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02/10/2025

American Airlines x LATAM — Reestruturações financeiras e governança em tempos de crise: práticas de transparência e relação com stakeholders

Compara as estratégias de reestruturação financeira e governança de LATAM e American Airlines durante a crise da pandemia.

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Crises econômicas sempre testam a resiliência das empresas. No setor aéreo, esse desafio se torna ainda maior, já que as companhias dependem de fatores externos como preço do combustível, câmbio, demanda de passageiros e condições regulatórias. A pandemia de 2020 foi um desses choques históricos. Ela obrigou as empresas a repensarem sua estrutura financeira e a forma como se relacionam com seus investidores, empregados, clientes e governos.

Nesse contexto, duas gigantes do setor aéreo — American Airlines e LATAM — seguiram caminhos diferentes para enfrentar a turbulência. A LATAM optou pelo processo de reorganização judicial nos Estados Unidos, conhecido como Chapter 11, enquanto a American Airlines utilizou instrumentos de apoio governamental, combinados com ajustes internos de dívida e gestão de liquidez. Essas escolhas revelam muito sobre a relação entre governança corporativa, transparência e o papel dos stakeholders em momentos de crise.

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Respostas distintas à mesma crise

A LATAM, em maio de 2020, optou por entrar com pedido de proteção judicial nos Estados Unidos. Essa medida, conhecida como Chapter 11, é um mecanismo legal que permite a uma empresa reorganizar suas dívidas sem interromper suas operações. Na prática, a companhia continua voando e atendendo clientes, mas ganha tempo para negociar com credores e buscar novas fontes de financiamento. Durante esse processo, a LATAM obteve acesso a recursos importantes, renegociou contratos e conseguiu o apoio de credores e acionistas relevantes. O resultado foi uma redução significativa do endividamento e a recuperação da liquidez, permitindo que a empresa saísse do Chapter 11 em novembro de 2022 em uma posição financeira mais equilibrada.

Já a American Airlines decidiu trilhar um caminho diferente. Em vez de recorrer a um tribunal, a empresa buscou apoio direto em programas públicos oferecidos pelo governo norte-americano. Entre eles estavam o Payroll Support Program (PSP), que ajudava a manter empregos no setor aéreo, e empréstimos concedidos pelo Tesouro. Paralelamente, a American também fez ajustes internos em sua estrutura de dívida, renegociando prazos, utilizando linhas de crédito já disponíveis e antecipando pagamentos quando possível. Essa combinação de apoio estatal e disciplina financeira deu fôlego à companhia, que conseguiu enfrentar o período mais crítico da pandemia sem recorrer a uma reestruturação formal. Com a melhora da liquidez nos anos seguintes, a empresa conseguiu inclusive quitar parte dos instrumentos de apoio recebidos.

Em resumo, as duas companhias enfrentaram a mesma turbulência global, mas seguiram estratégias distintas: a LATAM optou por um processo judicial robusto, que envolveu negociações longas e estruturadas com credores, enquanto a American preferiu um caminho baseado em suporte governamental e ajustes internos de gestão. Ambas as escolhas tiveram como objetivo central a mesma meta: atravessar a crise, proteger a continuidade dos negócios e preservar sua posição no setor aéreo.

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Conceitos importantes para entender as escolhas

  • Chapter 11: mecanismo do direito americano que suspende temporariamente cobranças e processos de execução, dando tempo para a empresa renegociar dívidas sob supervisão judicial.

  • DIP Financing: crédito emergencial concedido durante a reestruturação, com prioridade de pagamento, usado para manter operações ativas.

  • PSP (Payroll Support Program): programa do governo dos EUA que ajudou companhias aéreas a pagar salários e preservar empregos durante a crise.

  • Stakeholders: todas as partes interessadas no negócio, como credores, acionistas, empregados, clientes, fornecedores e reguladores.

