As metáforas do cisne negro e do rinoceronte cinza, que eu já comentei em outros textos, servem como pano de fundo conceitual para uma leitura refinada de um relatório da KPMG chamado: "Black Swans Flock: Recession Risks Rise", mas diferentemente da definição original de Taleb, que trata esses eventos como raros, imprevisíveis e de impacto extremo, o que se observa no cenário atual, é um caso muito raro de múltiplos “cisnes negros simultâneos”, que embora tecnicamente previsíveis em suas origens, se tornam extraordinários pelo encadeamento de suas consequências, pela velocidade de propagação e pela incapacidade dos modelos tradicionais de risco macroeconômico de antecipar sua materialização com precisão operacional.
Queria então usar como base este recente estudo da KPMG como base, mas trazer uma visão de um gestor de riscos de alguns possíveis (antes impensáveis) cenários, afinal nosso papel é exatamente criar cenários, entender seus impactos e a probabilidade de acontecer, por menor que seja, e já aprendi por experiência própria, até mais recente com a pandemia, de que em momentos de crise e stress, tudo pode acontecer, e não podemos desprezar nenhuma possibilidade e cenário.
Assim como não podemos, como alguns velhos amigos cabeça dura que tenho, que viram ardorosos torcedores de suas posições, de achar de que não tem risco algum, e que tudo vai dar certo, sem ver os tais enormes rinocerontes cinzas vindo correndo em sua direção, desprezando os riscos à sua frente. Por isto que acho importante colocar claramente estes riscos abaixo, com uma visão técnica (e não política) das coisas.
Esse novo cenário que vivemos nas últimas semanas é marcado por uma conjunção de fatores estruturais, conjunturais e políticos, cujo gatilho de mudança foi o anúncio no começo de abril de 2025, de um novo e massivo pacote tarifário pelos Estados Unidos, que representa a maior elevação da carga tributária por meio de tarifas desde o início do século 20, em que a comparação com o período pré-1913, quando as tarifas compunham até 95% da arrecadação federal, é mais do que uma mera curiosidade histórica, mas sim revela o retorno a uma estratégia econômica de viés isolacionista e fortemente intervencionista, cujos riscos sistêmicos são potencializados por um ambiente global já marcado por desconfiança geopolítica, desaceleração sincronizada do comércio internacional e fragilidade fiscal das principais economias.
O estudo da KPMG alerta de que, caso essas tarifas se mantenham e se consolidem como política estrutural, o risco de uma recessão técnica nos EUA se transforma de possibilidade remota em probabilidade dominante. Na prática, o cenário base da KPMG já projeta uma contração do PIB a partir do segundo trimestre de 2025, com duração estimada de três trimestres consecutivos, configurando um quadro de estagflação, ou seja, a combinação simultânea de retração econômica, inflação persistente e elevação do desemprego. A taxa de desemprego deve atingir 5,2% até o final do ano, enquanto a inflação medida pelo núcleo do PCE poderá atingir 4,8% no terceiro trimestre, segundo a projeção central do estudo.
A metáfora dos “cisnes negros reunidos em bando”, utilizada pela economista-chefe Diane Swonk da KPMG, descreve com exatidão a natureza cumulativa, encadeada e não linear dos riscos contemporâneos, que não surgem de forma isolada, mas interagem entre si, o que piora ainda mais, amplificando seus efeitos e produzindo externalidades cruzadas que extrapolam os domínios clássicos da economia, afetando políticas públicas, estabilidade política, governança fiscal e o próprio funcionamento do sistema financeiro global.
Vamos então em cada um dos riscos, seus impactos e sugestões de mitigadores.
O impacto regressivo das tarifas e o risco de colapso no consumo das famílias de baixa renda
A primeira e talvez mais crítica dimensão dos riscos associados à política tarifária adotada pelo governo norte-americano em 2025 diz respeito à sua natureza regressiva, ou seja, a forma desproporcional como ela afeta as camadas mais vulneráveis da população, transferindo o ônus de uma política econômica cujos benefícios são altamente concentrados em determinados setores protegidos da economia.
Tarifas são, na sua essência, tributos indiretos sobre o consumo, mas diferente do imposto de renda, que pode ser progressivo e calibrado conforme a capacidade contributiva do cidadão, as tarifas incidem sobre produtos importados, muitos dos quais essenciais à vida cotidiana, como alimentos, medicamentos, vestuário, combustíveis, eletrônicos e equipamentos domésticos. Como esses bens representam uma parcela significativa do orçamento das famílias de menor renda, o efeito prático da elevação tarifária é um encarecimento generalizado da cesta de consumo, com impactos imediatos sobre o poder de compra e o bem-estar dessas famílias.
O relatório da KPMG quantifica esse impacto em que este pacote tarifário anunciado representa um aumento tributário estimado em US$ 750 bilhões, que seria um valor comparável a uma grande reforma tributária regressiva, mas que foi implementada por meio de uma canetada executiva, sem debate público estruturado e sem análise distributiva ex-ante. Em termos comparativos, se trata de uma transferência de carga tributária equivalente à implementação de um imposto sobre valor agregado (IVA) elevado, mas incidindo majoritariamente sobre os bens mais consumidos pelas famílias de baixa renda.
Além da queda de renda real, há um segundo vetor de impacto que precisamos olhar com carinho, que é a deterioração das expectativas, pois as famílias com menor renda são mais sensíveis a choques de preços, pois não possuem reservas financeiras para amortecer aumentos inesperados de despesas. Essa sensibilidade gera um efeito psicológico de retração do consumo ainda maior do que o impacto financeiro direto. A incerteza sobre o preço futuro de bens básicos (como alimentos e energia) leva essas famílias a adiarem ou evitarem compras, mesmo em segmentos que não foram diretamente afetados pelas tarifas.
Tem ainda o mercado de crédito ao consumo, que é amplamente utilizado por essas famílias para financiar despesas essenciais, que também é impactado negativamente pelo ambiente macroeconômico adverso. Com a elevação da inflação e o aumento do risco de inadimplência, os bancos tendem a elevar os spreads, reduzir a concessão de crédito e exigir mais garantias. Isso restringe ainda mais a capacidade de consumo e aumenta o risco de inadimplência entre os consumidores mais frágeis financeiramente, gerando um ciclo vicioso de exclusão econômica, desconfiança e queda de demanda agregada.
A regressividade das tarifas se amplia ainda mais quando se considera a heterogeneidade geográfica e demográfica dos impactos. Estados e regiões com maior dependência de produtos importados, com baixa densidade industrial ou com concentração de população de baixa renda são mais penalizados. Isso inclui, por exemplo, as regiões sul e sudeste dos EUA, que possuem alto grau de exposição ao comércio varejista de bens importados, além de comunidades urbanas periféricas que dependem de cadeias de abastecimento de baixo custo.
A KPMG ainda aponta um elemento relevante que intensifica o risco de colapso no consumo, que mesmo entre as famílias de alta renda, que foram responsáveis por quase 50% do consumo total em 2024, há sinais de contração. A deterioração dos ativos financeiros, o aumento do desemprego em setores de alto valor agregado e a volatilidade nos mercados tendem a provocar um efeito riqueza negativo, reduzindo o ímpeto de consumo até mesmo entre os extratos superiores da pirâmide.
Com a retração do consumo de ponta a ponta da sociedade, o impacto sobre a economia real é imediato, em que varejistas, fabricantes, prestadores de serviço e empresas do setor de logística observam quedas simultâneas de demanda, margens e rentabilidade. A redução de receita pressiona os fluxos de caixa e obriga cortes de custos, o que frequentemente significa demissões, redução de jornadas ou fechamento de unidades. O resultado é uma deterioração ainda maior do mercado de trabalho, especialmente no setor de serviços, retroalimentando o ciclo recessivo.
