Entrevista: Henrique Meirelles, Presidente do Banco Central, fala sobre juros, inflação e oportunidades futuras do Brasil.
Como presidente do Banco Central desde janeiro de 2003, Henrique Meirelles rebate com firmeza as duras críticas contra sua política de juros e é intransigente no controle da inflação como forma de garantir crescimento e estabilidade da economia do país. Formado em engenharia e com longa carreira no setor financeiro internacional, onde ocupou, nos EUA, a presidência mundial do BankBoston Corporation e o comando do Global Banking no FleetBoston Financial, ele confia na rota de crescimento sustentável do Brasil. Na sede do Banco Central, em Brasília, Meirelles conversou com Carlos Adese, editor de Brasil da Latin Trade, sobre juros, inflação e as oportunidades futuras do país.
Como o sr. encara as duras críticas do setor produtivo brasileiro contra uma taxa de juros entre as mais altas do mundo?
Eu acho que o setor produtivo brasileiro está mudando e já começa, cada vez mais, a não olhar mais pelo espelho retrovisor e, sim, a olhar no pára-brisa. Aqueles que deixaram de olhar no espelho retrovisor estão vendo que a demanda hoje já é presente, que a demanda doméstica está crescendo a 6% ao ano, e que está dando tudo certo. Ao invés de reclamar contra o passado, ele [empresário] deveria olhar para frente e investir, senão vai perder mercado. Se apostar no crescimento econômico, vai atender melhor aos interesses da empresa dele do que simplesmente ficar fazendo lobby para o governo tomar decisões artificiais e negativas.
A taxa de juros vai continuar caindo?
Nós não fazemos previsões sobre taxas de juros. Em dito isso, é importante mencionar que, segundo estudos feitos pela equipe técnica do Banco Central (BC), a taxa de juros que tem efeito depois da devida defasagem na atividade econômica em maior intensidade é a taxa de juros real de mercado. Um bom índice é a taxa de juro comercializada no mercado futuro a termo de um ano. Se avaliarmos essa taxa, vamos ver que já está no nível mais baixo da história, isto é, a taxa a termo de um ano descontada pela inflação esperada pelo mercado a termo de um ano. A taxa a prazos maiores já está inclusive em patamares mais baixos. Já temos alguns prazos onde as taxas reais estão abaixo de 6%, que são patamares absolutamente inéditos no Brasil nas últimas décadas. Tudo isso com inflação ancorada na meta. A nossa expectativa é que, com a continuidade da estabilização econômica e da política bem sucedida de manter a inflação controlada, certamente teremos uma trajetória onde os prêmios de risco deverão cair, e que, neste caso, deveria indicar que as taxas de mercado a longo prazo terão trajetória de queda.
Muitos dos seus críticos dizem que seria melhor trocar um pouco mais de inflação por menos desemprego.
Este é um erro grave—que, felizmente, um número cada vez menor de pessoas comete— que é achar que maior inflação leva a mais emprego. Esse trade off que você se referiu não é real. Não existe na economia trocar mais inflação por mais emprego. Mais inflação não leva a mais emprego. Se fosse verdade, todos os países do mundo hoje estariam adotando políticas monetárias que levassem à alta inflação. Hoje, há uma verdade aceita como resultado da história econômica que mostra que o caminho para aumentar o emprego é inflação controlada na meta estável.
A meta da inflação para esse ano é 4,5%?
É 4,5%.
E para 2008?
Também 4,5%. Esta é a meta definida pelo Conselho Monetário Nacional.
O sr. afirmou recentemente que o Brasil deve seguir com a abertura de sua economia para o comércio e o fluxo de capitais. O governo está fazendo sua parte neste processo?
