Artigo
07/08/2016

'Contabilidade criativa' virou 'pedalada' e pôs PT na lona

Analisa como as pedaladas fiscais e a contabilidade criativa impactaram o governo Dilma e a política brasileira.

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Publicado originalmente no UOL, em 13/08/2016.

Foi-se o tempo em que o verbo pedalar se referia apenas à rotação de um instrumento chamado pedal. Desde o final de 2014, o termo "pedalada" foi se tornando cada vez mais popular e chegou ao seu auge em 2016, quando o Senado e a Câmara, em função das "pedaladas fiscais", deram seguimento ao impedimento da presidente Dilma. Nos veículos de imprensa e no mundo financeiro, o termo "pedalada contábil" também prosperou.

No dia 17 de abril de 2015, "O Globo" afirmou que a palavra "pedalar" costumava ser usada pelos técnicos que lidavam com o orçamento público, sendo sinônimo de postergar uma despesa. Em outros segmentos, o verbo pedalar também tinha um papel maior do que o de mover uma bicicleta.

Não é difícil lembrar dos famosos dribles do Robinho quando, em meados de 2002, pedalou no ar em direção a Rogério, lateral do Corinthians. A expressão "pedala Robinho", que feriu tantos corações corintianos, ainda é utilizada em situações diversas, até por quem não se importa tanto com futebol.

No mercado financeiro, os bancos de crédito consignado utilizavam o termo para designar uma forma comum de captação. Diziam que o banco estava "pedalando a bicicleta" quando ele vendia sua carteira de empréstimos para viabilizar novas transações. Uma ação que se transformava em um impulso para o próximo movimento –ou seja, o de conceder novos créditos– sem deixar a bicicleta cair.

Não é claro se a expressão "pedaladas fiscais" tem origem em postergações, dribles ou continuidade. O fato é que, com a publicidade diária, elas, que antes eram chamadas pela imprensa de "contabilidade criativa", transformaram-se em uma marca, em um ativo intangível que colocaria na lona o governo petista.

A contabilidade criativa nas contas públicas não é bem-vista, pois carrega o estigma de pouca transparência. A prática foi utilizada nos governos dos três últimos presidentes eleitos, mas aumentou consideravelmente em 2014 e 2015, provavelmente porque, com a queda na arrecadação decorrente da crise econômica, as metas de superavit não seriam atingidas. Isso corrobora a tese de que a manipulação contábil seria um sintoma, e não a causa de uma crise.

As tais pedaladas do governo liderado por Dilma foram a postergação do repasse de verbas do Tesouro Nacional para bancos públicos e autarquias que faziam pagamentos de programas sociais e de empréstimos subsidiados –quando o banco concede um empréstimo a uma taxa mais baixa que a taxa de mercado, e o Tesouro paga ao banco a diferença que este deixou de ganhar por não cobrar do cliente o valor usual.

Parece estranho, mas um gasto incorrido e não pago dentro de determinado ano não é registrado como despesa daquele período. Assim, o ano fica com menos despesas, aparentando um resultado melhor. Futuramente, o Tesouro liquida a obrigação, que aparece registrada como uma despesa do exercício corrente, e não do anterior.

O Tribunal de Contas da União rejeitou as contas do governo Dilma, pois entendeu que a postergação de pagamentos teria natureza de empréstimo, o que não poderia ser feito sem a aprovação do Congresso. A origem dessa restrição está relacionada às crises fiscais das décadas de 1980 e 1990, quando bancos públicos financiaram o excesso de gastos dos Estados e enfrentaram problemas de solvência.

Algumas interpretações, como a do recente despacho do MPF (Ministério Público Federal), entendem que essas transações não se enquadram no conceito legal de empréstimo ou no de operação de crédito, portanto não precisariam da aprovação do Congresso. Assim, as pedaladas seriam medidas administrativas e não crimes de responsabilidade, já que elas não beneficiaram financeiramente um amigo ou alguém do governo, ou mesmo terceiros. O MPF também concluiu que a prática minou a credibilidade das contas públicas e funcionou como um drible nas estatísticas do Banco Central.