Portanto, o impacto regressivo das tarifas não é apenas uma questão de justiça social ou equidade fiscal, mas representa um risco sistêmico concreto à sustentabilidade do consumo privado, que sabemos que é um dos principais motores da economia norte-americana e a estabilidade do tecido econômico e social. Quando políticas públicas promovem choques assimétricos e desproporcionais, seus efeitos não se restringem ao campo econômico, mas se propagam para a esfera política, institucional e até mesmo civilizacional, pois corroem a percepção de justiça, previsibilidade e coesão social, que são os pilares da resiliência democrática e da estabilidade macroeconômica.
O relatório da KPMG não apenas introduz um diagnóstico técnico preciso sobre a regressividade das tarifas, mas também oferece uma advertência poderosa de que ao transformar o sistema tributário em uma máquina de compressão da base de consumo, os formuladores de políticas públicas arriscam comprometer a própria sustentação da atividade econômica e ampliar os fatores de risco que convergem para a materialização de um evento de cisne negro, agora não mais raro ou improvável, mas tragicamente previsível.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas voltadas ao consumo de massa, especialmente nos setores de varejo, alimentos, bebidas, eletrodomésticos, automóveis e utilidades domésticas, enfrentarão retração imediata da demanda, aumento da sensibilidade ao preço e maior inadimplência. O mercado financeiro, por sua vez, observará deterioração da carteira de crédito ao consumo, queda no faturamento das empresas do setor de bens duráveis e aumento do risco de default de empresas com margens apertadas e baixa diversificação de público-alvo.
Como mitigar:
Empresas devem revisar suas estratégias de precificação, avaliar elasticidade da demanda e readequar seus portfólios para incluir produtos de menor custo ou maior valor percebido. É essencial fortalecer programas de fidelização, reforçar canais diretos com o consumidor e redesenhar campanhas de marketing voltadas para resiliência e acessibilidade. No mercado financeiro, os bancos devem reavaliar suas políticas de crédito ao consumo, segmentar com mais critério os perfis de risco e revisar os modelos de provisionamento de perdas esperadas.
Erros comuns a evitar:
Subestimar a velocidade com que o consumidor muda de comportamento em cenários inflacionários. Acreditar que o portfólio atual será suficiente para reter participação de mercado. Ignorar sinais precoces de deterioração da base de clientes e insistir em manter margens fixas em detrimento de volume e capital de giro.
“Quando a tarifa sobe, quem paga mais caro é quem tem menos margem para errar.”
O risco de incerteza política e institucional com a instabilidade decisória, paralisia estratégica e corrosão da confiança empresarial
O segundo cenário possível de risco identificada de forma contundente pelo relatório diz respeito ao impacto destrutivo da instabilidade institucional e da incerteza política sobre o ambiente de negócios, a previsibilidade econômica e a resiliência das cadeias de valor globais, pois ao adotar medidas tarifárias de grande magnitude por meio de ordens executivas, ou seja, sem a deliberação formal do Congresso e sem a construção de consensos multilaterais, a administração norte-americana introduziu uma fonte de risco estrutural na dinâmica da economia real: a volatilidade regulatória como elemento permanente do sistema econômico.
Do ponto de vista técnico, esse tipo de incerteza regulatória não é meramente conjuntural ou retórica, mas estamos falando aqui de um risco institucional endógeno, capaz de alterar profundamente o comportamento dos agentes econômicos, com efeitos imediatos sobre decisões de investimento, inovação, consumo, precificação de ativos e gestão de riscos corporativos. A principal característica desse risco é sua imprevisibilidade: se as regras do jogo, que neste caso são os custos de importação e as condições de acesso aos mercados externos, podem mudar a qualquer momento, com base em decisões unilaterais e voláteis, os planos de médio e longo prazo tornam-se inviáveis ou extremamente onerosos.
A KPMG destaca que o nível de incerteza medido por indicadores econômicos formais, como o Economic Policy Uncertainty Index, ultrapassou os patamares observados durante a pandemia, que foi, sem dúvida, um dos momentos mais disruptivos da história recente. Além disso, as medidas domésticas de incerteza atingiram máximas históricas nos EUA, impulsionadas pela volatilidade dos mercados financeiros, pela falta de sinalização clara da política fiscal e pela deterioração do ambiente político bipartidário.
Esse aumento da incerteza tem implicações diretas sobre a confiança empresarial. Empresas que operam em mercados expostos ao comércio exterior, sejam elas exportadoras, importadoras ou multinacionais com cadeias globais, passam a adotar posturas defensivas, adiando investimentos, suspendendo contratações e ajustando para baixo suas projeções de receita. A incerteza mina a capacidade de planejamento e encarece a gestão de riscos operacionais e financeiros, pois exige provisionamentos adicionais, revisões constantes de preços e reconfigurações de cadeias logísticas.
Além disso, a incerteza regulatória cria uma assimetria de poder e informação que penaliza desproporcionalmente as pequenas e médias empresas, enquanto grandes corporações conseguem internalizar o risco com o apoio de departamentos jurídicos, consultorias especializadas e redes de fornecedores diversificados, as empresas de menor porte ficam expostas à volatilidade sem instrumentos adequados de cobertura ou adaptação. Isso compromete a competitividade do setor produtivo e acelera a concentração de mercado, num processo de seleção adversa que privilegia resiliência financeira em detrimento de inovação e produtividade.
No plano político-institucional, o uso sistemático de ordens executivas para impor tarifas também contribui para a erosão da governança democrática, que como observa o relatório, há crescentes tensões entre o Legislativo e o Executivo sobre os limites constitucionais da prerrogativa tarifária. Apesar de tentativas bipartidárias para restringir o poder presidencial nesse campo, a ausência de maioria qualificada na Câmara dos Representantes impede a reversão dessas medidas. Isso agrava a polarização política e alimenta narrativas de desconfiança institucional, prejudicando ainda mais a coordenação entre os Poderes e a condução coerente da política econômica.
Esse ambiente de incerteza também compromete os esforços de cooperação internacional, aonde parceiros estratégicos como União Europeia, Canadá, México, Japão e Coreia do Sul, são colocados em posição defensiva, sem previsibilidade sobre a estabilidade das condições comerciais. Isso enfraquece alianças econômicas, estimula retaliações não coordenadas e fragiliza as bases do multilateralismo comercial, com consequências negativas para a ordem econômica global.
Do ponto de vista psicológico e comportamental, a incerteza contínua gera um estado de paralisia estratégica, tanto em empresas quanto em consumidores. A ausência de sinais estáveis sobre o futuro próximo leva a decisões de curto prazo, conservadoras e reativas. Essa contração da confiança trava o dinamismo econômico, reduz a velocidade de reação a oportunidades e impede a alocação eficiente de capital, transformando a incerteza em uma profecia autorrealizável: quanto mais instável o ambiente, maior a retração dos agentes, e quanto maior essa retração, mais profunda a desaceleração da economia.
Portanto, o risco de incerteza política e institucional não é um subproduto colateral das tarifas, é um fator determinante da sua eficácia (ou ineficácia) e um catalisador de riscos sistêmicos adicionais, que convergem para a formação de um cenário de cisne negro de ordem geoeconômica.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Ambientes regulatórios instáveis travam investimentos, paralisam decisões estratégicas e aumentam o custo de oportunidade. Empresas do setor industrial, de infraestrutura e energia sofrem com incertezas sobre condições de importação, projetos de longo prazo e viabilidade de contratos. No mercado financeiro, a incerteza afeta valuations, aumenta o risco regulatório, prejudica emissões de dívida e reduz apetite por IPOs e fusões.
Como mitigar:
Implantar programas de inteligência regulatória, monitorar permanentemente mudanças políticas e decisões executivas. Ter flexibilidade contratual em acordos internacionais e diversificar geografias de atuação. Adotar práticas de compliance estratégico com monitoramento ativo de riscos políticos, jurídicos e aduaneiros. No mercado financeiro reprecificar ativos com risk premium ajustado e criar buffers de capital para incertezas legislativas.
Erros comuns a evitar:
Adotar uma visão reativa, acreditando que “tudo se acomoda”. Depender de interlocução informal com reguladores em vez de monitoramento institucional estruturado. Ignorar a importância de ter estratégias alternativas de atuação e suprimento.
