Artigo
17/06/2025

O vírus da corrupção

Analisa como a corrupção afeta o Brasil e destaca o papel do compliance empresarial na prevenção de práticas ilícitas.

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Os desdobramentos das investigações criminais publicados em diversos tipos de mídia estão aprimorando o conceito da sociedade brasileira sobre ética, conduta e valorização do Brasil. Seja em debates ou conversas – até mesmo aquelas no seio familiar – o tema “como fazer para evitar a corrupção” tem prevalecido, sendo até mesmo peça fundamental na educação dos filhos.

Apesar de ser uma nação jovem, no Brasil a corrupção é um vírus social que atinge diversas camadas, desde um estudante que tenta “colar” a prova na escola até uma estrutura de tentativa de crime de lavagem dinheiro com o risco de mais dinheiro de origem ilícita ser despejado de maneira legal no sistema f inanceiro, afetando a uma das mais importantes engrenagens do país, ou seja, seu próprio povo.

Isso é dado num momento em que este país de berço esplêndido tenta melhorar sua reputação, não somente internacional, mas internamente, já que seus habitantes não suportam mais a quantidade de leis, normativos e processos, muitas vezes criticados pela massa que os entende como algo “para inglês ver”. A expressão “para inglês ver”, cujo sentido em dicionários seria “para efeito de aparência, sem validade” tem suas origens no tempo do Brasil Império, quando as autoridades brasileiras fingiam ceder às pressões da Inglaterra, tomando pro vidências de mentira para combater o tráfico de escravos africanos. Um com bate que nunca houve, pois era encenado apenas “para inglês ver”. O sentido da expressão no contexto da corrupção é exatamente o mesmo. É difícil de ser explicado para estrangeiros, mas demonstra a realidade que há dentro da pátria amada ao criar leis inovadoras para acalmar os ânimos do mercado internacional.

Nesse sentido, temos a tão aclamada Lei Anticorrupção brasileira (também chamada de Lei da Empresa Limpa, a Lei nº 12.846/2013), que possui um grande poder em seu corpo, porém carece de diversos normativos, especialmente daqueles que direcionam o programa de compliance ou de integridade, como está definido em seu teor: “a existência de mecanismos e procedimentos internos de integri dade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica, podem ser levados em consideração no momento da aplicação do processo penal administrativo contra a Pessoa Jurídica.”

Afinal, o que é ser compliance? Uma advocacia preventiva que tende a mitigar qualquer litigio e fazer com que boas condutas, ética e transparência sejam apli cadas na empresa, inclusive evitando problemas nas relações privadas? Ou um dizer, conforme a lei citada, para as relações com a Administração pública?

Não é de hoje que as atividades de compliance são realizadas no Brasil, e certa mente não estamos diante de uma “lei da moda” ou um método “PIV — para inglês ver”. Há tempos temos o tema compliance como base para controles internos e apli cação de normativos para a boa conduta do negócio, especialmente se a empresa tiver sede ou unidades em países que possuem este mecanismo enaltecido, tal qual os Estados Unidos, através do FCPA (Foreign Corrupt Practices Act) ou o Reino Unido pelo UK Bribery Act.

Ser compliance não é apenas lidar com prevenção à lavagem de dinheiro, tam pouco ser advogado, mas ser parceiro do negócio, realizar os devidos controles, mitigar riscos e fazer com que o “para inglês ver” não seja perpetuado tal qual existe no Brasil desde os tempos imperiais. A reputação deve ser a base da exis tência de qualquer tipo de relacionamento empresarial, tanto com entes públicos como com os privados.

Com os mecanismos legais cada vez mais fortes haverá no futuro a necessidade de reforma do Código Penal (consequentemente do Direito Constitucional) para que haja a melhor definição de responsabilidade da pessoa jurídica, fato que é ampla mente discutido na Lei dos Crimes de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/1998).

A função de compliance faz, assim, a resposta para as preocupações que as empresas e a iniciativa privada possuem em vez da morosidade judicial e dos rei terados problemas que o Brasil passa em todas as suas esferas, os quais certamente tentam infectar quem está de boa-fé (seja do lado público ou privado).

Tal qual o famoso ditado popular “prevenir é melhor que remediar”, as empresas brasileiras investem fortemente nos programas de compliance que, neste caso, não são softwares, mas sim um conjunto de normas internas, controles e práticas para evitar que haja qualquer tipo de corrupção ou descumprimento de leis, fazendo a devida diligência de forma rotineira, fiscalizando toda a esteira de um processo, por exemplo, uma indústria, desde as compras da matéria-prima e sua origem, seus fornecedores, colaboradores, rede de vendas, clientes e produtos a serem ven didos por ela. Com mecanismos de monitoramento, aculturamento ético, canais de denúncia interno e externo, verificação da procedência de determinado produto e treinamentos de todos os envolvidos, sendo o exemplo advindo da alta direção até a base da pirâmide empresarial.

