Artigo
22/07/2025

Cisnes Negros e RPPS: Investir em Tempos de Incerteza

Analisa como eventos imprevisíveis impactam investimentos dos RPPS e propõe estratégias antifrágeis.

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Há livros que se leem com os olhos. Outros, com o cérebro. Mas alguns, como A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Taleb, nos atravessam de um jeito tão profundo que é o coração quem precisa digerir. Terminei a leitura com uma inquietação difícil de silenciar — e se tudo o que planejamos nos RPPS estiver sendo feito sob a ilusão de controle?

Taleb nos mostra que o mundo é regido não pelo previsível, mas pelo inesperado. E o mais perigoso: esses eventos raros, os chamados “cisnes negros”, não apenas são impossíveis de prever com precisão, como têm impacto brutal e transformador. São improváveis, sim. Mas não irrelevantes.

E aqui está a primeira conexão incômoda: os RPPS são estruturas que, por natureza, precisam de estabilidade, previsibilidade e controle. Mas o que ocorre quando a realidade econômica, política ou atuarial nos confronta com aquilo que não estava nos cenários projetados? Quando o cálculo atuarial feito com toda técnica e responsabilidade se vê desmontado por uma pandemia, uma quebra de mercado ou uma mudança legislativa abrupta?

A tirania do conhecimento retrospectivo

Uma das provocações mais fortes de Taleb é sobre o viés retrospectivo: nossa tendência de, após um evento extremo, acreditar que ele era previsível. Vemos isso com frequência na gestão previdenciária. Quando um fundo sofre perdas, é comum ouvirmos: “era óbvio que esse ativo estava arriscado”. Mas, sejamos honestos — não era. O problema é que confundimos conhecimento com controle. Achamos que porque dominamos os números, conseguimos domesticar o futuro. E isso é uma ilusão que custa caro.

A Política de Investimentos dos RPPS, com seus critérios técnicos, metas atuariais e alocação por segmento, é essencial. Mas não é uma fortaleza intransponível diante da incerteza radical. Talvez, depois de Taleb, devêssemos olhar para ela como um guarda-chuva em meio a um furacão — importante, mas incapaz de conter tudo.

A falácia da normalidade

Taleb também nos alerta para o perigo da “curva normal”, essa velha conhecida da estatística que assume que a maioria dos eventos se comporta dentro de uma média, com poucos desvios extremos. Ora, os RPPS muitas vezes projetam cenários com base nessa premissa. Mas e quando os ativos têm comportamento assimétrico? Quando uma pequena fração da carteira representa o risco de grandes perdas — ou ganhos? A história da previdência pública tem exemplos dos dois.

A resposta que se impõe é: precisamos aprender a conviver com a incerteza sem fingir que ela não existe. Incorporar margens de segurança, manter reservas de liquidez mais robustas, avaliar os riscos com humildade epistemológica — aquela consciência de que o que não sabemos é, muitas vezes, mais relevante do que aquilo que achamos que sabemos.

Robustez antifrágil: o caminho possível

E então Taleb propõe o conceito que mais me tocou: antifragilidade. O antifrágil não é apenas resistente ao caos — ele melhora com o caos. Transforma choques em alavancas de crescimento. E isso me fez pensar: como tornar os RPPS antifrágeis?

Talvez isso signifique construir carteiras que se beneficiem de assimetrias, que não apostem tudo em um único cenário. Signifique adotar políticas de investimentos que não sejam estáticas, mas que se reinventem diante do inesperado, sem perder de vista o passivo previdenciário. Signifique, sobretudo, reconhecer que não saber é também uma forma de sabedoria.

Para terminar, sem encerrar

Escrevo este artigo não como quem traz respostas, mas como quem faz perguntas. Taleb me tirou da zona de conforto — e talvez essa seja a maior utilidade de um livro assim. Ao olhar para os RPPS com os olhos da incerteza, não perdemos o rigor técnico, mas ganhamos uma nova lente: a da humildade diante do desconhecido.

