Artigo
29/09/2025

Argentina regulamenta a tokenização de valores mobiliários

A Resolução 1081 da CNV regulamenta a tokenização de valores mobiliários no mercado de capitais argentino.

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A Argentina ingressou definitivamente na digitalização do mercado de capitais com a publicação da Resolução Geral nº 1081 da Comisión Nacional de Valores (CNV). O novo regime representa a segunda etapa da regulamentação de tokenização no país, ampliando o leque de valores mobiliários que podem ser representados digitalmente e consolidando a Argentina como referência regulatória regional em finanças digitais.

O que é tokenização e por que importa

Tokenização é o processo de representar ativos reais em registros digitais baseados em tecnologias descentralizadas (DLT ou TRD). No mercado de capitais, isso significa que instrumentos como ações, debêntures e fundos podem ser emitidos e negociados também em formato digital, sem perder sua natureza jurídica ou validade econômica. A grande vantagem é que o token não cria um novo ativo: ele é apenas mais uma forma de representação do mesmo valor mobiliário, conferindo equivalência funcional em relação às formas tradicionais (cartular ou escritural). Isso garante segurança jurídica e permite que emissores e investidores transitem entre os dois mundos — o tradicional e o digital.

Quais ativos podem ser tokenizados na Argentina

A Resolução 1081 estabelece que podem ser representados digitalmente:

  • Ações (inclusive as de duplo listado em mercados internacionais).
  • Obrigações negociáveis (debêntures).
  • CEDEARs (certificados de depósito de ações estrangeiras).
  • Certificados de participação e dívida de fideicomisos financeiros.
  • Quotas de fundos comuns de investimento fechados.

Por outro lado, o regime exclui alguns instrumentos:

  • Títulos sociais, verdes e sustentáveis (SVS/VS).
  • Emissões automáticas de oferta pública, exceto para emissores frequentes.
  • Dívida pública estrangeira, salvo soberanos do MERCOSUL e do Chile.

Estrutura operacional: o papel central dos PSAVs

Um dos grandes diferenciais da norma argentina é o protagonismo dos Proveedores de Servicios de Activos Virtuales (PSAVs). Eles passam a ser novos depositantes autorizados perante o Agente Depositário Central de Valores Negociables (ADCVN). Devem estar registrados em todas as categorias da CNV.

São responsáveis por:

Além disso, Agentes de Liquidação e Compensação (ALyC) podem atuar como titulares registrales, reforçando a integração com o mercado tradicional.

Direitos dos investidores e proteção regulatória

A norma garante aos investidores:

  • Reversibilidade: qualquer token pode ser convertido de volta em sua forma tradicional (e vice-versa), mediante processos de bloqueio ou “queima” digital.
  • Direito de voto seguro e rastreável: instruções de assembleias são colhidas pelos PSAVs e transmitidas de forma transparente ao titular registral.
  • Certificados de tenência: emitidos pelo ADCVN, asseguram a comprovação da propriedade do ativo tokenizado.
  • Proteção em insolvência: a CNV vincula expressamente o regime ao art. 138 da Lei de Falências (24.522), garantindo que os ativos sejam reconhecidos como bens de terceiros em caso de quebra do PSAV.

Esse último ponto é inovador e diferencia o modelo argentino ao criar uma blindagem jurídica robusta contra riscos de insolvência de intermediários.

Sandbox regulatório até 2026

A implementação ocorrerá em um ambiente controlado (sandbox regulatório) até 21 de agosto de 2026. Diferente de outros países, a Argentina adota um sandbox temporal e não seletivo:

  • Não depende da aprovação individual de cada projeto.
  • Aplica-se a todo o regime durante o período experimental.

Após o prazo, a CNV poderá prorrogar, ajustar ou encerrar a norma.

Diferenciais do modelo argentino

Comparado a regimes internacionais (como o sandbox CVM 29/2021 no Brasil ou o DLT Pilot Regime europeu), a Resolução 1081 apresenta traços singulares:

  • Escopo focado no mercado de capitais: apenas ativos regulados pela CNV podem ser tokenizados, o que dá clareza e reduz ambiguidades.
  • PSAVs como gatekeepers obrigatórios: centralização da intermediação em entidades registradas e fiscalizadas.
  • Equivalência funcional explícita: elimina dúvidas sobre natureza do token, exigindo ticker com final “RD”.
  • Segregação patrimonial reforçada: ativos de clientes não integram patrimônio dos intermediários, blindagem reforçada pela lei falimentar.
  • Arbitragem contínua entre digital e tradicional: tokens podem ser convertidos em papel e reconvertidos em digital, sem duplicidade de títulos.
  • Sandbox temporal e abrangente: inovação regulatória por tempo definido, e não por caso, acelerando a adoção.
  • Restrições estratégicas: exclusão de títulos verdes/sustentáveis e de dívida pública estrangeira fora do Mercosul/Chile, reforçando uma agenda regulatória própria e regionalista.

Conclusão

A Resolução Geral 1081 da CNV representa um marco histórico na evolução do mercado de capitais argentino. Ao mesmo tempo em que se alinha às tendências globais de digitalização, o regime cria uma arquitetura própria, com diferenciais importantes: PSAVs como gatekeepers, equivalência funcional expressa, segregação patrimonial rígida e sandbox temporal abrangente. Essas escolhas tornam a Argentina um dos primeiros países da região a adotar um modelo regulatório robusto e detalhado para a tokenização, combinando inovação, proteção ao investidor e integração com o mercado tradicional.

O desafio agora será converter o marco normativo em prática de mercado, atraindo fintechs, investidores e intermediários para consolidar a Argentina como hub de finanças digitais na América Latina.