No entanto, outros entendem que as pedaladas são um crime de responsabilidade do governante. O PSDB, em seu site, afirma que, "sem transferir o dinheiro para essas instituições, a contabilidade mensal do governo aparecia sempre melhor do que ela estava na prática. Dessa forma, o mercado financeiro acabava "enganado" pela manobra, sem ter a noção exata de que as contas da União estavam piores do que apontavam os dados".

Na literatura contábil, encontramos frequentemente o termo fraude –ou seja, práticas contrárias às normas vigentes– e também as expressões contabilidade criativa e gerenciamento de resultados –que se referem a práticas deliberadamente utilizadas para apresentar um resultado desejado e que, apesar de serem oportunistas, normalmente não ferem as normas contábeis.

Na minha tese de doutorado, utilizei a expressão "manipulação contábil" como um conceito que englobaria tanto fraude como gerenciamento de resultados. A pedalada ainda não conquistou o ambiente acadêmico, mas, com toda a divulgação que teve, dificilmente nos esqueceremos dos novos significados dessa palavra.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que significa o termo 'pedalada' no contexto financeiro?
No contexto financeiro, 'pedalada' refere-se à prática de postergar despesas ou pagamentos para melhorar temporariamente a aparência das contas públicas ou privadas.
O que são 'pedaladas fiscais'?
'Pedaladas fiscais' são práticas de postergar o repasse de verbas do Tesouro Nacional para bancos públicos e autarquias, que realizam pagamentos de programas sociais e empréstimos subsidiados, para melhorar temporariamente a aparência das contas públicas.
Como o termo 'pedalada' é utilizado no mercado financeiro?
No mercado financeiro, 'pedalar a bicicleta' refere-se à prática de um banco vender sua carteira de empréstimos para viabilizar novas transações, permitindo a concessão de novos créditos sem comprometer a estabilidade financeira.
Qual foi a consequência das 'pedaladas fiscais' para o governo Dilma?
As 'pedaladas fiscais' levaram ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, após o Senado e a Câmara considerarem que a prática configurava um crime de responsabilidade.
O que é contabilidade criativa?
Contabilidade criativa refere-se a práticas contábeis que, embora não necessariamente ilegais, são utilizadas para apresentar resultados financeiros de forma mais favorável do que realmente são, muitas vezes comprometendo a transparência.
Qual foi a posição do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre as contas do governo Dilma?
O TCU rejeitou as contas do governo Dilma, argumentando que a postergação de pagamentos configurava um empréstimo não autorizado pelo Congresso, o que violava as normas fiscais.
Qual foi a interpretação do Ministério Público Federal (MPF) sobre as pedaladas fiscais?
O MPF entendeu que as pedaladas fiscais não se enquadravam como empréstimos ou operações de crédito, não necessitando de aprovação do Congresso, e considerou que a prática minou a credibilidade das contas públicas.
Como o PSDB interpretou as pedaladas fiscais?
O PSDB considerou as pedaladas fiscais um crime de responsabilidade, argumentando que a prática enganava o mercado financeiro ao apresentar uma situação fiscal melhor do que a real.
Qual é a diferença entre fraude, contabilidade criativa e gerenciamento de resultados?
Fraude envolve práticas contrárias às normas vigentes, enquanto contabilidade criativa e gerenciamento de resultados são práticas oportunistas que visam apresentar resultados desejados sem necessariamente violar normas contábeis.
O que é manipulação contábil?
Manipulação contábil é um conceito que engloba tanto fraude quanto gerenciamento de resultados, referindo-se a práticas deliberadas para apresentar resultados financeiros de forma mais favorável do que realmente são.

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Eric Barreto

Partner e Prof. do Insper