Notícia
15/05/2017

“Boa comunicação mantém expectativas ancoradas e permite a redução das taxas de juros estruturais”, afirma presidente do BC

Presidente do Banco Central destaca que comunicação clara ajuda a manter expectativas ancoradas e permite reduzir taxas de juros estruturais.

A condução da política monetária, tanto em períodos austeros quanto em momentos de afrouxamento, deve estar associada a uma comunicação simples, direta e concisa sobre o processo de tomada de decisões. A avaliação é do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, que falou sobre o tema no encerramento do XIX Seminário de Metas para a Inflação, realizado no Rio de Janeiro na semana passada. Ilan acredita que a boa comunicação ajuda na manutenção das expectativas ancoradas e permite a redução das taxas de juros estruturais.

Para aumentar a efetividade dos instrumentos de comunicação que utiliza, o BC implementou nos últimos meses uma série de mudanças, tais como alterações no comunicado divulgado após as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), a antecipação da divulgação das notas das reuniões e a reformulação do Relatório de Inflação, que agora está mais conciso e comunica de forma mais clara os cenários com que o Banco Central trabalha. Além disso, as regras que regem o período conhecido como silêncio do Copom, intervalo entre a quarta-feira anterior à reunião do comitê e o dia da divulgação da Nota, foram formalizadas. O BC também passou a dar mais detalhes sobre a agenda pública de seus principais gestores e instituiu regras para a realização de reuniões com o setor privado.

Conforme explicou o presidente do BC, esses aperfeiçoamentos têm como objetivo tornar a comunicação mais transparente e direta. Ele lembrou, no entanto, que é por meio de documentos oficiais que o Copom comunica suas principais mensagens para o mercado e para a sociedade. “O Copom não se comunica através de canais indiretos, como atribuições anônimas por terceiros ou via fontes genéricas”, afirmou. Clique para ler o discurso do presidente do BC.

As ferramentas utilizadas por bancos centrais para dialogar com diferentes agentes econômicos foram destaque na programação do evento. O diretor de Política Econômica, Carlos Vianna de Carvalho, lembrou da responsabilidade que o BC possui de divulgar avaliações e informações relevantes, mas ponderou que não existe um consenso sobre o quanto a autoridade monetária deve comunicar:

“O simples aumento do volume de informações disponibilizadas não é necessariamente capaz de resolver as dúvidas para quem forma preços nos mercados e na economia.” Essa avaliação foi reforçada por Francesco Mongelli, consultor do Banco Central Europeu: “Às vezes, um comunicado curto, breve, pode ser mais eficiente do que um relatório com muitas páginas”, defendeu, ao comentar como as autoridades monetárias do continente reorganizaram seus instrumentos de comunicação após a crise financeira de 2008. 

Regime de metas no período pós-crise
A credibilidade e a eficiência dos regimes de metas para inflação foram duramente questionadas após a crise financeira internacional de 2008, tanto em economias emergentes quanto em economias avançadas. Mas, na avaliação do presidente do BC, o modelo continua sendo muito útil, mesmo após a adoção de políticas monetárias não convencionais em alguns países.

“A experiência recente no Brasil reforça a importância do arcabouço de metas para a inflação na condução da política monetária, com ênfase na transparência da comunicação feita pelo Banco Central”, afirmou Ilan, destacando que o regime de metas implementado no país em 1999 foi fundamental para a ancoragem das expectativas e para o processo de desinflação em curso no país.

“A ancoragem das expectativas é precondição para alcançar uma inflação baixa e estável. Ela precede qualquer processo de flexibilização monetária”, avaliou Ilan. “Uma das características mais relevantes do arcabouço do regime de metas para a inflação é permitir a combinação de elementos que tornam explícitos o comprometimento da autoridade monetária em manter a taxa de inflação na meta determinada pelo governo, com discricionariedade para acomodar choques na inflação. O ingrediente fundamental é que as expectativas de inflação para horizontes mais distantes estejam ancoradas”, afirmou.

Com inflação ancorada na meta, o Banco Central pôde intensificar o processo de flexibilização da política monetária, contribuindo para a recuperação da atividade econômica. A inflação caiu de 10,7% em dezembro de 2015 para 4,1% em abril deste ano e, de acordo com as expectativas apuradas pela pesquisa Focus, deve ficar em torno de 4,0% para 2017, manter-se ao redor de 4,4% para 2018 e, para 2019 e horizontes mais distantes, ficar em torno de 4,25%.

“Para 2017, espera-se que a inflação acumulada em 12 meses permaneça abaixo da meta de 4,5% ao longo do ano, atingindo valor mínimo no terceiro trimestre do ano e elevando-se nos últimos meses para valores ainda abaixo da meta, mas onde parte dessa diferença, em relação à meta, é decorrência do impacto primário do choque favorável nos preços de alimentos”, detalhou o presidente do BC.

A taxa básica de juros (Selic) está em processo de queda e, na última reunião, o cenário básico, os fatores de risco e o amplo conjunto de informações disponíveis levaram o Copom a reduzir a taxa Selic para 11,25% ao ano, com redução de 1 ponto percentual. Conforme explicou o presidente do BC, o comitê considerou o atual ritmo adequado, mas destacou que a conjuntura recomenda monitorar a evolução dos determinantes do grau de antecipação do ciclo: “O grau de antecipação do ciclo desejado depende, por um lado, da evolução da conjuntura econômica e, por outro lado, das incertezas e dos fatores de risco que ainda pairam sobre a economia”, concluiu.