Mensurar os avanços da educação e da inclusão financeira no Brasil é o principal objetivo do Índice de Cidadania Financeira (ICF), lançado pelo Banco Central durante o IV Fórum de Cidadania Financeira, realizado em Brasília. O indicador busca avaliar os níveis de cidadania financeira no país como um todo e nos estados, considerando aspectos como a quantidade de pontos de atendimento financeiro, dados de crédito e de endividamento, valores das taxas de juros cobradas em operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas e até mesmo o percentual da população com acesso à internet. De acordo com o primeiro levantamento feito pelo Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do BC, o Brasil registrou entre 2015 e 2017 ICF de 41,5 – em escala que vai de 0 a 100.
O levantamento mostra ainda que todos os estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste registraram índice acima da média nacional, enquanto os estados das regiões Norte e Nordeste ficaram abaixo. O Distrito Federal foi a unidade da federação com melhor avaliação (ICF de 87,2); seguido por São Paulo (74,5); Rio Grande do Sul (65,0); e Santa Catarina (64,0).

Ronaldo Vieira, chefe adjunto no Departamento de Cidadania Financeira, afirma que, embora existam indícios de que o nível de cidadania financeira tende a acompanhar o desenvolvimento econômico, é importante analisar os resultados de cada estado para conhecer as principais lacunas e delimitar estratégias de atuação.
“O ICF utiliza 13 indicadores agregados em duas dimensões, sendo nove indicadores considerados para o Índice de Inclusão Financeira (IIF) e quatro para o Índice de Educação Financeira (IEF). Isto significa que é possível identificar pontos que podem ser aperfeiçoados. Sabemos, por exemplo, que há espaço para avanços na inclusão financeira nos estados da região Nordeste e principalmente na região Norte, que possui baixa densidade demográfica. Ampliar o acesso a serviços de pagamentos e ao crédito nesse caso pode passar pelo desenvolvimento de tecnologias e soluções mais adequadas para as especificidades da região”, pontua Ronaldo.
Os dados mostram que o IIF é significativamente mais alto do que o IEF para todas as regiões do país. Enquanto a média nacional do IIF é de 48 , o de educação financeira é 35 – em uma escala de 0 a 100, onde 100 é a pontuação máxima. De acordo com Cristina Roriz, chefe da Divisão de Avaliação de Impacto e Inclusão Financeira do Depef e responsável pela equipe que liderou o trabalho do ICF, “esses números refletem os avanços na ampliação do acesso a serviços financeiros, que são medidos pela capilaridade dos pontos de atendimento, pelo relacionamento bancário, em especial, pela população de baixa renda”.
O levantamento mostra ainda a necessidade de fomentar a educação financeira no país, seja por meio da conscientização da população sobre a importância do planejamento, da poupança e do uso responsável do crédito; seja pela melhoria da qualidade e adequação dos produtos e serviços financeiros ofertados.
Indicador em construção
Como o Sistema Financeiro Nacional é dinâmico e está em constante transformação, é esperado que o índice proposto sofra alterações e incorpore novas variáveis com o tempo. O objetivo da proposta é promover o debate e o desenvolvimento de estudos e pesquisas que contribuam progressivamente para o entendimento do contexto de cidadania financeira nas mais diversas nuances.
Segundo Luís Gustavo Mansur (foto abaixo), chefe do Depef, o ICF pode ser entendido como um indicador agregado, capaz de mostrar tendências gerais, bem como permitir comparação entre unidades geográficas. Esse primeiro levantamento já traz informações relevantes, mas é importante ressaltar que se trata de uma proposta inicial, feita com base em indicadores que já existiam e cuja correlação com as dimensões da cidadania financeira pode variar, dependendo do contexto ou ao longo do tempo. “O ICF será aperfeiçoado ao longo dos próximos anos, após debates do BC com as instituições financeiras e com a sociedade em geral”, reforçou.

Luís Mansur, em apresentação durante o IV Fórum de Cidadania Financeira
Sergio Mikio, chefe de subunidade no Departamento de Estudos e Pesquisas do BC e membro da equipe que trabalhou na elaboração do índice, reforça a necessidade de se aprimorar as bases de dados utilizadas na elaboração do ICF. “Os dados apresentam uma perspectiva geral sobre o tema. Para a melhor compreensão do contexto, dos incentivos e condicionantes do comportamento dos cidadãos, é importante avançarmos na melhoria das bases de dados, inclusive pela realização de pesquisas periódicas pelo lado da demanda, que complementem os dados administrativos”.
Os desafios a serem superados na elaboração do índice são diversos, como a dificuldade de disponibilidade de dados e a busca por indicadores que melhor reflitam tendências gerais relacionadas à cidadania financeira.
Saiba mais
O ICF foi divulgado na primeira edição do Relatório de Cidadania Financeira (RCF), publicação trienal que substitui o Relatório de Inclusão Financeira (RIF) e que vai permitir o monitoramento dos avanços da inclusão e da educação financeira no país, assim como avaliar a proteção dos consumidores de serviços financeiros. Além de um panorama da cidadania financeira do período de 2015 a 2017, o RCF traz uma seção de textos relacionados que aprofundam a análise sobre alguns temas.
De acordo com dados do RCF, o Brasil possuía no ano passado 257.570 pontos de atendimento e todos os munícipios tinham pelo menos um ponto de atendimento físico. Apesar da capilaridade da rede de atendimento, 66% das transações financeiras realizadas no país no ano passado foram feitas por canais remotos, tais como internet banking e smartphones.
O RCF mostra ainda que 86,5% dos brasileiros acima dos 15 anos possuem conta bancária e 44% da população adulta possuíam operações de crédito em 2017. Apesar de o nível geral de bancarização ser alto, o percentual de adultos com relacionamento bancário por região varia: a Região Sudeste apresenta o maior percentual – 90,9% – e a Região Norte, o menor, 72,3%. De acordo com informações do Global Findex 2017, 58% dos adultos não bancarizados não possuem conta em instituição financeira porque falta dinheiro, ou porque consideram que o custo é alto.
Além disso, 60% dos adultos não bancarizados têm acesso tanto a celulares quanto a internet, números que sugerem que a implementação de soluções digitais poderia atender ao segmento da população que considera alto o custo de manutenção de uma conta bancária, uma vez que essas soluções tendem a ter custos mais baixo.
