Com certeza você deve ter escutado e lido muito sobre a TSB (Taxonomia Sustentável Brasileira) nos últimos dias. O tema que esteve em consulta pública nos últimos meses, passou pelos ajustes finais da sua primeira versão; foi publicado na sua primeira versão.
A Taxonomia Sustentável é basicamente um direcionador estratégico, que tem como objetivo classificar as atividades econômicas nacionais de acordo com seu alinhamento às priorizações do país nas agendas de sustentabilidade. Essa classificação ocorre prioritariamente baseada nos setores da economia, que são definidos através do CNAE (Classificação nacional das atividades econômicas) e sua determinação dentro do escopo da TSB ocorre de acordo com sua atividade em si.
Os setores da economia que entraram na primeira TSB são os que foram considerados mais impactantes para o processo de transição climática e energética nacional:
- Agricultura, Pecuária, Produção Florestal, Pesca e Aquicultura (A)
- Indústrias Extrativas (B)
- Indústria de Transformação (C)
- Eletricidade e Gás (D)
- Água, Esgoto, Gestão de Resíduos e Descontaminação (E)
- Construção (F)
- Transporte, Armazenagem e Correio (H)
- Serviços sociais para qualidade de vida e seu planejamento (selecionados de outras classes)
O ponto principal da análise da Taxonomia não está relacionado diretamente apenas ao setor, mas à prioridade de análise, que se relaciona com a atividade realizada, pois a atividade (dentro dos CNAEs priorizados) é que está classificada no documento de acordo com as três formas de enxergar a contribuição para a sustentabilidade:
- Atividade sustentável: Aquela que contribui positivamente para as agendas de sustentabilidade prioritárias do governo;
- Atividade de transição: Aquela que ainda não é completamente aderente às agendas, mas demonstra avanços nesse caminho.
- Atividades não aderentes: Aquelas que ainda não acenaram em nada para as agendas prioritárias.
Isso pode ser verificado, por exemplo, na agricultura:
Se a produção de uma commodity agrícola ocorre alinhada a um processo de ILPF (Integração lavoura, pecuária, floresta), através de um processo de agricultura regenerativa e sem gerar danos ao solo ou riscos de desmatamento, ela pode ser considerada como sustentável. Já se essa mesma commodity é produzida através de uma atividade nas características padrão de produção rural, mas conta com uso de defensivos e fertilizantes de baixa emissão e biológicos, ela pode ser considerada como atividade de transição. Agora, se essa atividade ocorre utilizando defensivos de larga escala e sem medidas de redução de impacto (prioritariamente climático), ela é considerada como não aderente.
Esse exemplo (que é básico, diante de todos os critérios determinados na TSB) demonstra um pouco como as atividades podem ter uma classificação mais ou menos relevante, baseada na aderência das suas ações ao plano de governo alinhado às agendas globais.
Aqui entra o pulo do gato. Vocês já me viram falar muitas vezes sobre os ODS (Objetivos do desenvolvimento sustentável) e o quanto eu me arrepio ao ver o pessoal transformar ODS em enfeite de árvore de Natal e agora, essa clareza é muito mais direta. Falo isso, porque empresas que investiram esforço, dinheiro e mão de obra para priorizar ODS e metas que não estão alinhadas às agendas de governo, em nada terão de bônus na Taxonomia e aquelas que atuam alinhadas a enxergar os riscos e oportunidades da agenda pelo ponto de vista de acompanhar as decisões de governo, estarão no mínimo mais aderentes ao plano da TSB e assim poderão usufruir de algumas vantagens como:
- Melhor visibilidade de investidores;
- Captação de crédito com condições melhores;
- Oportunidade de conexão e novos negócios alinhados pela taxonomia.
Quem fez a agenda só pra priorizar o que era mais "Bonitinho" vai precisar remar tudo de novo, para agora, fazer aquilo que está sendo direcionado pela taxonomia.
Com essa nova direção, as empresas devem revisitar sua materialidade, aprofundar sua análise (caso seu setor seja um dos delimitados) e diagnosticar o quão aderente está sua estratégia à TSB, pois agora, as ações de sustentabilidade têm um caminho lógico a ser seguido e, caso não haja alinhamento, a oferta de crédito poderá ser o limitador mais relevante para manter os negócios rentáveis.
Sustentabilidade e finanças nunca se separaram e provavelmente o que houve de tempos para cá foi uma espécie de romantização das "práticas sustentáveis" que não levam a lugar nenhum. Esse processo rendeu alguns holofotes, mas agora, ou as empresas se alinham às métricas (enxergando de forma pragmática riscos e oportunidades), ou então, perderão competitividade pela dificuldade de captar recurso com valor acessível.
A agenda ESG foi até então uma priorização baseada em "Quem grita mais alto" e, com métricas e standards de reporte mais diretos (como IFRS S1 e S2), será de "quem faz, com menos custo e mais aderência o que precisa ser feito".