Causas que levaram a decisões diferentes

As escolhas feitas por LATAM e American Airlines não foram casuais. Elas refletem diferenças profundas no ambiente econômico, no acesso a recursos e na forma como cada empresa se relacionava com seus credores e acionistas. No caso da LATAM, o ponto de partida foi a falta de apoio governamental direto nos países da América Latina. Durante a pandemia, os Estados Unidos criaram programas robustos para socorrer o setor aéreo, mas em muitos mercados latino-americanos esse suporte não ocorreu com a mesma intensidade. Diante dessa limitação, a empresa precisou buscar alternativas em outro cenário jurídico. O Chapter 11 se mostrou uma opção atraente porque permitia lidar com ativos e passivos espalhados em diferentes países, reunindo todos os credores em uma mesma mesa de negociação. Assim, o processo judicial nos EUA ofereceu uma solução técnica e abrangente para um problema que era, ao mesmo tempo, regional e internacional.

A posição de liquidez e a estrutura de dívidas também influenciaram bastante. Antes da crise, a LATAM já tinha forte exposição a contratos de leasing de aeronaves e mantinha dívidas com credores internacionais. Essa configuração exigia um instrumento formal e estruturado para renegociar pagamentos, prazos e condições. Já a American Airlines, embora fortemente impactada pela queda abrupta na demanda, tinha acesso a um mercado doméstico muito maior e mais líquido. Além disso, pôde recorrer rapidamente a linhas de crédito e programas emergenciais do Tesouro dos EUA, o que reduziu a necessidade de recorrer ao Judiciário.

Outro fator importante foi a composição acionária e as alianças estratégicas de cada companhia. A LATAM contava com grandes acionistas dispostos a realizar aportes relevantes para viabilizar sua saída do Chapter 11, ainda que isso implicasse diluição de participações e ajustes na governança. Essa estratégia combinou renegociação de dívidas com injeções de capital privado. A American, por outro lado, se apoiou mais fortemente em recursos públicos e no acesso aos mercados de capitais, preservando parte de sua estrutura acionária sem passar por um processo judicial complexo.

Em resumo, a LATAM recorreu ao Chapter 11 porque não tinha alternativas governamentais equivalentes e porque sua base de credores internacionais exigia uma solução legal abrangente. Já a American Airlines, beneficiada por um mercado interno robusto e pelo apoio rápido do governo norte-americano, encontrou na ajuda estatal e na gestão financeira interna um caminho mais direto para atravessar a crise.

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Efeitos e governança em prática

As respostas de LATAM e American Airlines não se limitaram a questões financeiras. Elas também mostraram como a governança corporativa e as práticas de transparência podem assumir formas diferentes em tempos de crise. Cada empresa lidou com seus stakeholders de maneiras específicas, que refletem tanto o contexto em que estavam inseridas quanto as escolhas feitas para atravessar o período de instabilidade.

No caso da LATAM, a governança se manifestou por meio de um processo judicial formal, altamente documentado e de longa duração. Durante o Chapter 11, cada etapa exigiu apresentação de relatórios detalhados ao tribunal, votação de credores e aprovação judicial. Esse caminho aumentou o nível de transparência formal, pois todos os documentos — planos de reorganização, prazos e números financeiros — eram de acesso público. Além disso, os acionistas estratégicos tiveram papel importante, participando diretamente da renegociação e assumindo compromissos que garantiram o pacote de saída do processo. A governança, portanto, não se restringiu apenas a conselhos e gestores: ela envolveu credores, acionistas e até o próprio sistema judicial.

Já na American Airlines, a lógica foi diferente. Por não ter seguido para o Chapter 11, a empresa precisou manter uma comunicação contínua e clara com investidores, empregados, reguladores e a imprensa. O recebimento de recursos públicos exigiu contrapartidas, como emissão de warrants e obrigações de prestar contas regularmente ao Tesouro americano. Isso significou a publicação periódica de relatórios, anúncios de medidas operacionais e explicações sobre como os recursos estavam sendo utilizados. Nesse caso, a transparência foi mais relacional: em vez de se basear em documentos judiciais, ela ocorreu no diálogo constante com stakeholders, reforçando a confiança no curto prazo.

Essa diferença é importante de destacar. A transparência formal se expressa em relatórios legais, planos de reestruturação e documentos obrigatórios que ficam registrados publicamente. Já a transparência relacional se constrói no contato direto e frequente com empregados, clientes, fornecedores e reguladores, por meio de comunicações mais rápidas e acessíveis. Ambas são formas válidas de governança, mas atuam em registros e ritmos distintos.

