Notícia
26/11/2020

Congresso 2020: Juros baixos fomentam empreendedorismo e diversificação dos investimentos

Juros baixos no Brasil estimulam empreendedorismo, diversificação dos investimentos e crescimento do mercado de capitais.

A redução da Selic de 14,25% ao ano, em 2016, para 2%, em 2020, está mudando de maneira significativa a forma como os brasileiros lidam com o dinheiro. E isso se acentuará em caso de manutenção da taxa básica de juros da economia em patamares baixos. O cenário estimulará as pessoas a assumirem mais riscos em suas aplicações e fomentará o empreendedorismo, com cada vez mais novos negócios. Esse foi um dos temas do debate que abriu o terceiro dia do Congresso Brasileiro de Mercado de Capitais, evento organizado pela ANBIMA e pela B3 nesta quarta (25).

“A maior transformação que poderia acontecer no Brasil é a redução da taxa de juros. O país sempre foi rentista, com monopólios e oligopólios que não faziam o dinheiro circular. Hoje, as pessoas são obrigadas a pensar no longo prazo, a assumir riscos, a diversificar os investimentos e a empreender”, afirma Guilherme Benchimol, fundador e CEO da XP Inc.

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Empreendedorismo e diversificação dos investimentos foram temas do debate entre Fabrício Bloisi (iFood e Grupo Movile, à esq.), Guilherme Benchimol (XP Inc., à dir.) e Felipe Paiva (B3, centro)

 

À frente de uma empresa com 2,6 milhões de clientes, Benchimol criou a XP há 19 anos com o objetivo de democratizar o acesso aos investimentos no país. Em um cenário de juros baixos, ele acredita que mais empreendedores emergirão com ideias inovadoras e disruptivas. “Sempre fomos um país instável e as pessoas buscavam estabilidade, tanto que o sonho dos brasileiros era ser concursado público. Mas isso não pode ser o sonho de uma nação inteira. Se antes a taxa de juros desestimulava a abertura de um negócio, hoje aflora o empreendedorismo”, diz.

Novas fontes de financiamento

Juros mais baixos também ampliam as fontes de financiamento das empresas, que passam a enxergar o mercado de capitais como uma alternativa cada vez mais acessível. Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes e Pessoa Física da B3, lembrou que, nos últimos dez anos, foram feitas mais de 210 ofertas públicas na bolsa brasileira, com cerca de R$ 500 bilhões captados em IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) e follow-ons. “Este ano, bateremos o recorde de IPOs na bolsa, além de termos alcançado a marca de 3 milhões de pessoas físicas na B3. Isso é só o começo da transformação”, opina.

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A mentalidade dos brasileiros também começa a mudar. Benchimol afirma que 70% dos investimentos aqui estão atrelados ao CDI e a tendência é que parte desses recursos migre para ativos de risco nos próximos anos. “O yield [retorno sobre o investimento] na bolsa brasileira é de 2,5%, ou seja, o dividendo que a pessoa recebe ao comprar o Ibovespa é superior ao que ela ganha com o CDI”, diz.

Transformação digital está só começando

Nos últimos anos, o ecossistema de startups amadureceu, com o crescimento de diversas empresas de base tecnológica e o fortalecimento de players importantes da cadeia, como fundos de venture capital, corporate venture e investidores-anjo. Em 2020, milhares de empresas também foram obrigadas a acelerar suas transformações digitais durante a pandemia. Para Fabrício Bloisi, CEO do iFood e presidente do conselho do Grupo Movile, os próximos três anos serão ainda mais agressivos na jornada de digitalização das empresas no Brasil, com a oportunidade da chegada ao mercado – ou do crescimento – de mais companhias digitais e disruptivas.

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Questionado pelos outros participantes, ele afirma que ainda não é a hora para abertura de capital do iFood. “Acreditamos que temos tamanho para isso, estamos capitalizando e fazendo vários investimentos, mas não é o momento agora. É uma conversa que temos no conselho e que pode ser reavaliada”, explica Bloisi. Mas ressalta o crescimento do iFood: “Em oito meses, avançamos dois anos em termos de penetração. Só em agosto foram mais de 45 milhões de pedidos na plataforma”, conta o empreendedor.

Muitas indústrias serão impactadas com o uso de tecnologias como a inteligência artificial, a exemplo dos setores de educação e saúde. Na próxima década, o digital deverá estar no centro dos negócios. “Há alguns anos, das dez principais empresas norte-americanas, apenas uma era de tecnologia. Hoje são cinco. Na China, ocorreu o mesmo. Espero um cenário parecido no Brasil. Em breve, não falaremos mais de unicórnios que valem US$ 1 bilhão, mas de empresas com valor de mercado de US$ 100 bilhões”, completa Bloisi.