contexto, defendeu a realização de uma reforma política que reduza o número de partidos, barateie as campanhas eleitorais e torne viável uma fiscalização mais efetiva dos candidatos. “Estamos no caminho certo, mas é preciso dar passos adicionais. Sem mudanças mais profundas, a Lava Jato é enxugar gelo”, afirmou.
O procurador aproveitou a ocasião para criticar a reforma política em discussão no Congresso Nacional. “A reforma política proposta hoje é para mudar tudo para que tudo permaneça como está”, disse. Ele também destacou que a impunidade ainda é a regra no País, o que favorece a corrupção. “Apenas três em cada 100 casos de corrupção são punidos”, afirmou Dallagnol,
O economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca seguiu na mesma linha do procurador. “A Lava Jato é condição necessária, mas insuficiente, para resolvermos os nossos problemas”, disse. “Se não melhorarmos as regras e os jogadores, o jogo vai degringolar de novo”, afirmou. Assim como Dallagnol, Giannetti da Fonseca defendeu uma reforma política profunda que, entre outros pontos, diminua a quantidade de partidos no País. “É uma aberração termos 28 partidos no Congresso, como hoje. Não consigo imaginar um país como o nosso com mais de 4 ou 5 partidos que representem correntes de opinião relevantes da sociedade brasileira.”
O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) completou o painel e defendeu a redução do tamanho do Estado como uma das medidas estruturais para o combate à corrupção. Segundo ele, o Brasil tem hoje 28 ministérios e 107 estatais controladas pelo governo federal. “O Estado brasileiro é sequestrado pelas corporações. A maior pressão que o Congresso Nacional recebeu este ano não foi para a adoção de medidas para atacar o desemprego, que atinge 13 milhões de pessoas, mas para aumentar salários de quem já tem estabilidade”, criticou.
Perspectivas econômicas
Em sua palestra, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que o Brasil está saindo da recessão mais longa da história. Ele apresentou estimativas do Ministério segundo as quais o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 0,5% em 2017 na comparação com 2016. O ministro ressaltou, no entanto, que outras estimativas indicam que, no quarto trimestre do ano, a economia já estará avançando acima de 3% em termos anualizados.
As projeções do Ministério são de que o PIB crescerá 3,2% no quarto trimestre deste ano em relação ao terceiro trimestre, e 2% levando em conta o quarto trimestre de 2017 em comparação com igual período de 2016. “Estamos saindo da recessão solidamente e vamos surpreender a muitos”, disse Meirelles.
O presidente do Conselho de Administração da B3, Pedro Parente, fez um balanço do Congresso, e destacou a importância da realização de reformas estruturais que garantam o crescimento sustentado da economia brasileira. “Estamos postergando a solução para o tamanho do Estado tributando as crianças, diretamente através do endividamento público e indiretamente através dos excessivos gastos previdenciários”, afirmou.
As duas últimas apresentações do Congresso da B3 serão realizadas a partir das 19 horas. O novo presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marcelo Barbosa, fará no evento seu primeiro pronunciamento público. Pelo Banco Central, o palestrante será o diretor de Política Monetária, Reinaldo Le Grazie.
Futuro do capitalismo e economia dos EUA
Em outros dois painéis, os economistas Luigi Zingales, professor da Chicago Booth School of Business, e Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley), falaram, respectivamente, sobre o momento atual do capitalismo e os impactos do governo de Donald Trump sobre a economia global. Outro especialista internacional, Gideon Rachman, comentarista do Financial Times, falou sobre a tensão geopolítica no mundo atual, com destaque para Brexit e as relações entre os Estados Unidos e a Rússia.
O evento
A B3 promoveu, entre os dias 24 e 26 de agosto, o 8.º Congresso Internacional de Mercados Financeiros e de Capital, único evento do País a reunir toda a cadeia de participantes do mercado financeiro, com a participação de autoridades, acadêmicos e renomados profissionais do Brasil e do exterior. A próxima edição do Congresso será realizada em 2019.