“Nada paralisa mais uma empresa do que decisões que podem mudar com uma canetada.”
O risco inflacionário estrutural e da desancoragem de expectativas, choque de custos e dilema da política monetária
O terceiro risco que podemos tirar do estudo da KPMG é quanto a uma possível pressão inflacionária estrutural provocada pela imposição de tarifas generalizadas, em um momento no qual a economia global ainda lida com os resquícios inflacionários do pós-pandemia, das disrupções logísticas globais e da instabilidade energética. Ao contrário do que ocorre com choques de demanda, que tendem a gerar inflação temporária e relativamente previsível, as tarifas introduzem um choque de oferta persistente e difuso, que afeta simultaneamente os preços de insumos industriais, produtos finais e serviços correlacionados.
Esse tipo de inflação é particularmente complexo de gerenciar por três motivos principais, sendo que primeiro porque afeta de forma desigual diferentes setores e regiões, depois segundo porque é pouco responsiva à política monetária tradicional e também em terceiro porque tende a contaminar as expectativas de inflação futura, minando a credibilidade das autoridades econômicas.
O relatório destaca que o impacto das tarifas de abril de 2025 será mais expressivo do que qualquer medida tarifária adotada na gestão anterior, em termos absolutos e relativos. Este efeito inflacionário pode ocorrer por meio de três canais principais:
Canal de transmissão via cadeias globais de suprimento: muitos setores industriais, como automotivo, eletrônico, farmacêutico, alimentos processados e bens de consumo duráveis, operam com cadeias de produção altamente internacionalizadas. A imposição de tarifas sobre componentes intermediários e matérias-primas afeta o custo de produção desde a origem, impactando também fornecedores nacionais que dependem desses insumos. Esse efeito de segunda ordem é frequentemente negligenciado, mas responde por boa parte da pressão inflacionária mais persistente e sistêmica.
Canal cambial e efeito sobre importações: diferentemente de episódios anteriores, nos quais o dólar se valorizava frente a tensões comerciais, o cenário atual apresenta uma trajetória oposta. O aumento da percepção de risco e a expectativa de retração econômica têm pressionado o dólar para baixo frente a outras moedas, encarecendo ainda mais os produtos importados. Esse movimento contraria os efeitos compensatórios que historicamente suavizavam o impacto das tarifas nos preços domésticos e, no contexto atual, atua como um amplificador da inflação.
Canal de repasse ao consumidor: empresas com margens já comprimidas e sem alternativas viáveis de substituição doméstica transferem o aumento de custos diretamente para os consumidores. O resultado é uma elevação dos preços ao consumidor final, com impacto mais severo sobre bens essenciais e com baixa elasticidade-preço da demanda, como alimentos, medicamentos, combustíveis e utilidades.
A KPMG projeta que o núcleo da inflação medida pelo PCE atinja 4,8% no terceiro trimestre de 2025, mesmo em seu cenário base. Esse patamar é significativamente superior à meta do Federal Reserve (2%), e sua persistência sinaliza a possibilidade de desancoragem das expectativas inflacionárias. Quando consumidores e empresas passam a acreditar que a inflação se manterá alta no futuro, eles ajustam seus comportamentos de forma defensiva: trabalhadores exigem reajustes salariais mais altos, empresas aumentam preços preventivamente, e os contratos de longo prazo incorporam prêmios de risco inflacionário. Esse processo retroalimenta a inflação e obriga as autoridades monetárias a adotarem políticas mais duras no futuro, com custos econômicos e sociais elevados.
O dilema do Federal Reserve diante dessa situação é de natureza clássica, mas com complicadores modernos, pois se cortar juros para sustentar a atividade econômica em um ambiente de estagflação, pode alimentar ainda mais a inflação, arriscando repetir os erros da década de 1970. Por outro lado se manter juros altos diante de um quadro recessivo pode precipitar falências, stress financeiro e aprofundamento da contração econômica. O relatório sinaliza que, no cenário base, o Fed aguardará até o quarto trimestre para iniciar cortes de juros, com base em uma eventual desaceleração da inflação induzida pela retração da demanda. Contudo, no cenário pessimista de recessão profunda, que eu pessoalmente acho que não vai acontecer, o Fed poderia ser forçado a cortar antes do ideal por “razões erradas”, como tentativa desesperada de reanimar a economia, arriscando comprometer sua credibilidade.
O risco inflacionário associado às tarifas é estrutural, persistente e de difícil controle, em que reintroduz a inflação de custos como variável macroeconômica central, após décadas de relativa estabilidade, e coloca em xeque a autonomia e a eficácia da política monetária convencional. Ao alimentar um ambiente de incerteza de preços, ele mina o consumo, deteriora a competitividade e corrói os fundamentos da confiança econômica, se tornando um dos pilares centrais da tempestade perfeita que define o cenário de "cisnes negros em bando".
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas enfrentam custos crescentes com insumos, energia, transporte e folha de pagamento, ao passo que enfrentam resistência para repassar esses aumentos aos consumidores. Isso comprime margens e pode gerar queda de EBITDA. O mercado financeiro vê redução nos lucros corporativos, instabilidade nas curvas de juros e revisões negativas nos ratings de crédito.
Como mitigar:
Reestruturar os processos de compras e renegociar contratos de fornecimento com cláusulas de reajuste bem definidas. Revisar orçamentos com cenários inflacionários alternativos, reavaliar planos de expansão e revisar hedge natural e financeiro. O setor financeiro deve ajustar a precificação de produtos de renda fixa, reavaliar duration de carteiras e fortalecer testes de stress para portfólios com ativos sensíveis à inflação.
Erros comuns a evitar:
Planejar com base em índices de inflação passados. Deixar de rever contratos antigos com cláusulas mal ajustadas. Acreditar que aumentos pontuais de custos são passageiros e que a política monetária agirá rapidamente.
“As tarifas acendem o fogo da inflação justo quando o crescimento começa a esfriar.”
O risco de volatilidade nos mercados financeiros e a reprecificação abrupta de ativos, fuga de capitais e contágio sistêmico
O quarto risco é o impacto das tarifas sobre a estabilidade e a funcionalidade dos mercados financeiros globais, por meio de um aumento expressivo na volatilidade, na percepção de risco e na incerteza macroeconômica, que embora o mercado inicialmente tenha subestimado o potencial desestabilizador das tarifas anunciadas, a realidade dos impactos se tornou inegável, provocando um movimento rápido e generalizado de reprecificação de ativos financeiros.
Um dos primeiros sinais concretos dessa reprecificação foi a disparada do VIX, que é o índice que mede a volatilidade implícita das opções do S&P 500, para patamares equivalentes aos observados no auge da pandemia. Este salto reflete uma mudança abrupta na percepção de risco dos investidores, que passaram a reconhecer as tarifas não mais como uma ameaça política abstrata, mas como uma realidade econômica concreta com impactos diretos sobre lucros corporativos, cadeias de suprimento, fluxos comerciais e estabilidade global.
O canal de transmissão primário entre tarifas e mercados financeiros é a expectativa de desaceleração nos lucros das empresas com maior exposição internacional. Conforme destacado no relatório, aproximadamente 40% dos lucros das empresas listadas no S&P 500 têm origem em operações internacionais. O aumento das barreiras comerciais, a possibilidade de retaliações por parte de outros países e o encarecimento dos insumos importados afetam diretamente o resultado operacional dessas empresas. O mercado diante disso ajusta suas projeções de receita, margens e com isto do valor das empresas, provocando queda nos preços das ações, aumento do custo de capital e deterioração nos indicadores de solvência.