Efeitos sobre os stakeholders

As escolhas também geraram impactos específicos para os principais grupos envolvidos:

  • Credores: no Chapter 11, como ocorreu com a LATAM, os credores participam ativamente do processo e muitas vezes precisam aceitar cortes no valor devido (haircuts) ou trocar parte da dívida por instrumentos híbridos, como ações. Já nos pacotes públicos recebidos pela American, os credores não enfrentaram perdas diretas tão significativas, mas precisaram lidar com restrições e prioridades impostas pelo governo.

  • Acionistas: em reestruturações judiciais, a tendência é de diluição dos acionistas antigos, já que novos aportes de capital são exigidos. Na LATAM, essa dinâmica ocorreu com clareza. No caso da American Airlines, os pacotes públicos ajudaram a preservar mais valor para os acionistas no curto prazo, embora tenham vindo acompanhados de contrapartidas, como warrants e covenants, que limitavam parte da autonomia financeira.

  • Empregados e operações: tanto no Chapter 11 quanto nos pacotes públicos, os efeitos sobre os trabalhadores foram significativos. Programas de furloughs, negociações salariais e planos de recall foram adotados. Nesse contexto, a comunicação foi determinante para manter o moral e a continuidade do serviço.

  • Reputação e clientes: quando bem conduzido, o Chapter 11 permite a continuidade da operação e dá confiança de que a empresa terá futuro. Porém, a incerteza prolongada pode gerar receio em clientes, afetando reservas e fidelidade. Por isso, a comunicação clara e frequente com passageiros foi essencial para reduzir esse risco. Já no caso da American, a narrativa de apoio governamental e recuperação rápida ajudou a reforçar a ideia de solidez perante o público.

Em resumo, os efeitos da crise e as práticas de governança adotadas mostraram que não existe apenas uma forma de lidar com momentos de turbulência. Enquanto a LATAM se apoiou na transparência formal de um processo judicial estruturado, a American Airlines escolheu a transparência relacional, baseada em comunicação constante e prestação de contas ao governo e ao mercado. Ambas as práticas buscaram o mesmo objetivo: preservar a confiança dos stakeholders e garantir a sobrevivência da companhia.

Vantagens e desvantagens dos caminhos

Quando analisamos as estratégias escolhidas por LATAM e American Airlines, fica claro que cada modelo trouxe benefícios importantes, mas também riscos e limitações. A comparação ajuda a entender como diferentes mecanismos jurídicos e financeiros impactam a governança e a relação com stakeholders.

LATAM — Chapter 11

A decisão de entrar com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos foi, ao mesmo tempo, uma necessidade e uma oportunidade.

Vantagens:

  • O Chapter 11 é uma ferramenta jurídica muito poderosa. Ele permite que a empresa reúna todos os seus credores em um único processo, criando condições para renegociar contratos de leasing, dívidas bancárias e outros passivos em diferentes países.

  • A companhia conseguiu reduzir de forma significativa sua dívida total, abrindo espaço para novas emissões e financiamento DIP (debtor-in-possession), que dá liquidez imediata durante a reestruturação.

  • Esse processo possibilitou um reequilíbrio financeiro abrangente, oferecendo uma base mais sólida para retomar o crescimento.

Desvantagens:

  • O processo é longo, custoso e extremamente público. Cada etapa é acompanhada por tribunais, credores e imprensa, o que prolonga a incerteza e gera preocupação em clientes e empregados.

  • Existe o risco de desgaste reputacional, já que o termo “falência” pode afastar consumidores e investidores menos familiarizados com o Chapter 11.

  • Além disso, os acionistas existentes sofreram diluição, já que novos aportes de capital foram necessários para financiar a saída da crise.

American Airlines — Apoio governamental e gestão da dívida

No caso da American Airlines, a escolha foi recorrer a pacotes de apoio do governo norte-americano combinados com ajustes internos de dívida e operações financeiras.

Vantagens:

  • A resposta foi muito rápida, permitindo que a empresa estabilizasse sua liquidez em pouco tempo e transmitisse confiança ao mercado.

  • Como a solução não envolveu um processo judicial de falência, o estigma público foi menor. Isso preservou a imagem da companhia junto a clientes e parceiros comerciais.

  • Os acionistas conseguiram preservar mais valor no curto prazo, principalmente porque a ajuda permitiu atravessar a fase mais aguda da crise até a recuperação da demanda por viagens aéreas.

