Nos últimos anos, o ESG passou por um boom: ganhou força entre investidores, se tornou assunto frequente no mundo corporativo e virou objeto de trabalho do jornalismo e de pesquisadores.
Como consequência da atenção sobre o tema, as organizações passaram a ser cada vez mais demandadas a contarem ao mundo o que fazem nos aspectos ambientais, sociais e de governança corporativa.
Esse contexto gerou um novo desdobramento: os reportes não financeiros, que sempre tiveram um papel estratégico, ganharam uma carga extra de importância - e isso turbinou a pressão sobre as empresas para atenderem exigências técnicas.
Foi assim que chegamos aqui: um momento em que a produção dos relatórios se tornou mais desafiadora do que nunca. Vem entender o que está acontecendo!
UM EMARANHADO DE STANDARDS E FRAMEWORKS
Para que o público esteja bem-informado sobre o que fazem as empresas, os relatos anuais geralmente seguem padrões e estruturas que tornam suas informações mais estratégicas e comparáveis.
Aqui na B3, por exemplo, usamos no nosso relatório anual diretrizes e princípios da Global Reporting Initiative (GRI), do IIRC (International Integrated Reporting Council), da Task-Force on Climate Related Financial Disclosures (TCFD) e do SASB (Sustainability Accounting Standards Board).
Mas nem sempre é fácil atender e conciliar as diferentes metodologias. Embora muitas empresas já estejam acostumadas, a curva de aprendizado está longe de terminar.
Isso ocorre porque, diante da necessidade de tornar os relatórios mais assertivos, o ecossistema dos standards e frameworks de relato está passando por uma série de mudanças, que incluem consolidações de iniciativas, surgimento de outras e um olhar atento dos reguladores.
Naturalmente, essa transformação acelerada gera dúvidas nas empresas. Quais padrões e estruturas seguir? Como conciliar diferentes propostas em um mesmo documento? Como cumprir com excelência os seus requisitos?
DECIFRANDO AS MUDANÇAS
Para apoiar empresas a transitarem melhor pelo novo cenário, realizamos em maio o evento "Fórum ESG: Tendências de Reporte”, que contou com três convidados que estão ajudando a construir o futuro dos reportes:
- Verity Chegar, representante do board do International Sustainability Standards Board (ISSB);
- Vânia Borgerth, vice-coordenadora de Relações Internacionais do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS);
- e Felipe Arango, conselheiro técnico e líder de pilotos do Task-force on Nature-Related Financial Disclosures (TNFD).
A partir das apresentações dos palestrantes, foi possível vislumbrar que os relatórios não financeiros devem seguir ao menos três grandes tendências nos próximos anos:
- A demanda para que as companhias relatem informações cada vez mais relevantes e capazes de suportar investidores na alocação de capital deve continuar a crescer;
- A regulação dos relatos corporativos por parte de órgãos governamentais deve ganhar força e gerar novas obrigatoriedades de disclosures;
- E o trabalho conjunto de organizações que fornecem frameworks e standards deve se acelerar, de forma a consolidar e conciliar metodologias, além de tornar a produção dos relatos mais viável e comparável.
Diante desses movimentos, é recomendável que as empresas se preparem desde já para acompanhar este cenário dinâmico.
DIRETO DA FONTE
Durante o evento, os palestrantes também abordaram pontos específicos sobres as iniciativas que representam. Confira alguns dos principais trechos:
Verity Chegar:
Sobre a chegada dos aguardados standards do ISSB, guarda-chuva sobre o qual se encontrarão o IIRC, SASB e TCFD.
“Os standards serão liberados no fim de junho. Orientamos as empresas a começarem a colocá-los em prática a partir de primeiro de janeiro de 2024. Isso significa que seu período de cobertura será o ano que vem ano e, portanto, vocês poderão publicar em 2025.”
"Ouvimos do mercado que todos concordam que o TCFD é uma estrutura útil para o clima, mas não apenas para o clima, e sim para outras informações de sustentabilidade. Portanto, tornamos o seu framework a espinha dorsal de ambos os nossos padrões".
Sobre a conciliação com a GRI
"Temos um memorando de entendimento com a GRI porque essa complementaridade atende públicos diferentes. O ISSB foca nas divulgações para investidores e a GRI vai ajudar as empresas a fazerem suas divulgações orientadas ao impacto para outros stakeholders. Estamos realmente trabalhando juntos.”
Vânia Borgerth
Sobre a criação do CBPS
"O mandato do CPC (Comitê de Pronunciamentos Contábeis) é traduzir as normas contábeis internacionais e fazer os ajustes necessários para adequá-las à legislação, regulamentação e especificidades do mercado brasileiro. O que realizamos no ano passado foi criar uma instituição espelhada para fazer o mesmo com os standards de relato de sustentabilidade. Assim que o ISSB liberar os padrões, o CBPS os estará traduzindo e os ajustando ao mercado brasileiro".
Sobre a relação com entre as iniciativas de padrões e princípios de reportes e os reguladores:
"O ISSB não pode vir ao Brasil e dizer que a partir de agora as empresas vão usar seu standard para relatos de sustentabilidade. Mas é muito mais fácil para um regulador local endossar os padrões que vêm de uma instituição como a IFRS Foundation, GRI, SASB, porque são instituições independentes."
“Recomendo que não esperem conhecer os padrões da ISSB para começarem a publicar relatórios de sustentabilidade porque, com isso, ajudamos a educar os reguladores".
Felipe Arango
Sobre o TNFD, novo framework que busca retratar a interação entre a economia e a natureza e que será lançado globalmente em setembro
"Os riscos relacionados à natureza muitas vezes são silenciosos, vão evoluindo gradualmente e se manifestam repentinamente. Essas características fazem com que os mercados, as corporações e a economia não tenham tomado os riscos em conta. Esta é a origem da TNFD, sabendo que nossa economia depende da natureza.”
“Fazemos recomendações de divulgação seguindo a estrutura do TCFD. A ideia é que os que já tenham reportado seguindo o TCFD em relação ao clima já estarão avançados em relação à possível integração das recomendações da TNFD.”
CONEXÕES DE VALOR
O evento foi uma iniciativa do Conexões de Valor, nosso programa que busca apoiar as empresas na sua jornada pelo mercado de capitais. Se você tem interesse em inscrever sua empresa, acesse aqui.