Além do impacto direto sobre o mercado acionário, há reflexos nos mercados de dívida corporativa, com o aumento da incerteza leva a uma ampliação dos spreads de crédito, o que é da diferença entre os juros exigidos para títulos corporativos com diferentes níveis de risco. Empresas com grau de investimento de maior risco enfrentam um ambiente mais restritivo de financiamento, com prêmios de risco maiores e menor liquidez. Isso é especialmente preocupante em um contexto de desaceleração da atividade, no qual muitas dessas empresas já operam com margens comprimidas e balanços fragilizados. A dificuldade de rolar dívidas ou captar novos recursos pode precipitar uma onda de inadimplência e falências.
Nos mercados de câmbio, o impacto das tarifas tem sido duplamente negativo para a estabilidade, pois se, de um lado, o aumento da percepção de risco associado à economia americana pressiona o dólar para baixo, o que agrava o efeito inflacionário sobre os bens importados. Mas do outro os fluxos globais de capitais passam a buscar ativos de menor risco e maior previsibilidade, como títulos soberanos de países com políticas econômicas mais estáveis, provocando movimentos bruscos de saída de capital de mercados emergentes e ativos de risco, amplificando a volatilidade global.
Essa instabilidade se agrava pela ausência de coordenação entre política fiscal, comercial e monetária. A percepção de que o Federal Reserve hesita em cortar juros imediatamente, como indicado pela fala do presidente Jerome Powell (“we are in no hurry”), o que é lida pelos mercados como um sinal de que a autoridade monetária está presa ao dilema da estagflação, e que a proteção contra riscos macroeconômicos via política monetária será limitada. Isso reduz a eficácia da expectativa de afrouxamento monetário como mecanismo de amortecimento da volatilidade e expõe os mercados a novos choques externos.
Outro ponto crítico é o risco de contágio internacional, aonde empresas globais com sede nos Estados Unidos, fundos de investimento, bancos multinacionais e cadeias produtivas transnacionais estão interligados de forma intrincada. Um choque tarifário de grande escala pode gerar efeitos de segunda ordem em países parceiros, em moedas de reserva, em preços de commodities e em decisões de alocação de capital em mercados desenvolvidos e emergentes. A instabilidade se torna, portanto, endógena ao sistema financeiro global, escapando ao controle de uma única autoridade nacional.
O risco de volatilidade nos mercados financeiros decorrente das tarifas não é apenas uma consequência temporária da incerteza, mas representa sim uma enorme ameaça sistêmica com múltiplas ramificações, desde a desvalorização de ativos, com o aumento do custo de capital, a restrição de crédito, a desintermediação financeira, a retração de investimentos e o aumento da probabilidade de eventos de contágio. Esses fatores todos combinados intensificam ainda mais o risco de um "ciclo de feedback negativo" entre economia real e mercados financeiros, que é um dos elementos clássicos que alimentam a materialização de cisnes negros financeiros.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas abertas sofrem com quedas de valor, dificuldades de captação, maior custo de capital próprio e instabilidade dos acionistas. Empresas com exposição cambial sofrem com flutuação abrupta de moedas. No mercado financeiro há fuga para ativos mais seguros, eventual valorização do dólar, certamente a queda de bolsas e o aumento da volatilidade implícita nos derivativos.
Como mitigar:
Reforçar a comunicação com investidores, revisar políticas de divulgação e guidance, e estruturar programas de recompra ou blindagem acionária em situações críticas. Empresas com exposição cambial devem adotar políticas claras de hedge e revisar cenários de sensibilidade. No setor financeiro, manter liquidez adequada, rebalancear carteiras e ajustar posições derivativas para "proteção de cauda".
Erros comuns a evitar:
Ignorar a importância de cenários pessimistas na precificação de ativos. Reagir tardiamente aos movimentos de mercado. Acreditar que as estratégias que funcionaram em 2020 ou 2022 funcionarão agora da mesma forma.
“O mercado ignora o risco, até que ele impacta com força suas posições.”
O risco de destruição líquida de empregos com o desequilíbrio setorial, baixa substituição doméstica e agravamento do desemprego estrutural
O quinto risco se refere ao impacto das tarifas sobre o mercado de trabalho, ou mais especificamente na assimetria entre os setores supostamente “protegidos” pelas tarifas e os setores penalizados por seus efeitos colaterais. A análise rompe com a retórica simplista de que tarifas criam empregos ao repatriar a produção industrial ao demonstrar, com base empírica, que o efeito líquido sobre o emprego tende a ser negativo, sobretudo em economias avançadas, com cadeias produtivas globalizadas, estrutura setorial complexa e baixa capacidade de substituição imediata.
O argumento fundamental é que tarifas podem até beneficiar alguns setores pontuais no curto prazo, mas não geram dinamismo suficiente para compensar as perdas nos setores afetados pela elevação de custos, pela retração da demanda e pelas represálias comerciais. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que poucos bens são integralmente produzidos de forma nacional. Mesmo indústrias “domésticas”, como a automotiva ou a de eletrônicos, dependem de insumos, componentes e máquinas importadas. Quando esses insumos se tornam mais caros ou escassos, a produção local se torna mais onerosa, o que leva à redução da escala, à eliminação de turnos e, inevitavelmente, à demissão de trabalhadores.
Além disso, o repasse do aumento de custos ao consumidor final reduz o volume de vendas, o que afeta tanto as indústrias quanto o varejo, assim os setores de serviços, que empregam a maioria da força de trabalho, também sofrem, pois dependem do dinamismo da economia como um todo. A retração do consumo, a elevação dos juros e a redução dos investimentos impactam negativamente restaurantes, transporte, turismo, comércio, educação privada, tecnologia e outras atividades intensivas em mão de obra.
Outro aspecto relevante é a assimetria regional dos impactos, aonde os estados mais industrializados ou com maior inserção no comércio exterior, como Texas, Califórnia, Nova York, Michigan e Illinois, tendem a sofrer mais com as medidas tarifárias, tanto pelo lado das exportações quanto pelas cadeias de suprimento que atravessam fronteiras. Isso cria bolsões regionais de desemprego que são de difícil reversão, exigindo políticas públicas específicas de requalificação profissional e reconversão produtiva, que normalmente não acompanham a velocidade do impacto inicial das tarifas.
Há ainda um agravante político e social importante da promessa de geração de empregos por meio do protecionismo costuma ser amplamente divulgada, mas os efeitos negativos, como demissões em massa, fechamento de fábricas e falências de pequenas empresas, se materializam mais rapidamente, gerando frustração, desilusão e aumento do ceticismo em relação às instituições. Esse descompasso entre discurso e realidade alimenta o risco de radicalização política e de perda de confiança da população nas promessas do governo, agravando a instabilidade social.
Do ponto de vista da estrutura produtiva, as tarifas também alteram os incentivos de investimento, pois, ao invés de estimular a modernização das indústrias protegidas, elas muitas vezes induzem à complacência, à baixa produtividade e à dependência de subsídios estatais. Com menos competição externa, empresas protegidas reduzem seu ímpeto de inovação, não investem em qualificação da força de trabalho e desviam recursos para atividades de lobby, buscando manutenção das proteções em vez de ganhos de eficiência. Esse processo leva no médio prazo para uma estagnação tecnológica e à erosão da base de empregos de qualidade.
Em termos quantitativos, o cenário base da KPMG projeta uma elevação da taxa de desemprego nos EUA para 5,2% até o fim de 2025, com perda líquida de empregos no setor privado. No cenário pessimista, esse número sobe para 5,8%, o que representa milhões de trabalhadores sem ocupação, com impacto direto sobre consumo, arrecadação tributária, gasto social e estabilidade familiar.
O risco de destruição líquida de empregos decorrente das tarifas não se limita ao fechamento de postos de trabalho, mas representa uma disfunção estrutural do mercado de trabalho, caracterizada por deslocamento setorial abrupto, ausência de mecanismos de absorção da mão de obra excedente e comprometimento da mobilidade ocupacional. Quando combinado à queda da confiança empresarial e à retração da atividade, esse fator amplia o risco de desemprego estrutural persistente, que é um dos elementos mais perigosos para a saúde macroeconômica e para a coesão social de qualquer país.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas afetadas negativamente pelas tarifas reduzem produção, suspendem turnos e desligam trabalhadores, o que afeta diretamente a moral organizacional e a continuidade operacional. Isso repercute no consumo, na arrecadação e na estabilidade regional. O mercado financeiro vê deterioração em setores com alta intensidade de mão de obra, especialmente indústria, construção civil e serviços logísticos.
