No livro Antologia do Bom Senso, Roberto Campos faz uma crítica a ideias antigas que ainda sobrevivem no debate público. Ele chama essas ideias de "coisas fora de moda". São conceitos que, mesmo desacreditados pela realidade e pela experiência histórica, continuam influenciando decisões políticas e econômicas.
Campos argumenta que algumas teorias, apesar de já terem falhado na prática, ainda encontram defensores. Muitas vezes, essas ideias persistem por razões ideológicas, emocionais ou simplesmente por inércia. Elas moldam políticas públicas e afetam a economia de diversos países, mesmo quando os resultados mostram que não funcionam.
Mas será que essas ideias realmente ficaram no passado? Ou continuam vivas, impactando a vida das pessoas e as escolhas dos governos? Vou analisar se o que Roberto Campos escreveu há décadas ainda faz sentido nos dias de hoje.
O Que São as "Coisas Fora de Moda"?
Roberto Campos usava essa expressão para se referir a ideias econômicas e políticas ultrapassadas. Segundo ele, são crenças que já foram refutadas pela experiência, mas que, por algum motivo, ainda encontram defensores. Muitas vezes, essas ideias persistem por razões ideológicas, por desconhecimento ou porque trazem ganhos políticos no curto prazo.
Entre as principais “coisas fora de moda”, Campos destacava três pontos:
A crença no Estado como motor do progresso Muitos acreditam que o governo deve ser o principal responsável pelo crescimento econômico. Isso significa que o Estado controla empresas, determina preços e direciona investimentos. No entanto, a história mostra que economias mais dinâmicas e inovadoras são aquelas em que o setor privado tem liberdade para empreender e gerar riqueza. Para Campos, o papel do governo não deveria ser o de empresário, mas sim o de criar um ambiente favorável para os negócios, garantindo segurança jurídica e infraestrutura adequada.
O desprezo pelo mercado Há quem veja o mercado como um sistema falho, incapaz de gerar desenvolvimento de forma justa. Essa visão defende que a intervenção estatal é sempre a melhor solução para problemas econômicos. No entanto, Campos argumentava que mercados livres, quando bem regulados, são os maiores impulsionadores de progresso. A competição incentiva a inovação, melhora a qualidade dos produtos e reduz preços para os consumidores.
O populismo econômico Essa é a prática de adotar políticas que parecem beneficiar a população no curto prazo, mas que geram problemas graves no futuro. Um exemplo comum é o aumento excessivo dos gastos públicos sem uma fonte sustentável de financiamento. Isso pode gerar inflação, endividamento e crises econômicas. Para Campos, medidas populistas ignoram princípios básicos da economia, como a necessidade de equilíbrio fiscal e responsabilidade na gestão dos recursos públicos.
Campos era um defensor do liberalismo econômico e da racionalidade na gestão pública. Para ele, o progresso vinha de reformas estruturais, de um governo eficiente e de uma economia aberta e competitiva. Mas será que essas ideias realmente ficaram no passado? Ou ainda enfrentamos desafios causados pelas "coisas fora de moda"?
Um Exemplo Atual: O Retrocesso na América Latina
Se observarmos a América Latina hoje, veremos que muitas das "coisas fora de moda" citadas por Roberto Campos ainda moldam políticas econômicas. A crença no Estado como motor do progresso, o desprezo pelo mercado e o populismo econômico continuam presentes. Um exemplo recente e emblemático desse fenômeno é a crise econômica da Argentina.
Onde: Argentina
Quando: 2023-2024
Como: A crise econômica causada por políticas ultrapassadas.
Durante anos, a Argentina adotou políticas intervencionistas para tentar controlar a economia. O governo implementou congelamento de preços, fixação artificial de tarifas e aumentos excessivos nos gastos públicos sem contrapartida de arrecadação. Além disso, imprimiu dinheiro para financiar déficits, o que resultou em uma escalada inflacionária.
O resultado foi desastroso. A inflação ultrapassou 200% ao ano, corroendo o poder de compra da população e gerando uma grave crise econômica. A moeda argentina perdeu valor rapidamente, e a incerteza afugentou investimentos. Empresas fecharam, o desemprego cresceu e a pobreza aumentou.
Diante desse colapso econômico, em 2023, os argentinos elegeram Javier Milei como presidente. Ele venceu com um discurso fortemente alinhado às ideias defendidas por Roberto Campos. Suas principais propostas incluíam:
Redução do tamanho do Estado: privatização de empresas estatais e cortes em gastos públicos para equilibrar as contas do governo.
Abertura econômica: menos barreiras para o comércio e maior integração com mercados internacionais.
Controle da inflação: fim da emissão descontrolada de dinheiro e maior rigor fiscal.
No primeiro ano de governo, Milei implementou uma série de reformas estruturais. O corte de subsídios, a desregulamentação de setores econômicos e a redução de barreiras comerciais trouxeram desafios e resistências, mas começaram a produzir efeitos.
Até abril de 2025, a inflação mensal caiu para 2,4%, indicando o fim da hiperinflação. O PIB, que sofreu quedas nos primeiros meses, começou a se recuperar, impulsionado pelo setor agrícola e pelo aumento da confiança dos investidores. A taxa de pobreza, que chegou a 57% no início de 2024, recuou para cerca de 38,9% no final do ano. Além disso, a Argentina firmou acordos comerciais com a União Europeia, buscando fortalecer sua economia no longo prazo.
Apesar dos avanços, a economia argentina ainda enfrenta desafios. O país busca consolidar a estabilização econômica sem prejudicar a população mais vulnerável, que sentiu os impactos das medidas de austeridade. Além disso, há resistência política e social às reformas, o que pode influenciar a continuidade das políticas de Milei.
A crise argentina reflete, na prática, os alertas de Campos sobre os perigos do populismo econômico. Quando governos ignoram princípios básicos da economia e gastam além do que podem, os resultados são inflação, recessão e queda na qualidade de vida da população.
Esse cenário levanta uma questão importante: será que outros países da América Latina aprenderão com os erros da Argentina? Ou continuarão repetindo políticas ultrapassadas que levam a ciclos de crise?
As ideias de Roberto Campos continuam relevantes porque os erros que ele denunciava ainda são cometidos. Muitos países insistem em políticas que desconsideram princípios básicos da economia, gerando crises recorrentes. Será que algum dia essas "coisas fora de moda" realmente sairão de cena?
Fontes:
Livro “Antologia do Bom Senso” de Roberto Campos
https://batimes.com.ar/news/economy/world-bank-forecasts-5-growth-for-argentina-in-2025.phtml