Adão e Eva, Perfil e alma e Nus do Rochedo, de Ismael Nery, são obras do acervo do Museu de Valores do Banco Central (BC) cedidas para uma exposição atualmente em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, localizado no Parque do Ibirapuera."Essas obras chegaram ao BC dentro do grande grupo que hoje forma cerca de 90% da coleção de arte da instituição. Elas eram originalmente da galeria Collectio, que agitou o mercado de arte no Brasil entre 1969 e 1973, e depois passou para o Banco Áurea, para o qual a Collectio devia cerca de meio milhão de dólares", explica Jussara Zottmann, do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do BC. O Banco Áurea, por sua vez, sofreu intervenção e liquidação extrajudicial entre 1975 e 1978, quando as obras passaram ao Banco Central. Saiba mais sobre a coleção.
De acordo com Jussara, o BC recebe consultas e pedidos de empréstimo de acervo algumas vezes por ano, que são atendidos desde que o demandante cumpra as exigências de seguro, transporte especializado e condições adequadas de exposição. "No ano passado, o BC emprestou obras de Antonio Bandeira para uma exposição realizada pela Universidade de Fortaleza, além de peças do acervo numismático ao Memorial da América Latina, em São Paulo", exemplificou.
Figura humana
A mostra é de curadoria de Paulo Sergio Duarte, crítico e professor-pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados (Cesap) da Universidade Candido Mendes e da Escola de Artes Visuais –Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Segundo o curador, ao se observar o conjunto da obra de Ismael Nery (1900 –1934), revelam-se importantes características do artista: seu desprezo pelo mercado da arte, evidenciado na produção em pequenos formatos – alguns dos trabalhos cabem na palma da mão, ao contrário de seus contemporâneos modernistas.
Outro ponto marcante do artista é a coragem, na avaliação do curador. O artista voltou-se, entre a década de 1920 e o início dos anos 1930, para o exercício simultâneo das correntes artísticas mundiais, como o cubismo, o expressionismo e o surrealismo. Era avesso às questões modernistas brasileiras, que buscavam uma identidade nacional através dos traços e dos símbolos. De acordo com Paulo, a temática favorita do autor era a ambivalência e a ambiguidade de gênero. "Na obra Namorados em traje de banho [s.d. Aquarela sobre papel] há a ambiguidade homem/mulher, ambos com corpos muito parecidos. Isso se repete em vários desenhos e pinturas", comenta.
Ismael Nery foi um artista brasileiro do início dos anos 1900 que teve grande importância na história da arte do país, embora sua carreira tenha sido curta e a produção, pequena. Seu principal tema foi a figura humana, que pintou tanto com uma forte carga simbólica, como em retratos feitos sob encomenda. Nery foi um dos poucos artistas considerados surrealistas no Brasil e teve sua obra influenciada pelo artista Marc Chagall, que conheceu em viagem à Europa. Foi um dos precursores do surrealismo no Brasil, ao lado de Cícero Dias.
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