Como mitigar:
Mapear os centros de custo de pessoal mais vulneráveis, antecipar planos de requalificação profissional, realocar equipes internamente e negociar com sindicatos alternativas a demissões. Estabelecer plano de contingência e revisar planos de produtividade com base em elasticidade operacional. O mercado financeiro deve monitorar indicadores de emprego setorial e ajustar modelos de inadimplência e risco de crédito corporativo.
Erros comuns a evitar:
Apostar exclusivamente em cortes horizontais sem analisar impactos sobre capacidade produtiva e reputação. Não envolver a área de RH e relações institucionais nas decisões estratégicas de reestruturação. Subestimar o efeito reputacional de demissões em massa.
“Tarifas protegem alguns empregos, mas silenciam milhares de máquinas em outros setores.”
O risco de queda na produtividade e erosão da competitividade com o desvio de investimentos, proteção ineficiente e desincentivo à inovação
O sexto risco trata de forma técnica e contundente um dos efeitos mais prejudiciais, porém menos visíveis no curto prazo, de uma política tarifária ampla e prolongada: o impacto negativo sobre a produtividade agregada da economia e, por consequência, sobre sua capacidade de crescimento sustentável no longo prazo. Ao contrário de argumentos populares que sugerem que a proteção de setores domésticos leva a um renascimento industrial e à reindustrialização da economia, a evidência empírica e histórica aponta para o oposto, de que as tarifas ao reduzir a competição externa, geram um ambiente econômico menos dinâmico, menos inovador e mais propenso à ineficiência alocativa.
A produtividade total dos fatores, conceito central para o crescimento de longo prazo, depende fundamentalmente da capacidade de um país inovar, incorporar novas tecnologias, reorganizar suas cadeias produtivas de forma eficiente e alocar recursos (capital e trabalho) em setores com maior valor agregado. A imposição de tarifas atua como uma barreira direta a esse processo, criando incentivos distorcidos que favorecem setores com baixo dinamismo e alto grau de obsolescência produtiva, simplesmente por estarem “protegidos” da concorrência internacional.
O relatório cita um estudo sobre o período da "Gilded Age" nos Estados Unidos, que foi a época em que tarifas compunham grande parte da receita pública federal, revela como as empresas mais protegidas exibiram queda acentuada no crescimento da produtividade. Nesses casos as empresas ao invés de investir em P&D, automação ou treinamento da força de trabalho, direcionaram seus recursos para atividades de lobby, buscando perpetuar a proteção e influenciar decisões políticas. Esse fenômeno reduz a eficiência sistêmica da economia e promove o que se chama de má alocação de capital, um dos fatores críticos que explicam o baixo crescimento da produtividade em economias maduras.
Além disso as tarifas afetam a produtividade de forma indireta ao enfraquecer os investimentos em infraestrutura física e tecnológica. Empresas diante de maior incerteza e custos mais elevados tendem a postergar projetos de modernização, expansão ou realocação produtiva. A aversão ao risco aumenta, o prazo dos investimentos se encurta e a capacidade de absorção de inovações. inclusive digitais se reduz. A retração nos investimentos em infraestrutura e tecnologia é particularmente preocupante em setores como logística, transporte, energia e telecomunicações, que são fundamentais para a competitividade global de qualquer economia moderna.
Um segundo canal de impacto relevante é o crédito, pois em ambientes de incerteza elevada e spreads mais altos, os bancos e investidores institucionais passam a aplicar padrões de concessão de crédito mais rigorosos. As empresas mais inovadoras e disruptivas, que muitas vezes operam com modelos de negócio mais arriscados ou com ativos intangíveis como principal fonte de valor, enfrentam mais barreiras de acesso ao capital. Isso gera uma seleção adversa no financiamento da inovação, prejudicando as empresas de base tecnológica, startups e iniciativas de transformação digital, que são justamente os vetores contemporâneos de crescimento da produtividade.
Outro efeito colateral da proteção tarifária é a interrupção das cadeias globais de valor. Setores produtivos modernos operam em ecossistemas interdependentes, que cruzam fronteiras nacionais diversas vezes em um mesmo ciclo de produção. Tarifas que encarecem ou dificultam o acesso a componentes, semicondutores, metais raros ou produtos intermediários comprometem a eficiência operacional e obrigam as empresas a redesenhar cadeias logísticas a custos elevados. Essa fragmentação reduz a produtividade ao longo da cadeia, aumenta o tempo de produção, os estoques de segurança e o custo final dos produtos, enfraquecendo a capacidade competitiva tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Ao comprometer a produtividade, as tarifas reduzem o crescimento potencial da economia, o que significa menor geração de riqueza no longo prazo, menor espaço para políticas redistributivas sustentáveis e maior vulnerabilidade a choques futuros. A perda de produtividade embora menos visível que o desemprego ou a inflação no curto prazo, representa um dos maiores riscos para a prosperidade duradoura de uma economia, e sua reversão requer tempo, capital humano e mudanças profundas na estrutura produtiva.
Ao detalhar a relação entre tarifas e declínio da produtividade, revela uma ameaça silenciosa, mas estrutural, ao potencial de crescimento de médio e longo prazo dos Estados Unidos, em que estamos falando de um risco sistêmico com efeitos cumulativos que, se não enfrentado, comprometerá a competitividade internacional e a capacidade de liderança econômica do país nas próximas décadas.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Setores protegidos por tarifas se tornam complacentes, menos inovadores e menos propensos a investir em P&D. Isso gera um ciclo de ineficiência, baixa escalabilidade e perda de competitividade internacional. O mercado financeiro observa redução do ROIC (retorno sobre capital investido), margens declinantes e menor crescimento de longo prazo.
Como mitigar:
Implantar métricas rigorosas de produtividade setorial e realocar recursos para áreas com maior retorno marginal de capital. Estabelecer metas internas de inovação e reinvestimento, mesmo em setores protegidos. No mercado financeiro vai penalizar empresas com queda estrutural de eficiência operacional e premiar aquelas que mantêm dinâmicas de produtividade positiva.
Erros comuns a evitar:
Achar que proteção setorial significa segurança. Substituir meritocracia por inércia. Negligenciar métricas de eficiência por trás de resultados positivos de curto prazo artificiais.
"Quando o capital corre para onde há proteção, a produtividade estagna onde há potencial.”
O risco de baixa eficácia arrecadatória e disfunção fiscal com a ilusões de receita e armadilhas da instabilidade tributária:
O sétimo risco é sobre a eficácia fiscal das tarifas enquanto instrumento de arrecadação. Contrariando a retórica de que tarifas podem ser usadas como fonte alternativa de receitas para reduzir déficits fiscais ou financiar programas estratégicos sem aumentar impostos internos, a literatura econômica e a experiência empírica demonstram que tarifas são tributos instáveis, voláteis e ineficientes do ponto de vista arrecadatório.
O ponto de partida dessa análise é o reconhecimento de que as tarifas afetam diretamente a demanda, e não apenas os preços. Ao encarecer produtos importados, elas reduzem o volume importado, e portanto a própria base de incidência do tributo. Como consequência, a arrecadação tende a ser inferior às estimativas ex-ante, gerando um efeito de ilusão fiscal. Em outras palavras quanto mais altas as tarifas, maior o estímulo à substituição, ao contrabando ou à retração do consumo, e menor a base tributável efetiva. Esse comportamento é descrito pela "curva de Laffer" aplicada ao comércio exterior: após certo ponto, aumentos adicionais nas alíquotas tarifárias geram redução, e não aumento, da receita.