Desvantagens:

  • O apoio governamental veio acompanhado de contrapartidas. A empresa precisou aceitar a emissão de warrants, sujeitar-se à supervisão do Tesouro e lidar com intenso escrutínio político.

  • Essa dependência de recursos públicos pode ser vista como fragilidade, já que deixa a companhia vulnerável a pressões externas e críticas sociais sobre o uso de dinheiro dos contribuintes.

  • Além disso, a solução pode ter mascarado alguns problemas estruturais da companhia. Sem uma reestruturação tão profunda quanto a do Chapter 11, parte das fragilidades financeiras pode reaparecer no médio prazo.

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Tendências futuras no setor

Ao observar os casos de LATAM e American Airlines, podemos identificar alguns caminhos prováveis para o futuro do setor aéreo e, de forma mais ampla, para empresas que enfrentam crises em escala global. Essas tendências não são certezas absolutas, mas hipóteses fundamentadas em experiências recentes e nas mudanças institucionais que vêm ocorrendo.

  1. Maior uso de reestruturações transnacionais: O Chapter 11, antes visto como um recurso distante para empresas estrangeiras, agora se tornou um mecanismo testado e viável. O caso da LATAM mostrou que companhias de mercados emergentes podem se beneficiar desse instrumento, mesmo operando em diferentes países e moedas. Assim, é provável que outras empresas latino-americanas ou de regiões com estruturas jurídicas mais frágeis passem a considerar o Chapter 11 como alternativa para lidar com dívidas internacionais de forma organizada.

  2. Preferência por soluções híbridas: O futuro das reorganizações financeiras tende a caminhar para modelos que combinem diferentes fontes de capital. Isso significa unir aportes de acionistas estratégicos a financiamentos garantidos (como linhas de crédito lastreadas em ativos). Essa combinação pode reduzir prazos de negociação e tornar os processos menos desgastantes, ao mesmo tempo em que fortalece a confiança de credores e investidores.

  3. Governança e transparência como diferencial competitivo: As crises recentes reforçaram um ponto essencial: empresas que comunicam bem, de forma clara e responsável, têm mais chances de manter a confiança de investidores, clientes e empregados. A transparência deixou de ser apenas uma obrigação regulatória e passou a ser vista como um diferencial competitivo. Além disso, a integração de práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) será cada vez mais valorizada. Investidores tenderão a privilegiar empresas que combinem eficiência financeira com responsabilidade social e ambiental.

  4. Papel crescente dos governos em crises sistêmicas: Outro aprendizado da pandemia foi a importância da presença estatal em momentos de colapso econômico. Governos, ao injetarem recursos públicos, criam condições de sobrevivência para setores estratégicos, mas também exigem contrapartidas rigorosas. Isso significa mais compliance, mais disclosure público e maior exposição a críticas e debates políticos. Para as empresas, a consequência é a necessidade de desenvolver estruturas robustas de governança e comunicação, capazes de atender não só ao mercado, mas também às exigências regulatórias e sociais.

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Lições práticas para conselhos e times de governança

Os casos da LATAM e da American Airlines oferecem aprendizados valiosos que podem orientar outras empresas diante de crises de grande porte. Mais do que olhar apenas para a sobrevivência imediata, conselhos de administração e equipes de governança precisam estruturar respostas que sejam financeiramente sólidas e, ao mesmo tempo, transparentes para todos os envolvidos.

  1. Elaborar planos de contingência com múltiplas opções: Não existe uma única saída para momentos de forte instabilidade. Por isso, as empresas devem preparar previamente cenários que incluam desde a possibilidade de reestruturação judicial até alternativas de financiamento estratégico ou pedidos de apoio público. Essa visão de múltiplos caminhos permite agir com rapidez quando a crise se materializa, reduzindo a improvisação e aumentando a confiança dos stakeholders.

  2. Priorizar uma comunicação em duas etapas: A comunicação em tempos de crise precisa ser estruturada de forma sequencial. De um lado, é essencial cumprir a exigência de relatórios formais, entregues a reguladores, credores e investidores. De outro, deve haver um diálogo contínuo com empregados, fornecedores e clientes. Essa combinação de transparência formal e relacional garante que todos os públicos recebam informações adequadas ao seu nível de envolvimento, evitando ruídos e fortalecendo a confiança.

