Notícia
04/09/2018

Inovação, proteção à competição e produtividade são essenciais para desenvolvimento das instituições brasileiras

Discussão sobre a importância da inovação, competição e produtividade para o desenvolvimento econômico do Brasil.


Superar a crise fiscal, que consome recursos públicos e inibe investimentos e o mercado de capitais, é apenas o primeiro passo a ser tomado no curto prazo para o Brasil se tornar mais desenvolvido no futuro. Independentemente de quem for eleito nas próximas eleições, o país precisa ir além e criar instituições que estimulem a inovação, protejam a competição e melhorem a produtividade nas próximas décadas. Esse foi o pano de fundo do painel “Por que nações falham? Uma visão de longo prazo para o Brasil”, no segundo dia do Congresso Brasileiro de Mercado de Capitais, promovido pela ANBIMA e pela B3, em São Paulo. Os economistas James Robinson, professor da Universidade de Chicago, e Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, demonstraram confiança na capacidade de o Brasil retomar o rumo do desenvolvimento, apesar da crise e dos retrocessos econômicos dos anos recentes.

Além de manter a inflação baixa e o câmbio flutuante, o país precisa enfrentar o ajuste das contas do governo, que gasta R$ 950 bilhões com despesas de pessoal e de previdência, R$ 250 bilhões com despesas obrigatórias e tem apenas R$ 100 bilhões para atender de forma discricionária todas as outras demandas da sociedade, apontou Malan. “É fundamental equacionar o nosso problema fiscal. Manter as finanças públicas em ordem não é um objetivo em si mesmo. É uma condição indispensável para que o país possa tratar de outros objetivos mais importantes do desenvolvimento econômico e social nas áreas de educação, saúde segurança, meio ambiente”, afirmou. “O longo prazo começa agora.”

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Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda

O maior desafio do Brasil é político, afirmou Robinson, que também é cientista político e co-autor do livro “Porque as nações fracassam”. São os políticos que, em suas decisões, criam as condições de desenvolvimento no longo prazo que fazem alguns países ficarem ricos, enquanto outros continuam pobres, argumentou. “Sou otimista com relação ao Brasil, desde a redemocratização muitas coisas deram certo no país”, disse. Alguns passos importantes foram dados, como o rigor contra a corrupção. “O combate à corrupção não resolve todos os problemas do país, mas é a coisa certa a fazer”, acrescentou.

Estimular a inovação, o empreendedorismo e a competição é fundamental para gerar riqueza em longo prazo - os Estados Unidos são um bom exemplo disso. Robinson usou os bilionários Bill Gates e Carlos Slim como exemplos de sucesso em dois países separados apenas pela fronteira. O dono da Microsoft inovou na indústria de software e criou uma fortuna imensa porque teve seus direitos intelectuais protegidos, uma tradição nos Estados Unidos desde a invenção da lâmpada por Thomas Edson.

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James Robinson, professor da Universidade de Chicago

Já o mexicano Carlos Slim montou um império das comunicações baseado num monopólio, num estado clientelista e governado por um partido único, o PRI (Partido Revolucionário Industrial). Não foi à toa que os EUA, com leis antitruste severas (que atingiram a Standard Oil e até a Microsoft) e estímulos à competição, são mais ricos que o México, disse o especialista. “É preciso criar instituições inclusivas, em que todos possam competir”, insistiu Robinson. Ele citou duas inovações brasileiras que chamaram sua atenção: a adoção das urnas eletrônicas, que permitiram aos analfabetos votarem, e o orçamento participativo em Porto Alegre, que aumentou a cobrança da população sobre a atuação do governo.

Faltando apenas 33 dias para o primeiro turno das eleições presidenciais, os brasileiros precisam tomar as decisões corretas, alertou Malan. “Vamos evitar incorrer em velhos e conhecidos erros, assim como evitar a tentação de novos erros que nunca foram testados”, disse ele. A longa história do populismo na América Latina mostrou que ele sempre fracassa e prejudica os mais pobres, com alta da inflação e desinvestimento. “Temos três coisas a evitar: messianismo salvacionista, voluntarismos excessivos e exercícios de autoritarismo para resolver problemas de uma sociedade complexa como o Brasil”, finalizou Malan.