A natureza jurídica das tarifas impostas por ordens executivas são altamente reversíveis, ou seja podendo ser retiradas com um simples ato presidencial, elas não são consideradas receitas estáveis, que as exclui de suas projeções orçamentárias oficiais. Essa ausência de previsibilidade institucional e contábil desqualifica as tarifas como instrumentos de planejamento fiscal confiável, dificultando a gestão da dívida pública e o cumprimento de metas fiscais de médio prazo.
Outro aspecto importante é a baixa elasticidade da arrecadação tarifária em relação ao crescimento da economia. Diferentemente de impostos sobre renda, consumo ou patrimônio, que crescem junto com o PIB ou com a inflação, a arrecadação de tarifas depende do volume de importações, que tende a cair em momentos de crise, de desvalorização cambial ou de retração do comércio global, que são exatamente os cenários que as tarifas contribuem para provocar. Ou seja as tarifas além de pró-cíclicas (agravam recessões), são instáveis e pouco confiáveis como fonte de financiamento estatal.
O relatório também destaca que a expectativa de arrecadação via tarifas pode induzir decisões orçamentárias equivocadas, levando o governo a superestimar a disponibilidade de recursos para projetos, subsídios ou cortes de impostos em outras áreas. Quando a arrecadação esperada não se materializa, surgem déficits imprevistos, contingenciamentos e a necessidade de emissão adicional de dívida, o que pode pressionar os juros e comprometer a sustentabilidade fiscal. A perda de credibilidade nas estimativas fiscais tem impacto direto sobre o risco soberano do país e sobre sua classificação de crédito.
Em termos macroeconômicos o uso recorrente e politicamente motivado de tarifas como fonte de receita distorce a estrutura tributária nacional, desviando o foco de reformas mais estruturantes, como a ampliação de bases tributárias progressivas, a simplificação do sistema de impostos e a eliminação de distorções setoriais. Ao focar em uma fonte de receita altamente regressiva, volátil e de baixa eficiência arrecadatória, o Estado reduz sua capacidade de financiar políticas públicas redistributivas e de investimento com base em princípios de equidade e eficiência.
Além disso a fragmentação do sistema tributário com a introdução de tarifas amplas pode gerar conflitos entre níveis de governo (federal, estadual e municipal), além de distorcer a concorrência interna entre empresas localizadas em diferentes regiões e com diferentes graus de exposição às importações. Isso compromete a neutralidade fiscal, que é um dos princípios centrais da boa tributação, e gera efeitos adversos sobre a alocação de investimentos no território nacional.
A combinação entre tarifas elevadas, inflação persistente, desaceleração econômica e arrecadação instável amplia o risco de um "loop" fiscal adverso, em que uma menor arrecadação gera maior déficit; maior déficit eleva o prêmio de risco soberano; o aumento do risco pressiona os juros; e juros mais altos ampliam os gastos com dívida pública, agravando novamente o déficit. Essa espiral se não interrompida, pode comprometer a solvência fiscal do país em horizontes de médio prazo.
Tudo isto mostra a fragilidade técnica e estratégica de confiar em tarifas como solução fiscal, que pode ser um erro de diagnóstico com consequências macroeconômicas significativas, que compromete tanto a solidez do orçamento público quanto a credibilidade das instituições fiscais. Ao invés de resolver problemas estruturais, esse tipo de medida os adia, os amplia e os torna ainda mais difíceis de corrigir em momentos futuros de maior restrição econômica.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas podem ser surpreendidas por novos pacotes tributários ou contingenciamentos orçamentários que afetem subsídios, financiamentos públicos, benefícios fiscais ou contratos com o governo. O mercado financeiro se depara com aumento do risco soberano, pressão por elevação de juros e desconfiança sobre a sustentabilidade fiscal.
Como mitigar:
Simular impacto de diferentes regimes tributários e revisar elasticidade de demanda frente a novos tributos. Ajustar a dependência de incentivos fiscais na composição do resultado. No setor financeiro, revisar alocação em papéis do Tesouro, ajustar duration das carteiras e considerar o risco político-fiscal nos preços dos ativos públicos.
Erros comuns a evitar
Planejar com base em promessas políticas e não em fundamentos fiscais. Subestimar a instabilidade de benefícios concedidos por decreto. Ignorar os riscos indiretos de aumento de custo de capital via risco-país.
“Tarifas arrecadam pouco, custam caro e ainda sabotam o próprio orçamento que tentam salvar.”
O risco de erosão da competitividade exportadora com a perda de dinamismo, retaliações e retração do investimento estrangeiro direto:
O oitavo risco aborda uma consequência estrutural crítica e frequentemente subestimada da imposição generalizada de tarifas: a deterioração da capacidade exportadora do país. A análise da KPMG é clara ao indicar que as tarifas, ao encarecerem o ambiente produtivo e provocarem reações adversas nos mercados globais, atuam como um freio à competitividade internacional das empresas domésticas, com efeitos prolongados sobre a balança comercial, os fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE) e a inserção do país nas cadeias globais de valor.
O primeiro canal de impacto é a queda de produtividade setorial, aonde quando o setor produtivo nacional é redirecionado para atender mercados protegidos por tarifas em vez de competir no mercado global, há um deslocamento de recursos (capital, trabalho e inovação) para atividades com menor eficiência e menor capacidade de crescimento. Isso compromete a produção para exportação, que exige excelência operacional, qualidade técnica e preços competitivos. As empresas passam a operar com custos mais altos, menores economias de escala e menor capacidade de investir em inovação, elementos essenciais para competir no cenário internacional.
A isso se soma o encarecimento dos insumos importados, utilizado por praticamente todos os setores exportadores modernos. A indústria americana de alta tecnologia, a farmacêutica, a de semicondutores, o setor automobilístico e a agricultura de precisão dependem de componentes, fertilizantes, máquinas e softwares vindos do exterior. Ao aumentar os custos desses insumos, as tarifas reduzem a margem operacional dos exportadores, forçando-os a reajustar preços ou sacrificar rentabilidade , ambos prejudicando sua presença em mercados externos.
Outro fator de enfraquecimento das exportações decorre das retaliações comerciais dos países afetados pelas tarifas. Em contextos de guerra comercial, é prática comum que países retaliem com medidas tarifárias proporcionais, bloqueios sanitários, restrições não tarifárias ou boicotes diplomáticos a produtos de origem do país que iniciou a política protecionista. Como os produtos agrícolas e industriais norte-americanos competem diretamente com bens da União Europeia, Canadá, Brasil, China, Austrália e outros países, qualquer barreira adicional reduz automaticamente sua atratividade, desviando a demanda internacional para concorrentes regionais mais confiáveis.
Há também o risco do boicote voluntário por consumidores estrangeiros, cada vez mais influenciados por aspectos reputacionais e geopolíticos. Em um mundo marcado pela sensibilidade ideológica e política, atitudes percebidas como unilaterais, agressivas ou hostis por parte de um governo podem repercutir diretamente no comportamento de consumidores em mercados estrangeiros, afetando a demanda por bens e serviços americanos, inclusive nos setores de luxo, tecnologia, educação e turismo.
O relatório ainda menciona a possibilidade concreta de queda nos fluxos de investimento direto estrangeiro, quando os investidores internacionais avaliarem os riscos de instabilidade regulatória, imprevisibilidade comercial e custos operacionais inflacionados, tendem a redirecionar seus recursos para mercados mais estáveis e abertos. Países com arcabouço jurídico previsível, integração comercial estável e ambiente macroeconômico controlado tornam-se destinos mais atraentes para a instalação de fábricas, centros de distribuição e hubs tecnológicos. Isso prejudica a capacidade dos EUA de atrair capital produtivo, reduzir o déficit de conta corrente e criar empregos em setores de ponta.
Um último vetor de fragilização exportadora apontado pela KPMG se refere a queda da atratividade dos EUA como destino de serviços e talentos internacionais. A combinação entre tarifas elevadas, discurso protecionista e ambiente político polarizado pode afastar estudantes, profissionais e empresas de tecnologia que antes viam os EUA como epicentro da inovação e da liberdade econômica. Isso tem efeito negativo sobre a exportação de serviços educacionais, consultorias, tecnologia e propriedade intelectual, que são pilares cada vez mais importantes do balanço comercial norte-americano.
