Setembro não é apenas mais um mês no calendário. Ele chega sempre com uma lembrança quase silenciosa: a de que a vida é delicada demais para ser vivida no piloto automático. É o mês em que as fitas amarelas nos olham e nos dizem, sem dizer, que precisamos cuidar de nós mesmos.
Na minha rotina de Head of Audit & Compliance Officer, essa lembrança ecoa fundo. Porque se existe um trabalho que exige firmeza por fora e resistência por dentro, é esse. Passo o dia entre gestão de times, reuniões com a alta administração e demais áreas, relatórios, auditorias, reuniões tensas, cruzando dados e investigando sinais que ninguém mais percebe. De fora, pode parecer técnica, método, norma. Mas quem vive por dentro sabe: é silêncio. O silêncio de enxergar riscos, desvios, fragilidades e carregar segredos que ainda não podem ser ditos. É o silêncio de segurar a própria ansiedade enquanto todos esperam respostas rápidas e seguras.
E o silêncio pesa. Pesa mais do que os prazos impossíveis, mais do que a caixa de e-mails transbordando. Pesa como um segredo que não cabe no peito. E, no fundo, mesmo com a armadura da objetividade, continuo sendo humano — vulnerável, cansado, às vezes à beira da exaustão.
Setembro Amarelo me faz lembrar disso. Me faz lembrar que, entre uma investigação e outra, existe alguém que sente. Que se pergunta se está realmente fazendo diferença. Que também precisa de pausa, de cuidado, de um pouco de vida para além dos controles, riscos e normas.
Falar de saúde mental nunca foi simples. Mas é necessário. Porque por trás de tantos profissionais aparentemente fortes existem histórias que não aparecem em relatórios. Histórias de quem sorri durante o expediente e chora no carro a caminho de casa. De quem parece feito de aço, mas é só carne e osso tentando resistir.
E resistir, às vezes, significa admitir fraqueza. Significa pedir ajuda. Significa entender que até os sistemas mais bem desenhados precisam de válvulas de escape. Nós também.
No fim, o maior compromisso de compliance que eu posso assumir é com a minha própria vida. Que este Setembro Amarelo seja esse lembrete íntimo: não precisamos ser máquinas de detectar riscos. Podemos ser humanos que respiram, descansam, amam. E que se permitem, mesmo em meio ao caos, continuar.