Notícia
03/07/2017

Fortalecimento do mercado de crédito e da supervisão bancária só foi possível com o fim da hiperinflação

Analisa como o controle da hiperinflação possibilitou a modernização do mercado de crédito e a melhoria da supervisão bancária no Brasil.

​Em 1º de julho de 1994, há pouco mais de 23 anos, o Real começava a circular no Brasil e inaugurava uma nova era na economia nacional, marcada especialmente pela estabilidade monetária e econômica. As consequências positivas para o país são conhecidas. Uma delas, no entanto, é pouco explorada: o controle da inflação viabilizou a modernização do mercado financeiro nacional e permitiu o aprimoramento da supervisão bancária exercida pelo Banco Central.

As disfunções causadas pela hiperinflação impediam o estabelecimento das bases de um sistema financeiro sólido e eficiente. Gilneu Vivan, chefe do Departamento de Monitoramento do Sistema Financeiro (Desig), lembra que fiscalizar os balanços das instituições demandava muito esforço e recursos. Ao analisar as movimentações financeiras dos bancos, por exemplo, os números acabavam “misturados” aos movimentos de correção dos valores por conta da inflação. “Isso dificultava identificar comportamentos que deveriam receber atenção da supervisão. Os problemas que a instabilidade da moeda trazia para os balanços consumiam todo o tempo e grande parte dos recursos disponíveis. Perdia-se capacidade de atacar coisas que realmente importavam", conta, ressaltando que comparar balanços de épocas diferentes, então, era ainda mais complicado.

Depois da implementação do Plano Real, com a inflação controlada, foi possível ter acesso a balanços que efetivamente refletiam a realidade, conta Katherine Hennings, consultora no Departamento Econômico (Depec). “Nesse contexto, procedeu-se aos programas de reestruturação de bancos privados e bancos públicos – Proer, Proes e Proef. Em paralelo, gradualmente o sistema financeiro incrementou a realização das atividades que lhe são próprias, como receber depósitos e conceder empréstimos e financiamentos.”

De acordo com Paulo Sérgio de Souza, chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), durante o longo período inflacionário da década de 80 e início da de 90, os cidadãos e as empresas utilizavam os bancos para proteger o valor do seu dinheiro contra os efeitos inflacionários. Com a estabilidade dos preços, surgiu um novo sistema financeiro, com forte crescimento do mercado de crédito, por exemplo, com financiamentos imobiliários e de veículos, crédito consignado e cartões de crédito.

Com a estabilidade monetária, o Acordo de Basileia I – que estabeleceu parâmetros internacionais para a supervisão financeira -, por exemplo, foi finalmente implementado no país e o BC começou a aderir às melhores práticas internacionais. “A supervisão brasileira teve que se reinventar, revolucionar e aperfeiçoar todo o seu processo de trabalho para se alinhar aos padrões internacionais para uma supervisão bancária efetiva”, relembra Paulo Sérgio. “E, com certeza, toda evolução e aprendizado obtidos nesses 23 anos é devida, em grande parte, à estabilidade pós-Plano Real.”

Plano Real
A execução do Plano Real a partir de fevereiro de 1994, aliada à adoção pelo BC de uma série de instrumentos econômicos, e do novo padrão monetário, a partir de julho daquele ano, acabou com uma hiperinflação que, em 1993, havia chegado a bater 2700% ao ano.

Antes de o Real se tornar oficialmente a moeda brasileira, em 1º de julho de 1994, circulou no Brasil a partir de fevereiro de 1994 a Unidade Real de Valor (URV), que funcionava da seguinte maneira: uma URV, que equivaleria a 1 real a partir de julho, valia, no último dia de junho, 2.750 cruzeiros reais (a moeda anterior). Antes disso a, o valor da URV sofria variações diárias.

Outras tentativas de planos, que não alcançaram o êxito do Real, haviam sido feitas em governos anteriores: os planos Cruzado I e Cruzado II, 1986; o Plano Bresser, 1987; o Plano Verão, em 1989; e os planos Collor I, 1990; e Collor II, 1991.