Temos então aqui um paradoxo central das tarifas: ao tentarem “proteger” a produção doméstica, elas enfraquecem exatamente aquilo que sustenta a força econômica de longo prazo, que é a capacidade de competir globalmente. A perda de competitividade exportadora não só limita o crescimento das empresas, como afeta toda a arquitetura econômica internacional, reduz a influência geoeconômica do país e compromete sua liderança em setores estratégicos de alto valor agregado.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas exportadoras sofrem com perda de mercado, aumento de custos, boicotes e queda na atratividade como fornecedoras globais. Isso afeta o setor agroindustrial, farmacêutico, aeronáutico e de tecnologia. O mercado financeiro ajusta os fluxos de caixa futuros, reduz múltiplos de valuation e reprecifica empresas exportadoras com desconto.
Como mitigar:
Diversificar mercados internacionais, buscar acordos bilaterais alternativos, investir em reputação ESG e estratégias de diferenciação de produto. Ampliar canais de distribuição regionalizados e adaptar portfólios para atender demandas locais. No mercado financeiro precifica aexposição geográfica com maior granularidade e rever avaliações com base em competitividade internacional.
Erros comuns a evitar:
Acreditar que a lealdade de clientes externos é incondicional. Focar apenas em volume exportado e não na sustentabilidade das relações comerciais. Ignorar a importância de reputação e previsibilidade institucional para manter contratos internacionais.
“Quem dificulta importar, logo descobre que também ficou mais caro exportar.”
O risco de fracasso em nivelar o campo de jogo com a escalada de tensões comerciais, isolamento e colapso da governança global do comércio
O nono risco abordado pela KPMG é de natureza mais institucional e geopolítica, mas com efeitos econômicos diretos e de grande magnitude: trata-se da constatação de que as tarifas falham, na prática, em “nivelar o campo de jogo”, como frequentemente alegado por seus defensores. Ao contrário da intenção declarada de corrigir desequilíbrios comerciais, eliminar práticas desleais e restaurar a competitividade da indústria doméstica, as tarifas acabam por ampliar tensões comerciais, gerar instabilidade normativa e desestruturar os mecanismos multilaterais de resolução de conflitos comerciais.
O relatório da KPMG é claro em afirmar que tarifas atuam como instrumentos coercitivos, e como eles mesmo dizem um “porrete”, ao invés de funcionarem como incentivos construtivos, que seria a conhecida “cenoura” na diplomacia comercial. Esse uso excessivo de coerção provoca reações defensivas nos parceiros comerciais, estimula nacionalismos econômicos e dificulta a construção de consensos. Em vez de abrir mercados e reduzir barreiras, tarifas generalizadas levam à formação de blocos econômicos excludentes, ao colapso de negociações multilaterais e à fragmentação da ordem comercial internacional baseada em regras.
O problema se agrava com o enfraquecimento dos mecanismos institucionais multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), a OCDE e outros. A administração americana segundo o relatório não apenas aumentou tarifas de forma unilateral, mas também reduziu o financiamento de organismos que promovem a solução pacífica de disputas comerciais e ignorou cláusulas pactuadas com países vizinhos, como Canadá e México. Esse comportamento enfraquece os compromissos multilaterais e estimula a adoção de medidas semelhantes por outros países, levando a um ambiente de crescente anarquia normativa no comércio internacional.
A escalada de tensões comerciais também prejudica empresas transnacionais que dependem de regras estáveis para operar em múltiplos países. A ausência de previsibilidade nas regras tarifárias e a possibilidade de retaliações cruzadas dificultam o planejamento de longo prazo, reduzem a atratividade de joint ventures e ampliam os riscos regulatórios de expansão internacional. Como resultado, empresas passam a internalizar o risco de guerras comerciais em seus modelos financeiros, exigindo maiores prêmios de risco e adotando estratégias defensivas que limitam o crescimento.
Além disso o fracasso em criar um ambiente comercial equitativo e previsível mina a confiança dos agentes econômicos, tanto públicos quanto privados, nas instituições que deveriam arbitrar disputas e estabelecer padrões comuns. A desilusão com o multilateralismo incentiva países a buscarem acordos bilaterais oportunistas ou a imporem medidas protecionistas de forma preventiva, num ciclo de "tit-for-tat" que é extremamente difícil de interromper. A história econômica mostra que esses ciclos muitas vezes resultam em colapsos súbitos do comércio global como ocorreu na década de 1930 com a Lei Smoot-Hawley.
Outro aspecto crítico é que as tarifas falham em resolver as causas estruturais da perda de competitividade, como baixa produtividade, falhas educacionais, infraestrutura obsoleta e regulação excessiva. Ao invés de atacar esses gargalos por meio de reformas internas, as tarifas mascaram os sintomas por um curto período, oferecendo uma falsa sensação de proteção enquanto aprofundam a estagnação dos setores menos eficientes. Quando o ciclo tarifário termina, geralmente por inviabilidade política ou pressão econômica, esses setores retornam à vulnerabilidade anterior, agora com menor capacidade adaptativa e maior dependência do Estado.
O caráter ilusório da retórica protecionista tenta “equalizar” condições de competição por meio de barreiras artificiais, o país perde credibilidade, rompe alianças estratégicas e compromete sua capacidade de influenciar as regras do comércio global. A médio prazo essa postura leva ao isolamento geoeconômico e enfraquece o poder de negociação dos EUA em temas fundamentais como propriedade intelectual, padrões ambientais, subsídios e segurança digital, áreas nas quais a governança multilateral seria uma ferramenta muito mais eficaz do que o uso unilateral de tarifas.
As tarifas não nivelam o campo de jogo, mas elas o destroem, substituindo as regras compartilhadas por uma disputa de força bruta onde todos os jogadores saem perdendo, inclusive e talvez principalmente o que iniciou o jogo.
Impactos para empresas e mercado financeiro:
Empresas que dependem de acordos multilaterais, certificações internacionais e fluxos de capital estrangeiro sofrem com perda de previsibilidade e aumento de barreiras não tarifárias. O mercado financeiro vê aumento da percepção de risco-país, fuga de capitais e queda da atratividade para investidores institucionais.
Como mitigar:
Estabelecer compliance comercial robusto com alinhamento a normas internacionais, participar de fóruns multilaterais e adotar práticas de corporate diplomacy. Estabelecer modelos de negócios resilientes a mudanças normativas e ampliar a governança internacional da empresa. O mercado financeiro deve monitorar a capacidade do país de se manter dentro de tratados multilaterais e ajustar o prêmio de risco país nos modelos de avaliação.
Erros comuns a evitar:
Achar que a empresa está protegida da política externa por ser “doméstica”. Desconsiderar o valor estratégico da estabilidade institucional internacional. Ignorar que confiança global é insumo de competitividade tanto quanto capital e tecnologia.
“Barreiras não constroem vantagem, mas isolam, atrasam e nos tiram do jogo.”
A materialização do risco sistêmico tarifário como catalisador de eventos de cisne negro e suas implicações para a gestão de riscos corporativos
A leiturado relatório Black Swans Flock: Recession Risks Rise da KPMG nos mostra um interessante diagnóstico técnico preciso e amplo sobre a combinação de riscos macroeconômicos, geopolíticos, fiscais e institucionais desencadeados pelas novas tarifas comerciais anunciadas nos Estados Unidos.
Longe de se tratar de um evento isolado ou de impacto setorial limitad, a análise da KPMG evidencia que as tarifas não apenas representam um choque econômico regressivo, mas funcionam como gatilhos simultâneos de múltiplos riscos interconectados, capazes de provocar uma transformação estrutural negativa na trajetória de crescimento, estabilidade e inserção global da economia americana.