Certamente existe um trabalho a esse respeito já feito e ainda a ser feito. Por exemplo, o fluxo de capitais é um dado importante e poucas vezes analisado. O BC, o Conselho Monetário Nacional e o governo têm feito um trabalho importante nesse sentido. Nós fizemos uma abertura, com a unificação dos mercados de câmbio, em 2005, que é um movimento histórico. Até 1988 ou 1989, todas as transações de câmbio no Brasil eram aprovadas individualmente. Posteriormente, abriu-se para um mercado um pouco mais livre. Esses mercados foram unificados e, a partir de 2005, qualquer cidadão ou empresa localizada no Brasil pode fechar o preço a não ser evidentemente nas explicações para a Receita Federal e para as autoridades judiciárias caso haja suspeitas de atividade ilícita. Isso é uma mudança histórica no Brasil. O BC promoveu uma completa mudança no regulamento das exportações e importações. A exportação no Brasil às vezes tinha mais de 1.000 passos burocráticos, e isso foi extraordinariamente simplificado. Já temos um plano piloto com a Argentina, o primeiro país com quem faremos isso, que vai permitir exportações e importações de bens ou serviços com remessas sendo feitas diretamente de real para peso, e de peso para real, sem passar pelo dólar. Tudo isso está ancorado no mais importante que é a estabilidade econômica. A estabilidade econômica permite que o país possa ter o seu comércio exterior crescendo de forma sustentável. O grande desafio que resta é exatamente a questão das tarifas, das alíquotas de importação, mas o Brasil está muito envolvido em algumas discussões importantes, e aí já depende de uma movimentação que não é necessariamente unilateral de baixar alíquota sem ter a contrapartida de outros parceiros.
O dólar está caindo muito em relação ao real. O que pode ser feito para reverter um pouco essa tendência e ajudar as exportações brasileiras?
O BC não trabalha com meta de taxa de câmbio. O BC trabalha com metas de inflação. Já tivemos experiências de tentar fixar a taxa de câmbio e de trabalhar com meta de câmbio. Foram experiências mal sucedidas no Brasil e na maior parte dos países. Nós temos, sim, uma política de acumulação de reservas e de diminuição das vulnerabilidades do país, visualizado em uma construção de reservas importantes. Vamos prosseguir normalmente com essa política bem sucedida. O efeito da política monetária e cambial tem mostrado que é a política certa para o país. As exportações continuam fortes, as importações crescendo e permitindo que as empresas aumentem a produtividade comprando máquinas, equipamentos e insumos. Evidentemente que isso gera desequilíbrios específicos em alguns setores, que precisam ter condições de enfrentar a questão. O governo está olhando a questão do ponto de vista do aumento da competitividade e da produtividade, e estuda formas de permitir que as empresas brasileiras, principalmente aquelas que são intensivas na mão de obra, tenham condições de aum entar o seu nível de competitividade.
Não há o risco de muitas empresas brasileiras fecharem em função do dólar baixo?
A questão é saber o que fazer. É a mesma coisa de alguém me perguntar: ‘muito bem, mas se amanhã a economia mundial desacelerar e diminuir o preço das commodities, o que é que o governo vai fazer?’. Os governos hoje em dia não controlam preços, e certamente um dos preços não controláveis é a taxa de câmbio. Os volumes financeiros que são hoje negociados no mundo são de tal intensidade que não permitem que se controle completamente as taxas de câmbio a não ser em situações muito particulares de alguns países.
O sr. sempre diz que o Brasil está na rota do desenvolvimento sustentável. O que faz o sr. acreditar nisto?
O Brasil, nas décadas passadas, teve períodos de crescimento a taxas elevadas, mas que sempre traziam concomitantemente o crescimento não só do produto [interno bruto], mas também de desequilíbrios graves e importantes da economia que geravam crises de balanço de pagamentos, fiscais ou inflacionárias. Isso, por sua vez, gerava exceções e, portanto, o Brasil tinha uma trajetória de arrancadas e freadas, stop and go. Isso levava, em conseqüência, a um desempenho medíocre. Hoje, se olharmos para os indicadores básicos da economia, vamos ver uma economia que está, em primeiro lugar, crescendo já a taxas elevadas, 4,1% de crescimento médio em 2004, 2005 e 2006. Todos os leading indicators mostram uma taxa de crescimento que está se acelerando e, ao mesmo tempo, vemos fundamentos da economia sólidos. Nós temos um balanço de pagamentos mostrando uma força extraordinária; o superávit comercial estabilizando-se entre US$45 bilhões e US$47 bilhões, e as exportações continuam a crescer. O BC vem adquirindo reservas, que tem dado uma solidez maior ao nosso balanço de pagamentos, com reservas superiores a US$124 bilhões.