  3. Usar acionistas e parceiros estratégicos como fontes de liquidez: A estrutura acionária e as parcerias firmadas pela empresa podem se tornar recursos importantes em situações de aperto financeiro. Acionistas estratégicos podem aportar capital e parceiros podem oferecer crédito ou flexibilizar contratos. No entanto, é fundamental negociar com clareza as contrapartidas, como mudanças na governança, participação nos conselhos ou condições de voto. Isso evita surpresas no futuro e garante que o reforço de liquidez venha acompanhado de estabilidade institucional.

Crises expõem fragilidades, mas também aceleram mudanças de governança. A escolha entre um processo jurídico estruturado (Chapter 11) e soluções de mercado/estatais depende menos de “qual opção é melhor” e mais da combinação entre contexto institucional, perfil dos stakeholders e objetivos estratégicos da companhia. LATAM e American ilustram dois caminhos: um formal e demorado, outro imediato e condicionado — ambos exigem transparência ativa, decisões de conselho bem documentadas e comunicação empática com as partes interessadas.

Fontes:

  • White & Case – Análises sobre reestruturações transnacionais e o uso do Chapter 11.

  • Cases RA Kroll – Documentação e relatórios oficiais do processo de reorganização da LATAM.

  • LATAM Airlines – Comunicados oficiais sobre o Chapter 11 e os planos de reorganização.

  • American Airlines (Newsroom) – Comunicados oficiais sobre medidas financeiras, recebimento e quitação de recursos públicos.

  • American Airlines (Investor Relations) – Comunicados oficiais sobre medidas financeiras, recebimento e quitação de recursos públicos.

  • U.S. Department of the Treasury – Informações sobre os programas de apoio (Payroll Support Program e empréstimos ao setor aéreo).

  • Financial Times – Reflexões sobre governança, transparência e integração de práticas ESG como diferencial competitivo.

  • Financier Worldwide – Análises sobre riscos reputacionais e impactos do Chapter 11 em clientes e investidores.

  • Reuters – Reportagens sobre apoio governamental às companhias aéreas nos EUA.