A integridade de uma empresa deve prevalecer em cada ato que seja realizado. Logo, ela deve estar em compliance, ou seja, seguir as leis (não somente a Lei Anti corrupção), não somente por causa de uma penalização, mas para ser exemplo na sociedade. Se todas as empresas realizarem este investimento estaremos diante de um exemplo de ética e comprometimento para que a reputação do país esteja cada vez mais forte e independente de interesses fora da realidade do bom anda mento social, aprimorando a engrenagem que faz o Brasil ser mais forte e feliz mitigando desigualdades e aprimorando a democracia, com equilíbrios social, ético e econômico.

Compliance pode não ser o único remédio para os males do crime, mas certa mente é um alicerce para qualquer negócio no mundo globalizado, pois as pessoas que participarem desta atividade numa empresa serão guardiões da ética e darão sugestões de melhoria para o resultado positivo: dizer não à corrupção.

Mais uma vez, dizer não à corrupção começa no berço, neste caso, na empresa, que com melhoria contínua atingira a excelência e a qualidade, base do crescimento sustentável e integro, sem o tentáculo do Estado subornável.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Como os desdobramentos de investigações criminais, divulgados pela mídia, têm influenciado a sociedade brasileira?
Os desdobramentos de investigações criminais, quando publicados em diversos tipos de mídia, têm contribuído para aprimorar o conceito da sociedade brasileira sobre ética, conduta e a valorização do Brasil.Essas discussões, presentes em debates, conversas cotidianas e até no ambiente familiar, têm dado destaque ao tema de como evitar a corrupção, tornando-o uma peça fundamental na educação, inclusive dos filhos.
Como a corrupção se manifesta no Brasil e quais camadas da sociedade ela atinge?
A corrupção no Brasil é descrita como um vírus social que atinge diversas camadas da sociedade.Ela se manifesta desde atitudes aparentemente menores, como um estudante tentando colar em uma prova escolar, até esquemas complexos, como tentativas de crimes de lavagem de dinheiro. Esses crimes podem resultar na inserção de dinheiro de origem ilícita no sistema financeiro de forma legal, afetando o próprio povo brasileiro, considerado uma das engrenagens mais importantes do país.
Qual a origem e o significado da expressão "para inglês ver", especialmente no contexto da corrupção?
A expressão “para inglês ver” significa algo feito apenas para efeito de aparência, sem validade real.Sua origem remonta ao período do Brasil Império. Naquela época, as autoridades brasileiras fingiam ceder às pressões da Inglaterra, implementando medidas fictícias para combater o tráfico de escravos africanos. Esse combate era encenado, apenas “para inglês ver”.No contexto da corrupção, a expressão mantém o mesmo sentido, descrevendo a criação de leis inovadoras que visam acalmar o mercado internacional, mas que podem não ter efetividade prática interna.
O que é a Lei Anticorrupção brasileira (Lei nº 12.846/2013) e quais são seus pontos fortes e fracos?
A Lei Anticorrupção brasileira (também chamada de Lei da Empresa Limpa, a Lei nº 12.846/2013) é uma legislação com grande poder em seu texto.No entanto, ela carece de diversos normativos, especialmente aqueles que direcionam a implementação de programas de compliance ou de integridade. A lei menciona que "a existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica, podem ser levados em consideração no momento da aplicação do processo penal administrativo contra a Pessoa Jurídica."
O que significa "ser compliance" no contexto empresarial?
Ser compliance envolve mais do que apenas lidar com a prevenção à lavagem de dinheiro ou ser um advogado.Significa atuar como um parceiro do negócio, implementando os devidos controles, mitigando riscos e assegurando que práticas antiéticas, como o “para inglês ver”, não se perpetuem. A função de compliance busca garantir que a empresa opere com boas condutas, ética e transparência, tanto em suas relações com a Administração Pública quanto nas relações privadas, visando mitigar litígios. A reputação é considerada a base para qualquer relacionamento empresarial.
As atividades de compliance no Brasil são uma novidade ou já existiam antes da Lei Anticorrupção de 2013? Há influência de legislações estrangeiras?
As atividades de compliance não são recentes no Brasil e não surgiram apenas com a Lei Anticorrupção de 2013, não sendo consideradas uma “lei da moda” ou um método “PIV — para inglês ver”.O tema compliance já servia de base para controles internos e para a aplicação de normativos de boa conduta empresarial há tempos, especialmente em empresas com sede ou unidades em países com mecanismos de compliance consolidados. Exemplos de legislações estrangeiras que influenciam essa área são o FCPA (Foreign Corrupt Practices Act) dos Estados Unidos e o UK Bribery Act do Reino Unido.
Qual é a importância da reputação para as empresas?
A reputação deve ser a base da existência de qualquer tipo de relacionamento empresarial, seja com entes públicos ou com entidades privadas.