A Resolução Geral 1081 da CNV pode ser consultada em: https://lnkd.in/d_qZEkEK

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é a Resolução Geral nº 1081 da Comisión Nacional de Valores (CNV) da Argentina?
A Resolução Geral nº 1081 da Comisión Nacional de Valores (CNV) é a norma que estabeleceu o regime de digitalização do mercado de capitais na Argentina. Ela representa a segunda etapa da regulamentação de tokenização no país, ampliando o leque de valores mobiliários que podem ser emitidos e negociados em formato digital.Essa regulamentação consolida a Argentina como uma referência regional em finanças digitais. Para mais detalhes, é possível consultar o texto da Resolução Geral 1081 da CNV online.
O que é tokenização no contexto do mercado de capitais?
Tokenização é o processo de criar uma representação digital de ativos reais em registros baseados em tecnologias descentralizadas (conhecidas como DLT ou TRD). No mercado de capitais, isso permite que instrumentos financeiros como ações, debêntures e fundos sejam emitidos e negociados em um formato digital, chamado de token.
Um token é considerado um novo tipo de ativo financeiro?
Não. O token não cria um novo ativo, mas sim funciona como mais uma forma de representação de um valor mobiliário já existente, assim como os formatos tradicionais (cartular ou escritural). Essa característica, conhecida como equivalência funcional, garante segurança jurídica, pois o token possui a mesma natureza e validade econômica do ativo que ele representa.Isso permite que emissores e investidores transitem entre o mercado tradicional e o digital de forma segura.
Quais ativos podem ser tokenizados na Argentina sob a Resolução 1081?
A Resolução 1081 da CNV autoriza a representação digital dos seguintes valores mobiliários:
  • Ações, incluindo as de duplo listado em mercados internacionais;
  • Obrigações negociáveis (equivalentes às debêntures);
  • CEDEARs (certificados de depósito de ações estrangeiras);
  • Certificados de participação e dívida de fideicomisos financeiros;
  • Quotas de fundos comuns de investimento fechados.
Existem ativos financeiros que foram excluídos do regime de tokenização na Argentina?
Sim, a Resolução 1081 da CNV exclui alguns instrumentos específicos da possibilidade de serem tokenizados. São eles:
  • Títulos sociais, verdes e sustentáveis (SVS/VS);
  • Emissões automáticas de oferta pública, com exceção para emissores frequentes;
  • Dívida pública estrangeira, salvo a de soberanos do MERCOSUL e do Chile.
Qual é a função dos Provedores de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs) na Argentina?
Os Proveedores de Servicios de Activos Virtuales (PSAVs) têm um papel central e de protagonismo no regime de tokenização argentino. Eles atuam como novos depositantes autorizados perante o Agente Depositário Central de Valores Negociables (ADCVN).Para operar, um PSAV precisa estar registrado em todas as categorias da CNV. O conteúdo original indica que eles possuem responsabilidades específicas, como a coleta de instruções para assembleias, mas não detalha a lista completa de suas funções.
Como a regulamentação argentina sobre tokenização protege os investidores?
A norma estabelece diversas garantias para a proteção dos investidores, incluindo:
  • Reversibilidade: O investidor tem o direito de converter um token de volta à sua forma tradicional (escritural ou cartular) e vice-versa, por meio de processos de bloqueio ou “queima” digital.
  • Direito de voto: O processo de votação em assembleias é seguro e rastreável, com as instruções sendo coletadas pelos PSAVs e transmitidas de forma transparente.
  • Comprovação de propriedade: O ADCVN emite certificados de tenência que asseguram a comprovação da propriedade do ativo tokenizado.
  • Proteção em caso de insolvência: A regulamentação vincula o regime ao artigo 138 da Lei de Falências argentina (Lei nº 24.522), garantindo que os ativos dos clientes sejam considerados bens de terceiros e não se misturem com o patrimônio do PSAV em caso de quebra.
Como funciona o sandbox regulatório para tokenização na Argentina?
A implementação da tokenização na Argentina ocorre em um ambiente controlado, conhecido como sandbox regulatório, que tem previsão de duração até 21 de agosto de 2026.Diferentemente de outros modelos, o sandbox argentino é temporal e não seletivo. Isso significa que ele se aplica a todo o regime durante o período determinado, sem a necessidade de aprovação individual para cada projeto. Ao final do prazo, a CNV poderá prorrogar, ajustar ou encerrar a norma.
Quais são os principais diferenciais do modelo de tokenização argentino?
O modelo regulatório argentino, estabelecido pela Resolução 1081, apresenta características singulares quando comparado a outros regimes internacionais. Seus principais diferenciais são:
  • Foco no mercado de capitais: Apenas ativos já regulados pela CNV podem ser tokenizados, o que evita ambiguidades.
  • PSAVs como intermediários obrigatórios: A intermediação é centralizada em entidades registradas e fiscalizadas, que atuam como gatekeepers.
  • Equivalência funcional explícita: A norma deixa claro que o token é uma representação do ativo tradicional, exigindo o uso do sufixo “RD” no ticker do ativo.
  • Segregação patrimonial reforçada: Os ativos dos clientes são legalmente separados do patrimônio dos intermediários, com proteção adicional da lei de falências.
  • Arbitragem entre digital e tradicional: É permitida a conversão contínua entre o formato de token e o formato tradicional, sem risco de duplicidade.
  • Sandbox abrangente: O ambiente regulatório experimental é aplicado a todo o sistema por um tempo definido, acelerando a adoção da tecnologia.

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Thiago do Amaral Santos

Sócio BTLaw | Professor FGV e Insper | Fintech, Meios de Pagamento, Bancos Digitais