  • s205.q4cdn.com – Relatórios de governança, liquidez e parcerias estratégicas de LATAM e American Airlines.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é o Chapter 11?
O Chapter 11 é um mecanismo do direito norte-americano que permite a uma empresa em dificuldades financeiras reorganizar suas dívidas sob supervisão judicial, sem a necessidade de interromper suas operações.Na prática, esse processo suspende temporariamente as cobranças e processos de execução contra a companhia, dando-lhe tempo para negociar com credores, buscar novas fontes de financiamento e reestruturar seus passivos. Durante esse período, a empresa pode continuar operando normalmente, atendendo clientes e mantendo suas atividades comerciais.
Qual a finalidade do DIP Financing?
O DIP Financing (Debtor-In-Possession Financing) é uma modalidade de crédito emergencial concedida a empresas que estão passando por um processo de reorganização judicial, como o Chapter 11.Sua principal finalidade é fornecer a liquidez necessária para que a companhia mantenha suas operações ativas durante o período de reestruturação. Esse tipo de financiamento tem prioridade de pagamento em relação a outras dívidas, o que o torna mais seguro para os credores que o concedem.
O que foi o Payroll Support Program (PSP)?
O Payroll Support Program (PSP) foi um programa criado pelo governo dos Estados Unidos para fornecer ajuda financeira a companhias aéreas durante a crise gerada pela pandemia de 2020. O principal objetivo do programa era ajudar as empresas a pagar salários e, assim, preservar empregos no setor aéreo, que foi um dos mais afetados pela queda na demanda de passageiros.
O que são stakeholders?
Stakeholders são todas as partes interessadas ou impactadas pelas atividades de uma empresa. Esse grupo inclui não apenas os acionistas (donos de uma parte do negócio), mas também credores, empregados, clientes, fornecedores e reguladores governamentais. A gestão da relação com todos esses públicos é um pilar fundamental da governança corporativa.
Qual estratégia a LATAM adotou para enfrentar a crise econômica de 2020?
Em maio de 2020, para enfrentar a crise causada pela pandemia, a LATAM optou por entrar com um pedido de reorganização judicial nos Estados Unidos, utilizando o mecanismo conhecido como Chapter 11.Essa medida permitiu que a empresa continuasse suas operações enquanto renegociava suas dívidas com credores e buscava novas fontes de financiamento. O processo, que durou até novembro de 2022, resultou em uma redução significativa do endividamento e na recuperação da liquidez da companhia, permitindo que ela saísse da crise em uma posição financeira mais equilibrada.
Qual estratégia a American Airlines adotou para enfrentar a crise econômica de 2020?
A American Airlines adotou uma estratégia diferente da reorganização judicial para enfrentar a crise de 2020. A companhia recorreu a programas de apoio oferecidos pelo governo norte-americano, como o Payroll Support Program (PSP), que ajudava a manter empregos, e empréstimos concedidos pelo Tesouro dos EUA.Paralelamente, a empresa realizou ajustes internos em sua estrutura de dívida, renegociando prazos e utilizando linhas de crédito já disponíveis. Essa combinação de suporte estatal e disciplina financeira interna permitiu que a companhia atravessasse o período mais crítico da crise sem a necessidade de um processo formal de reestruturação judicial.
Por que a LATAM e a American Airlines escolheram estratégias diferentes para lidar com a crise de 2020?
A LATAM e a American Airlines adotaram estratégias distintas para enfrentar a crise de 2020 devido a diferenças em seus ambientes econômicos, acesso a recursos e estrutura de dívidas.A LATAM recorreu ao Chapter 11 nos Estados Unidos principalmente pela falta de programas de apoio governamental direto e de mesma intensidade nos países da América Latina onde opera. Além disso, sua estrutura de dívidas, com forte exposição a contratos de leasing de aeronaves e credores internacionais, exigia uma solução legal abrangente e centralizada, que o Chapter 11 oferecia.Já a American Airlines pôde trilhar um caminho diferente por ter acesso a um mercado doméstico maior e mais líquido, além de contar com o rápido e robusto apoio do governo dos EUA. Programas como o Payroll Support Program (PSP) e empréstimos do Tesouro forneceram a liquidez necessária para a empresa atravessar a crise sem precisar de uma reestruturação judicial formal.
Quais as vantagens e desvantagens da estratégia de Chapter 11 adotada pela LATAM?
A decisão da LATAM de recorrer ao Chapter 11 apresentou vantagens e desvantagens significativas.Vantagens:
  • Ferramenta jurídica poderosa: Permitiu reunir todos os credores, inclusive internacionais, em um único processo para renegociar dívidas e contratos de forma organizada.
  • Redução da dívida: O processo possibilitou uma redução significativa do endividamento total da empresa.
  • Acesso a liquidez: A companhia conseguiu acesso a financiamentos emergenciais (DIP financing) para manter suas operações ativas durante a reestruturação.
  • Reequilíbrio financeiro: Ofereceu uma base financeira mais sólida para a retomada do crescimento após a crise.
Desvantagens:
  • Processo longo e custoso: O Chapter 11 é um processo demorado, caro e extremamente público, o que pode gerar incerteza prolongada para clientes e empregados.
  • Risco reputacional: O termo, muitas vezes associado incorretamente à falência, pode afastar consumidores e investidores menos familiarizados com o mecanismo.
  • Diluição de acionistas: Os acionistas existentes sofreram diluição de sua participação, pois novos aportes de capital foram necessários para financiar a saída da crise.
Quais as vantagens e desvantagens da estratégia de apoio governamental da American Airlines?
