Notícia
24/04/2019

Resistência interna das empresas dificulta adaptação a um mundo digital

Especialista destaca que a resistência interna das empresas dificulta a adaptação às inovações disruptivas e ao mundo digital.

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"As empresas têm um sistema imune que rejeita a inovação disruptiva, resiste a mudanças", disse Salim Ismail

Energia abundante e barata, com a solar tendendo a um custo zero, carros autônomos cada vez mais acessíveis, desmonetização da economia e descentralização de serviços e de transações, possíveis com o uso de bitcoin e do blockchain, são algumas das inovações disruptivas citadas por Salim Ismail como promovedoras de uma transformação digital. Em sua palestra, no 10º Congresso de Fundos de Investimento nesta quarta-feira, 24 de abril, em São Paulo, o estrategista em tecnologia da Singularity University apontou a necessidade de que as empresas adaptem o modelo de negócios a um mundo cada vez mais digital. O ritmo exponencial em que as disrupções ocorrem, difíceis de acompanhar, associado a uma resistência interna das companhias, que ele chama de sistema imune, são hoje as maiores dificuldades pontuadas pelo especialista, que tem no currículo a vice-presidência do Yahoo.

“A maior barreira é que as empresas têm um sistema imune que rejeita a inovação disruptiva, resiste a mudanças, mas, por outro lado, nunca tivemos tanta disrupção surgindo ao mesmo tempo, o que impõe a necessidade de olhar com atenção para estas mudanças”, comentou Ismail. Entre os inúmeros exemplos de inovação em curso, premiado pela Singularity University no ano passado, está um equipamento que extrai água limpa da atmosfera a dois centavos por litro e pode ser instalado em uma vila ou topo de edifício a um custo muito barato. O especialista reconhece que as novidades disruptivas são tantas que fica difícil processar, mas alerta que leva vantagem quem detecta logo no início uma inovação. “As impressoras 3D dos anos 80 eram lentas e ninguém dava bola, mas foram evoluindo, melhorando. Poucos viram como aquele cisne negro iria ficar no futuro”, afirmou.

Para uma plateia de executivos de bancos e assets que gerenciam bilhões da indústria de fundos de investimento, o especialista sugeriu, em tom de brincadeira, que “saiam logo dos ativos de petróleo, tirem das carteiras dos fundos” se referindo a uma tendência de energia abundante e muito barata. Ismail citou como exemplo o forte desenvolvimento da energia solar, que acredita que terá custo zero no futuro. “Se eu falar que as concessionárias de energia vão desaparecer, vão rir de mim, mas é bom pensar.” Na Índia, em um dos exemplos apresentados, um barqueiro desenvolveu um painel solar para movimentar sua embarcação, que leva turistas. “Os modelos de negócios são outros. Ambiente digital exige novos modelos de atuação. A energia será muito abundante e, se os Estados Unidos quiserem um motivo para fazer guerra, terá que ser outro, não o petróleo”, opinou.

Ismail contou também de suas viagens de Miami a Toronto, no Canadá, em um carro elétrico abastecido nas estações ao longo do caminho, sem qualquer custo, e com boa parte do trajeto feito autonomamente. Na primeira viagem, 20% do trajeto foi feito de forma autônoma, depois 35% e, na mais recente e já com todo o trajeto mapeado, chegou a 80%. “É da velocidade de inovação exponencial que estamos falando, pois ela exige adaptação do modelo das empresas”, comentou o especialista, fazendo um paralelo com o casamento. “Esta instituição é muito antiga, casávamos pra vida toda, mas morríamos aos 25, 30 anos. Hoje a vida toda, que vai até os 80 ou 90 anos, é tempo demais para um casamento. Precisamos atualizar esta instituição ao novo padrão de longevidade”, brincou.

O uso de tecnologias como blockchain e de bitcoins foram citadas na palestra. “É fantástico que estas tecnologias possibilitem microtransações entre as pessoas, também com impacto grande nos serviços dos governos, que serão descentralizados.” Ismail sugeriu que as empresas tirem da estrutura central as equipes com foco em inovação disruptiva. A ideia, defendida por ele com base em exemplos de sucesso, como a Apple, é que sejam equipes apartadas da empresa e com total liberdade para criar. “Precisam ficar à margem para buscar a disrupção. No Brasil vocês têm muita gente criativa. Minha sugestão é coloquem essas pessoas em uma estrutura marginal em suas empresas e mandem inovar”, diz, lembrando que quem tentou fazer isto debaixo das grandes estruturas não conseguiu.