O crescimento do país pode chegar mesmo a 4,4% em 2007?
Está previsto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao mesmo tempo, temos um crescimento impulsionado pela forte demanda interna, que está crescendo ancorada no crescimento do emprego, do salário e do crédito. O Brasil está criando cerca de 1,3 milhão de empregos formais por ano. A massa salarial do Brasil—o total wage bill—está crescendo a mais de 8% real ao ano. O crédito está crescendo a uma taxa superior a 20% ao ano. Tudo isso, pela primeira vez na história do Brasil, com uma inflação firmemente ancorada na meta.
O sr. vê riscos de uma desaceleração nos Estados Unidos com grande impacto na economia mundial?
Os Estados Unidos já desaceleraram e isso tem certamente um impacto na economia mundial. Felizmente, essa desaceleração americana veio concomitante à uma certa aceleração do crescimento da Europa e Japão, e com a continuada força do crescimento da China e da Índia. Evidentemente que todos olhamos com atenção para o risco de uma desaceleração mais abrupta da economia americana.
Alguma previsão de recessão nos Estados Unidos?
O ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, tem falado muito sobre isso. Eu deixo isso por conta dos analistas americanos.
Qual a sua visão atual sobre a economia latino-americana como um todo?
A economia [da região] está num momento favorável, porque a economia mundial começou a crescer de maneira importante e isso elevou o preço e a demanda das matérias primas. Isso veio no momento em que a América Latina já tinha abandonado o regime de câmbio fixo que prevaleceu na década de 90. A situação fiscal hoje está muito melhor em média do que na década de 90. As economias estão mais abertas e a América Latina está num período bastante positivo. O grande desafio pela frente é aproveitar esse período e esse processo benigno da economia internacional visando acelerar o passo das reformas que levem ao aumento da produtividade e da competitividade dos países.
O sr. foi um dos homens de confiança do presidente Lula mais criticados nos primeiros quatro anos de governo. Chegou a hora de relaxar um pouco a chamada ortodoxia monetária?
Acho que não faz sentido algo que está dando certo ser mudado porque está dando certo. Tem é que ser reforçado porque está dando certo. Seria uma lógica um pouco estranha. Fizemos muita coisa errada durante décadas e sofremos muito com isso. Agora, que fizemos as coisas certas e que está dando certo, vamos voltar a fazer a coisa errada? Eu gostaria de questionar a questão da ortodoxia. Eu não reputo a política orientada pelo BC do Brasil e pelo Ministério da Fazenda como ortodoxa na medida em que aquilo que decidimos foi simplesmente um regime de metas de inflação o tempo todo. Isso é hoje o grande consenso na maior parte dos países. São metas explícitas, como o Brasil tem, ou metas implícitas e não declaradas, como muitos outros países têm, mas isso é o mainstream hoje da política monetária na maior parte dos países. Além do mais, a meta brasileira não é das mais baixas do mundo. A meta brasileira é de 4,5% versus 2% dos países industrializados e cerca de 3% como média dos países emergentes. A expectativa de inflação para o ano 2007 do mercado hoje está em cerca de 3,8%, e a expectativa para 2008 está em cerca de 4%. Isso é extremamente positivo e mostra que as expectativas estão ancoradas, mas não é expectativa de inflação zero, deflação ou cifras abaixo da média dos países industrializados. Portanto, o BC do Brasil está simplesmente aplicando uma política monetária de bom senso e bem sucedida.
Qual a sua visão do Brasil no final do governo Lula? O sr. vai entregar o cargo ao seu sucessor em pouco mais de três anos.
Eu vejo o Brasil num momento plenamente favorável. Vejo o Brasil crescendo em taxas elevadas pelos padrões da história brasileira, com distribuição de renda, com aumento da renda média da população brasileira, com os fundamentos econômicos sólidos e, portanto, o Brasil já em plena rota de crescimento sustentado pela primeira vez certamente desde a década de 50. Isso permite à sociedade brasileira planejar um país bem sucedido nos próximos anos.
Para encerrar, gostaria de saber se, entre os seus sonhos, continua a presidência do Brasil?
Eu não tenho ambição maior que a de poder servir ao Brasil em qualquer função, seja como presidente do BC, seja prefeito da minha cidade ou na iniciativa privada.