Do ponto de vista probabilístico, o próprio relatório estrutura três cenários prospectivos, com um otimista, outro é a base mais provável, e por fim um pessimista, sendo cada um com diferentes níveis de severidade e extensão dos impactos, todos derivados da permanência ou reversão das tarifas.
O cenário base provável:
Considerado o mais provável, estima uma recessão leve com início no segundo trimestre de 2025, duração de três trimestres consecutivos, inflação núcleo atingindo 4,8% no terceiro trimestre e desemprego chegando a 5,2% até o final do ano. Esse cenário embute a suposição de que parte dos países retaliará de forma comedida e que a política monetária atuará com cautela.
O cenário pessimista:
Com probabilidade crescente conforme os desdobramentos comerciais e políticos se deterioram, projeta uma recessão mais profunda, desemprego de até 5,8%, retração prolongada da atividade produtiva e cortes de juros forçados por deterioração severa da demanda. Essa hipótese é sustentada por sinais concretos de aumento da volatilidade, paralisia decisória no Congresso e enfraquecimento da coordenação entre as principais autoridades econômicas.
O cenário otimista:
Considerado menos provável até o momento, exige uma reversão parcial das tarifas e restabelecimento do diálogo com parceiros comerciais estratégicos. Nele, a economia evitaria uma recessão formal, mas ainda enfrentaria crescimento abaixo do potencial, inflação pressionada e um ambiente de incerteza elevada.
Diante desse arcabouço analítico, o papel do gestor de riscos, seja no setor financeiro, no setor produtivo ou no ambiente regulatório, passa a ser estratégico, pois com a materialização desses riscos tarifários, caso o cenário base ou pessimista se confirme, impõe as empresas e instituições a necessidade urgente de adotar posturas defensivas, adaptativas e proativas em suas estruturas de governança de riscos.
Mas a pergunta que não se calá é do que fazer se o cenário adverso se concretizar?
As dicas são:
Recalibrar modelos de risco macroeconômico e reestimar projeções base: os modelos preditivos tradicionais que subestimam choques exógenos de política comercial devem ser revisados para incorporar cenários de recessão com inflação, elevação de spreads de crédito, contração do consumo e maior inadimplência. Esses ajustes são especialmente relevantes para instituições financeiras, seguradoras e fundos de pensão.
Revisar matrizes de risco operacional, fiscal e de suprimentos: empresas industriais e de varejo com forte dependência de insumos importados devem reavaliar suas cadeias logísticas, fontes de abastecimento, estoques mínimos e políticas de hedge cambial. A gestão de riscos operacionais precisa mapear gargalos críticos, riscos de ruptura e níveis de resiliência frente a deterioração de contratos internacionais.
Reforçar a análise de risco político-regulatório e desenvolver planos de contingência: em um ambiente onde políticas públicas mudam por decreto, é indispensável acompanhar com precisão o processo legislativo, a jurisprudência comercial internacional, as sinalizações do Executivo e as articulações partidárias. Planos de resposta rápida a mudanças tarifárias, embargos e medidas retaliatórias devem estar prontos para ativação.
Redirecionar a gestão de capital e liquidez: o aumento da volatilidade nos mercados financeiros e da aversão ao risco demanda liquidez reforçada, linhas de crédito preventivas e avaliação prudente de investimentos de capital. Empresas devem adotar estratégias conservadoras de caixa, antecipar captações e renegociar prazos e garantias com seus credores.
Aprimorar a função de compliance e monitoramento de riscos de sanções e retaliações: com a escalada das tensões comerciais, aumentam também os riscos de sanções cruzadas, bloqueios, restrições à exportação e exigências adicionais de due diligence. Empresas multinacionais devem fortalecer seus controles internos, compliance aduaneiro, monitoramento de trade finance e auditoria de fornecedores internacionais.
Reavaliar portfólios de negócios e redesenhar estratégias comerciais internacionais: para empresas com atuação global, o momento exige reconfiguração de seus mercados-alvo, análise do risco-país, diversificação geográfica de operações e potenciais reshoring ou nearshoring. A realocação estratégica de unidades produtivas pode mitigar riscos tarifários e assegurar competitividade.
Engajar institucionalmente em fóruns empresariais e conselhos de comércio internacional: a influência técnica e política de empresas e consórcios setoriais pode ser decisiva na defesa de interesses legítimos diante de governos e organismos internacionais. A articulação com entidades como CNI, Amcham, ICC, OCDE e OMC torna-se essencial para moldar políticas comerciais mais equilibradas e previsíveis.
Fortalecer a governança de riscos e elevar a atuação dos conselhos de administração: em um ambiente de “cisnes negros em bando”, a responsabilidade dos conselhos de administração se expande. É imperativo revisar o apetite a risco da organização, atualizar os mapas de risco corporativo, elevar o nível dos comitês de auditoria e risco, e assegurar que as funções de risk management e inteligência estratégica tenham voz ativa nas decisões de negócio.
Mas quais são as consequências e os impactos esperados para o gestor de riscos?
A materialização dos riscos descritos neste relatório representa um verdadeiro stress test para os modelos tradicionais de gestão de riscos empresariais, aonde o gestor de riscos,em vez de atuar apenas como função de controle ou mitigação, passa a ocupar um papel central na formulação de cenários estratégicos, na definição da resiliência organizacional e na articulação de respostas coordenadas em tempo real.
As dicas aqui são focar na:
Capacidade de antecipação: interpretar sinais fracos, movimentos regulatórios, discursos políticos e dados de mercado como indicadores precoces de disrupção.
Pensamento sistêmico e interconectado: compreender como choques tarifários se desdobram em efeitos fiscais, cambiais, sociais e reputacionais, afetando simultaneamente múltiplas dimensões da empresa.
Multidisciplinaridade e fluência geoeconômica: dominar não apenas as ferramentas quantitativas de risco, mas também os aspectos regulatórios, jurídicos, diplomáticos e de relações governamentais que influenciam o ambiente de riscos emergentes.
Resiliência e agilidade: desenvolver estruturas flexíveis, com capacidade de resposta rápida, comunicação fluida e testes de estresse contínuos, validados por cenários alternativos e análises de sensibilidade robustas.
Integração com o C-Level e o board: garantir que a gestão de riscos não seja periférica ou reativa, mas sim integrada ao processo decisório, com relatórios executivos claros, dashboards dinâmicos e indicadores-chave alinhados com a estratégia corporativa.
"Os cisnes negros já estão no radar. O que falta não é aviso, mas falta sim é ação.”
O risco de ignorar o risco:
A grande lição que podemos tirar de tudo isto do ponto de vista de um geestor de riscos, não é apenas a gravidade dos efeitos das tarifas impostas, mas o fato de que diferentemente de um cisne negro clássico, que é raro, imprevisível e incompreensível ex-ante, este foi um evento amplamente anunciado, porém sistematicamente subestimado, aonde entram os tais rinocerontes cinzas. A insistência em políticas econômicas simplistas, unilaterais e desconectadas das cadeias de valor globalizadas gera efeitos colaterais cumulativos e de difícil reversão. Quando gestores de riscos ignoram ou desvalorizam esses sinais. seja por complacência, pressão política ou limitação analítica, as consequências tendem a ser amplificadas e duradouras.
O papel do gestor de riscos, diante de um cenário, não é apenas o de alertar ou reagir, mas o de conduzir a empresa, seus líderes e seus conselhos por entre a neblina da incerteza com base em evidências sólidas, simulações plausíveis e decisões ancoradas na prudência, na técnica e na governança. Quando o risco vira realidade, só sobrevive quem já estava preparado. E essa preparação começa com o reconhecimento claro e inequívoco de que os cisnes negros, nesta nova era, não nadam sozinhos, mas aqui ultimanente eles voam em bando...
"Se preparar para o pior não é pessimismo, mas é inteligência de longo prazo. E ignorar esses riscos não é otimismo, mas é negligência!"
Aos interessados, podem baixar o documento completo em inglês no seguinte link abaixo:
https://kpmg.com/kpmg-us/content/dam/kpmg/pdf/2025/april-economic-compass.pdf