A estratégia da American Airlines de utilizar apoio governamental e gestão interna da dívida também teve seus prós e contras.Vantagens:
  • Rapidez na resposta: A ajuda estatal permitiu estabilizar a liquidez da empresa rapidamente, transmitindo confiança ao mercado.
  • Menor estigma público: Por não envolver um processo judicial de falência, a imagem da companhia junto a clientes e parceiros foi mais preservada.
  • Preservação de valor para acionistas: No curto prazo, os acionistas conseguiram preservar mais valor em suas participações.
Desvantagens:
  • Contrapartidas governamentais: O apoio veio acompanhado de condições, como a emissão de warrants (títulos que dão direito a comprar ações no futuro) e a necessidade de se sujeitar à supervisão do Tesouro dos EUA e a um intenso escrutínio político.
  • Vulnerabilidade a pressões externas: A dependência de recursos públicos pode ser vista como uma fragilidade e deixar a empresa exposta a críticas sobre o uso de dinheiro de contribuintes.
  • Risco de mascarar problemas: Sem uma reestruturação profunda como a do Chapter 11, a solução pode ter apenas adiado a resolução de fragilidades financeiras estruturais, que podem ressurgir no futuro.
Qual a diferença entre transparência formal e transparência relacional na governança corporativa?
A transparência formal e a relacional são duas formas distintas, mas complementares, de uma empresa se comunicar com seus stakeholders, especialmente em momentos de crise.A transparência formal se manifesta por meio de documentos legais e obrigatórios, como relatórios financeiros detalhados, planos de reestruturação e outros registros públicos exigidos por tribunais ou reguladores. É uma comunicação estruturada e documentada, como a que ocorreu no processo de Chapter 11 da LATAM, onde cada etapa era registrada publicamente.Já a transparência relacional é construída no diálogo direto e frequente com as partes interessadas, como empregados, clientes e fornecedores. Ela se baseia em comunicações mais rápidas e acessíveis para reforçar a confiança no curto prazo. Foi o modelo adotado pela American Airlines, que manteve uma comunicação contínua com o mercado e prestou contas ao governo sobre o uso dos recursos públicos recebidos.
Quais foram os impactos das diferentes estratégias de recuperação sobre os acionistas da LATAM e da American Airlines?
Os acionistas de ambas as companhias foram impactados de maneiras distintas pelas estratégias de recuperação adotadas.No caso da LATAM, que passou pelo processo de Chapter 11, houve uma diluição significativa da participação dos acionistas antigos. Isso ocorreu porque reestruturações judiciais geralmente exigem novos aportes de capital para financiar a saída da crise, o que resulta na emissão de novas ações e na consequente redução da fatia dos sócios existentes.No caso da American Airlines, os pacotes de apoio governamental ajudaram a preservar mais valor para os acionistas no curto prazo, evitando a diluição vista em processos de reestruturação. No entanto, essa ajuda veio acompanhada de contrapartidas, como a emissão de warrants para o governo, que são instrumentos que podem limitar parte da autonomia financeira da empresa no futuro.
Que tendências futuras para o setor aéreo podem ser observadas a partir das crises recentes?
A análise das respostas à crise de 2020 aponta algumas tendências prováveis para o futuro do setor aéreo e da governança corporativa em geral:
  1. Maior uso de reestruturações transnacionais: Mecanismos como o Chapter 11 se mostraram viáveis para empresas de mercados emergentes com dívidas internacionais, e seu uso tende a crescer.
  2. Preferência por soluções híbridas: Haverá uma tendência de combinar diferentes fontes de capital em reorganizações financeiras, como aportes de acionistas estratégicos e financiamentos garantidos, para acelerar os processos.
  3. Governança e transparência como diferencial: A comunicação clara e a adoção de práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) se tornarão diferenciais competitivos cada vez mais valorizados por investidores.
  4. Papel crescente dos governos em crises sistêmicas: A intervenção estatal em momentos de colapso econômico se mostrou crucial, mas também implicará mais exigências de conformidade (compliance) e prestação de contas (disclosure) por parte das empresas que recebem ajuda.
Que lições de governança corporativa podem ser aprendidas com os casos da LATAM e da American Airlines?
As experiências da LATAM e da American Airlines durante a crise de 2020 oferecem lições práticas para conselhos de administração e equipes de governança:
  1. Elaborar planos de contingência múltiplos: As empresas devem se preparar para crises criando cenários que incluam diversas opções, como reestruturação judicial, financiamento estratégico ou busca por apoio público. Isso permite uma ação mais rápida e menos improvisada.
  2. Adotar uma comunicação em duas etapas: É fundamental combinar a transparência formal (relatórios para reguladores e investidores) com a transparência relacional (diálogo contínuo com empregados, clientes e fornecedores) para manter a confiança de todos os públicos.
  3. Utilizar parceiros estratégicos como fonte de liquidez: Acionistas e parceiros podem ser uma fonte vital de capital em momentos de crise. No entanto, as negociações devem ser claras sobre as contrapartidas, como mudanças na governança ou nas condições de voto, para garantir a estabilidade institucional.

Autor

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Mónica Sofia Polaco Vieira

Economista | Governança Corporativa | Finanças | Transformação | Estratégia e Desenvolvimento de Negócios | Treinamentos e Palestras in Company