“É necessário entender que o Brasil terminou um ciclo político de 30 anos”, afirmou o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros em entrevista à jornalista Christiane Pelajo, durante a manhã desta quinta-feira, 25, no 10º Congresso ANBIMA de Fundos de Investimento. Esse ciclo começou com a transição democrática e com a Constituição de 1988, que criou canais de transmissão de renda do governo para a sociedade. Compreender o fim desse período permite uma análise do cenário atual de forma menos ansiosa, ao contrário do que o mercado e a mídia vem fazendo, considera o ex-ministro das comunicações e ex-presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso.
“Por conta da formação, da crença no liberalismo econômico e nos mercados eficientes, o mercado é muito ‘naive’ e, quando se coloca política no meio, as coisas mudam”, afirmou. Portanto, ele considera natural que a visão clara e organizada do ministro Paulo Guedes seja diluída quando entrar em contato com a sociedade e o Parlamento. “Essa revolução liberal tem que passar pelo crivo da sociedade, do Congresso. O mercado financeiro não pode medir o governo em relação ao que ele acha que o governo devia estar fazendo”, disse.
Luiz Carlos Mendonça de Barros em entrevista à jornalista Christiane Pelajo nesta quinta-feira, 25
Na opinião do economista, o Brasil nunca será um país com Estado mínimo, dadas as caraterísticas da nossa sociedade: “70% da população é pobre e para ela o Estado é o único provedor”. Portanto, ele entende que a ansiedade com relação a medidas liberais precisa ser dosada.
À dificuldade de leitura do cenário político, soma-se o imediatismo da mídia: “a imprensa não consegue perceber o que tem atrás da notícia do dia. É difícil encontrar alguém com análise um pouco diferente e quem faz isso não são os jornalistas que cobrem o dia a dia”, avaliou. Para ele, o cenário é muito otimista, desde que se pare de ler o jornal.
“Olhando para o somatório de forças, minha leitura de hoje é positiva. Não é verdade que o governo está se esfacelando”, afirmou. O economista considera que o mais adequado para avaliar a popularidade do presidente é somar o percentual de pessoas que consideram sua gestão como regular, boa e ótima: nessa situação, Jair Bolsonaro conta com o apoio de 2/3 da opinião pública.
Ele também acredita que a confusão enfrentada neste início de governo será superada e que ela é natural, considerando-se que saímos da extrema esquerda para a extrema direita, trazendo pessoas sem experiência no Executivo. “Não há como terminar um ciclo e começar outro de forma totalmente organizada”, afirmou. Nesse sentido, ele considera um sinal positivo o fato de o presidente ter acenado a favor de uma acomodação com os conflitos com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e de ter marcado uma viagem à China.
Aprovada a reforma da previdência com uma economia considerada “razoável”, que mostre que haverá estabilidade no longo prazo, e passado o momento de acomodação do ciclo político, o cenário é positivo. “O governo entrará num ciclo favorável, com um hiato de produto muito grande. Ele precisará ter coragem de criar estímulos para alcançar um crescimento econômico de 3% ou até 4%”, comentou. Mendonça de Barros disse que nunca assistiu a um excesso de mão de obra tão elevado quanto o atual, e que isso dá flexibilidade para que o governo estimule a economia sem gerar inflação.
Reforma tributária, crescimento potencial e produtividade
Esse não é o momento para começar a discussão sobre reforma tributária, considera o economista. “Primeiro, é necessário resolver a questão da previdência”, afirmou. Depois, é preciso algum tempo para que o tecido econômico se adapte a uma nova realidade do ponto de vista ideológico. Só então, quando a economia crescer e a arrecadação do governo aumentar, será possível começar a discutir a questão.
Mendonça de Barros afirmou que a economia brasileira é caraterizada pela elevada propensão ao consumo e pelo baixo crescimento: nos últimos 22 anos, nosso PIB médio cresceu abaixo de 3% ao ano, enquanto a indústria avançou 2% médios e a indústria manufatureira, apenas 1%. O PIB potencial está na ordem de 2,5% e 3% ao ano, estima. “O Brasil é um país de consumo. Nossa poupança é baixa. Não vamos crescer 5%, a não ser que o povo mude”, disse.
O economista considera que a melhora da produtividade da agricultura brasileira, atividade que cresceu 3,5% ao ano nos últimos 20 anos, foi possível em grande medida por conta da organização política dos produtores rurais. Enquanto os industriais tradicionalmente trabalharam por meio da pressão política junto ao Executivo, os ruralistas se organizaram por meio do Legislativo – e compuseram uma grande bancada de deputados empenhados em defender os interesses da atividade. Enquanto isso, a indústria se manteve com a mesma estratégia de lobby, o que a levou a trabalhar com monopólios, disse.
“Nós precisamos realmente de um choque de competitividade na economia”, afirmou. Ele fez ainda sua mea-culpa e reviu a posição que anteriormente defendia. “Fui contra a abertura econômica do país a vida toda e vou pagar os meus pecados”, falou.