Notícia
27/11/2020

Congresso 2020: Atuação de influenciadores financeiros precisa ser acompanhada pela regulação

Discussao sobre a necessidade de regulacao da atuacao de influenciadores financeiros nas redes sociais para evitar conflitos de interesse e proteger investidores.

As redes sociais transformaram as relações pessoais na última década e popularizaram a figura dos influenciadores digitais. Em anos recentes, alguns personagens passaram a multiplicar seguidores com vídeos e postagens em um tema para lá de polêmico: investimentos pessoais. A linha que separa uma opinião de uma recomendação é tênue e pode esconder conflitos de interesses. Assim, a atuação desses novos “magos” das finanças precisa ser acompanhada de perto pelos reguladores. 

A opinião é de Tito Gusmão, fundador da plataforma de investimentos Warren, que participou de um painel sobre o tema no Congresso Brasileiro de Mercado de Capitais, evento organizado pela ANBIMA e pela B3 nesta quinta (26). “Identificar a motivação financeira do influenciador talvez seja uma forma de a CVM filtrar o que é opinião e o que é recomendação. Se a pessoa é remunerada por aquilo, precisa passar por escrutínio por parte do regulador”, diz.

+ Participe do Congresso Brasileiro de Mercado de Capitais

Adeodato Volpi Netto, sócio-fundador da Eleven Financial Research, lembra que a atividade do analista de valores mobiliários é regulada pela Instrução CVM 598, que estabelece o que é uma recomendação de investimento. No dia a dia das redes sociais, entretanto, a linha que separa recomendação de opinião dos influenciadores é quase imperceptível – e pode impactar a base de seguidores. “Dependendo do alcance que essa pessoa tiver, emitir uma opinião ou falar sobre sua própria carteira de investimentos acabará influenciando outras pessoas. Vejo esse tema com muita preocupação”, afirma.

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George Wachsmann (Vitreo, à esq.), Tito Gusmão (Warren, à dir.) e Adeodato Volpi Netto (Eleven Financial Research, centro) debateram sobre o papel dos novos agentes na recomendação de produtos de investimento

 

A CVM discute atualmente o quanto esses influenciadores financeiros digitais impactam a tomada de decisão dos seus seguidores. George Wachsmann, sócio-fundador da plataforma de investimentos Vitreo, lembra que o regulador emitiu um parecer recente sobre a atuação desses players. “A autarquia diz que as pessoas têm direito a se manifestar sobre investimentos financeiros, mas, se forem específicas em uma recomendação, o próprio regulador vai avaliar se está havendo uma remuneração diretamente ou indireta sobre isso”, conta. 

Investidores sócios-torcedores

Uma das críticas de Volpi Netto é sobre o surgimento dos “sócios-torcedores” no mercado financeiro. Via de regra, são investidores que compram ações de uma determinada empresa e usam mídias sociais como o Twitter para comemorar cada centavo de valorização, como uma torcida organizada. “E a pessoa fica enlouquecida se alguém emite uma opinião contrária à dela. É um nível de histeria inacreditável. Recebo e-mails de clientes falando sobre um ticker [código que identifica uma ação] que eles compraram mesmo sem saber do que se trata, só porque ouviram falar no YouTube ou no Twitter”, comenta. 

Gusmão observou que um novo perfil de investidor ganhou os holofotes globalmente nos meses mais intensos da pandemia: os apostadores. “Isso também ocorreu no Brasil, que nunca foi um país aberto a jogos. Nas redes sociais, elas mostram a bolsa como um cassino e isso é bastante prejudicial em um momento que os brasileiros precisam aprender a investir em empresas”, conta.

Meios digitais também são aliados

Investimento é um assunto sério e os brasileiros precisam ter maior diligência na escolha do conteúdo e informações que consomem sobre finanças pessoais. “Com a evolução da tecnologia, as respostas se tornaram commodities e as pessoas precisam aprender a fazer as perguntas: como eu posso investir melhor, como posso diversificar os investimentos, como construir um patrimônio de longo prazo? Só não digite no Google 'como ficar rico no ano que vem'”, exemplifica Volpi Netto.

Ao mesmo tempo em que são utilizados por aproveitadores que vendem promessas de enriquecimento fácil, os meios digitais também são aliados dos profissionais de investimento na tarefa de compartilhar conteúdo de qualidade, interagir e ajudar as pessoas a tomar as melhores decisões para suas aplicações. “A recomendação é sempre buscar fontes confiáveis, instituições respeitadas e com boa reputação”, diz Volpi Netto. “Nossa missão é que é preciso pensar no longo prazo, que ficar rico leva tempo, que é preciso construir um tijolo de cada vez. O problema é que se alguém fala que é possível conquistar um milhão em uma semana terá mais apelo”, completa Gusmão.