O futuro que prometemos proteger aos servidores públicos exige mais do que gestão — exige coragem para lidar com o incerto. E se há algo que aprendi com o cisne negro é que a ignorância consciente é mais sábia que a certeza ilusória. Que sigamos, então, não para prever o improvável, mas para resistir a ele com inteligência, prudência e, por que não, um pouco de poesia.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é um evento do tipo “cisne negro”?
Um “cisne negro” é um evento raro, inesperado e impossível de prever com precisão. Apesar de sua baixa probabilidade, ele possui um impacto brutal e transformador.
Como os eventos do tipo “cisne negro” podem afetar os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS)?
Os RPPS são estruturas que dependem de estabilidade e previsibilidade para cumprir suas obrigações de longo prazo. No entanto, eles são vulneráveis a eventos do tipo “cisne negro”, como pandemias, quebras de mercado ou mudanças legislativas abruptas.Esses acontecimentos inesperados não costumam fazer parte dos cenários projetados e podem desmontar o planejamento e os cálculos atuariais, mesmo que tenham sido feitos com a máxima técnica e responsabilidade.
O que é o viés retrospectivo e como ele se manifesta na gestão previdenciária?
O viés retrospectivo é a tendência de acreditar que um evento extremo era previsível, mas apenas depois que ele ocorreu. Na gestão previdenciária, isso se manifesta quando, após um fundo sofrer perdas significativas, surgem comentários como “era óbvio que esse ativo estava arriscado”, embora o risco não fosse claro antes do fato.Esse viés surge da confusão entre conhecimento e controle, levando à falsa impressão de que, por dominar os números, seria possível controlar o futuro, uma ilusão que pode custar caro.
Qual é a limitação da Política de Investimentos de um RPPS diante de grandes incertezas?
A Política de Investimentos, com seus critérios técnicos, metas atuariais e alocação de ativos, é uma ferramenta essencial para a gestão de um RPPS. Contudo, ela não é uma fortaleza intransponível diante de uma incerteza radical.Ela pode ser comparada a um guarda-chuva em meio a um furacão: é importante e oferece alguma proteção, mas é incapaz de conter os efeitos de um evento extremo e de grande magnitude.
Qual é o risco de basear o planejamento de um RPPS na premissa da “curva normal”?
O principal risco de usar a “curva normal” estatística no planejamento de um RPPS é que ela assume que a maioria dos eventos se concentra em torno de uma média, com poucos desvios extremos. Essa premissa pode ser perigosa no mundo dos investimentos.Muitos ativos financeiros apresentam comportamento assimétrico, onde uma pequena fração da carteira pode representar um risco desproporcional de grandes perdas ou, inversamente, de grandes ganhos. Basear-se na normalidade pode levar a uma subestimação dos riscos e impactos de eventos extremos.
O que significa o conceito de “antifragilidade” aplicado aos RPPS?
O conceito de antifragilidade descreve um sistema que não apenas resiste ao caos, mas efetivamente melhora e se fortalece com ele, transformando choques em oportunidades de crescimento.Aplicar essa ideia aos RPPS significaria ir além da simples robustez. Envolveria, por exemplo, construir carteiras de investimentos que se beneficiem de assimetrias e adotar políticas que não sejam estáticas, mas que se adaptem e se reinventem diante do inesperado, sempre com foco na proteção do passivo previdenciário.
O que é humildade epistemológica no contexto da gestão de um RPPS?
A humildade epistemológica é a consciência de que aquilo que não sabemos é, muitas vezes, mais relevante e impactante do que aquilo que achamos que sabemos.No contexto da gestão de um RPPS, isso se traduz em uma abordagem mais prudente, que aprende a conviver com a incerteza em vez de negá-la. Na prática, pode significar incorporar maiores margens de segurança, manter reservas de liquidez mais robustas e avaliar riscos com a clareza de que o conhecimento humano é limitado.
Por que a gestão de um RPPS deve evitar a “ilusão de controle”?
A “ilusão de controle” é a crença equivocada de que dominar os números e as técnicas de gestão permite controlar o futuro. Para um RPPS, essa é uma mentalidade perigosa, pois leva a um planejamento que subestima a incerteza e o impacto de eventos imprevisíveis.A gestão de um RPPS deve reconhecer que a certeza é ilusória e que a ignorância consciente é mais sábia. O objetivo não deve ser prever o improvável, mas construir um sistema resiliente e inteligente, capaz de resistir e se adaptar ao desconhecido.

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