Existe a perspectiva de futuras mudanças legislativas relacionadas à responsabilidade da pessoa jurídica no Brasil?
Com o fortalecimento dos mecanismos legais, prevê-se a necessidade futura de uma reforma do Código Penal e, consequentemente, do Direito Constitucional.Essa reforma visaria uma melhor definição da responsabilidade da pessoa jurídica, um tema que já é amplamente discutido no âmbito da Lei dos Crimes de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/1998).
Como funciona um programa de compliance dentro de uma empresa?
Um programa de compliance não se resume a um software, mas sim a um conjunto de normas internas, controles e práticas destinadas a evitar qualquer tipo de corrupção ou descumprimento de leis.Isso inclui a realização rotineira da devida diligência (due diligence), fiscalizando toda a cadeia de um processo empresarial. Por exemplo, em uma indústria, isso abrangeria desde a compra da matéria-prima e sua origem, passando por fornecedores, colaboradores, rede de vendas, clientes, até os produtos a serem vendidos.O programa também envolve mecanismos de monitoramento, o aculturamento ético dos colaboradores, a disponibilização de canais de denúncia internos e externos, a verificação da procedência de produtos e a realização de treinamentos para todos os envolvidos, com o exemplo partindo da alta direção e se estendendo até a base da pirâmide empresarial.
Qual o papel da alta direção na implementação de um programa de compliance eficaz?
Para que um programa de compliance seja eficaz, o exemplo deve vir da alta direção da empresa e se estender até a base da pirâmide empresarial.Isso significa que o comprometimento dos líderes é fundamental para o sucesso das iniciativas de integridade e ética.
Quais são os benefícios de uma empresa estar em compliance?
Uma empresa em compliance busca seguir as leis, não apenas a Lei Anticorrupção, e não somente para evitar penalidades, mas para ser um exemplo na sociedade.O investimento em compliance por parte das empresas pode levar a um exemplo de ética e comprometimento, fortalecendo a reputação do país e tornando-o mais independente de interesses desalinhados com o bom andamento social. Isso contribui para aprimorar a engrenagem que torna o Brasil mais forte e feliz, mitigando desigualdades, aprimorando a democracia e promovendo equilíbrios social, ético e econômico.Para a empresa, o compliance promove a melhoria contínua, visando a excelência e a qualidade, que são a base do crescimento sustentável e íntegro, livre da influência do suborno estatal.
Qual é o papel do compliance no cenário de negócios globalizado?
O compliance pode não ser a única solução para os problemas relacionados ao crime, mas é considerado um alicerce fundamental para qualquer negócio no mundo globalizado.
Qual é o papel das pessoas que trabalham com compliance dentro de uma empresa?
As pessoas que participam da atividade de compliance em uma empresa atuam como guardiões da ética.Elas também oferecem sugestões de melhoria para alcançar um resultado positivo, que é dizer não à corrupção.
Onde se inicia o combate à corrupção, segundo a perspectiva empresarial apresentada?
O combate à corrupção, na perspectiva empresarial, começa “no berço”, ou seja, dentro da própria empresa.Através da melhoria contínua, a empresa pode atingir a excelência e a qualidade, que são a base para um crescimento sustentável e íntegro, livre da influência de um Estado suscetível ao suborno.
O que a Lei Anticorrupção brasileira (Lei nº 12.846/2013) considera na aplicação de processos administrativos?
De acordo com o teor da Lei Anticorrupção brasileira (Lei nº 12.846/2013), "a existência de mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica, podem ser levados em consideração no momento da aplicação do processo penal administrativo contra a Pessoa Jurídica."
A atuação em compliance se restringe às relações com a Administração Pública?
Não, a atuação em compliance não se restringe apenas às relações com a Administração Pública.Ela também é uma advocacia preventiva que busca mitigar litígios e promover boas condutas, ética e transparência nas relações privadas da empresa.
Além de evitar penalidades, por que uma empresa deve estar em compliance?
Uma empresa deve estar em compliance, ou seja, seguir as leis (não apenas a Lei Anticorrupção), não somente por causa de uma eventual penalização, mas para ser um exemplo na sociedade.A integridade de uma empresa deve prevalecer em cada ato realizado.
De que forma o investimento em compliance pelas empresas pode contribuir para o fortalecimento da democracia e da economia do país?
Se todas as empresas investirem em compliance, isso pode gerar um exemplo de ética e comprometimento, fortalecendo a reputação do país.Este cenário contribui para o aprimoramento da engrenagem que torna o Brasil mais forte, mitigando desigualdades, aprimorando a democracia e promovendo equilíbrios social, ético e econômico.

Autor

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Alison Dorigão Palermo

Diretor de Compliance | AML | KYC | Fintech | Apostas & Crypto | +18 anos em Risco Reg., ESG e GRC | Ex-Nuvei | Consultor | Professor | Autor | Palestrante | Top Voice em Compliance