Artigo
09/07/2025

Brasil e a Soberania Digital no BRICS 2025: Caminhos para a Proteção de Dados e Autonomia Tecnológica

Analisa estratégias brasileiras para proteção de dados e autonomia tecnológica durante a presidência do BRICS.

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A 17ª Cúpula dos BRICS, realizada no Rio de Janeiro em julho de 2025, marcou um momento decisivo para o debate global sobre soberania digital e governança da inteligência artificial (IA). Sob a presidência brasileira, o bloco — agora com 11 membros permanentes — aprovou uma declaração histórica que defende o uso ético da IA, a proteção de dados e o desenvolvimento de tecnologias abertas e auditáveis. O Brasil, ao liderar essa agenda, tem a oportunidade de transformar princípios diplomáticos em políticas públicas concretas que fortaleçam sua autonomia digital e protejam os direitos dos cidadãos.

Sem profissionais qualificados, não há soberania digital. O Brasil precisa formar talentos em IA, cibersegurança e ciência de dados para liderar a transformação digital.

1. Fortalecer a infraestrutura nacional de dados

Sem controle sobre a infraestrutura onde os dados são armazenados e processados, não há soberania digital. O Brasil precisa garantir que seus dados estratégicos estejam protegidos por sistemas nacionais, auditáveis e seguros.

Alguns exemplos concretos são:

  • O Serpro forneceu toda a infraestrutura digital da Cúpula dos BRICS, incluindo o sistema de credenciamento de mais de 700 delegados e 6 mil prestadores, com dados armazenados em servidores próprios.

  • O portal oficial do BRICS (https://brics.br) foi desenvolvido com tecnologia nacional, hospedado na nuvem do Serpro e segue os padrões de segurança do governo federal.

  • Expandir essa infraestrutura para serviços públicos, educação e saúde é essencial para reduzir a dependência de big techs estrangeiras.

A infraestrutura digital soberana é a base para qualquer política de proteção de dados. O Brasil já tem capacidade técnica — agora precisa escalar e institucionalizar essa estrutura em todo o setor público.

2. Aprovar e implementar o Marco Legal da IA

A inteligência artificial já influencia decisões em áreas críticas como saúde, justiça e segurança. Sem uma legislação clara, o risco de abusos e discriminação algorítmica é alto.

Alguns exemplos concretos são:

  • O projeto de lei da IA foi aprovado no Senado em 2024 e está em análise na Câmara dos Deputados.

  • A proposta inclui princípios como transparência, responsabilidade e proteção de dados.

  • É essencial exigir auditorias independentes em sistemas de IA usados pelo governo e proibir o uso de IA para vigilância em massa sem autorização judicial.

O Marco Legal da IA deve garantir que a tecnologia sirva ao interesse público, com regras claras para proteger os direitos dos cidadãos e promover inovação responsável.

3. Liderar um marco comum de governança de dados no BRICS

Com legislações diferentes entre os países do BRICS, é necessário criar um marco comum que permita o fluxo seguro de dados e evite lacunas regulatórias.

A soberania digital exige infraestrutura, legislação, cooperação e educação

Alguns exemplos concretos são:

  • Os ministros do Comércio do BRICS aprovaram um “Entendimento sobre Governança da Economia de Dados”, que prevê interoperabilidade, proteção ao consumidor e reconhecimento mútuo de padrões.

  • O Brasil pode propor um “selo BRICS de conformidade digital” para garantir segurança e transparência nos fluxos de dados entre os países.

Um marco comum fortalece a confiança entre os países do bloco e cria um ambiente digital mais seguro, justo e competitivo.

4. Promover cooperação Sul-Sul em tecnologia

A dependência de tecnologias do Norte Global limita a autonomia dos países em desenvolvimento. A cooperação entre nações do Sul pode gerar soluções mais adaptadas às realidades locais.

Alguns exemplos concretos são:

  • Criar laboratórios conjuntos de IA entre universidades do BRICS.

  • Estabelecer fundos multilaterais para pesquisa e desenvolvimento em IA.

  • Incentivar intercâmbio de cientistas e startups colaborativas.

A cooperação Sul-Sul é uma via estratégica para democratizar o acesso à tecnologia e construir um ecossistema digital mais justo e resiliente.

5. Investir em capacitação e inovação nacional

Sem profissionais qualificados, não há soberania digital. O Brasil precisa formar talentos em IA, cibersegurança e ciência de dados para liderar a transformação digital.

Alguns exemplos concretos são:

  • Incluir educação digital e ética em IA no currículo escolar.

  • Criar programas de pós-graduação em soberania digital.

  • Apoiar centros de pesquisa em tecnologias abertas e auditáveis.

Investir em educação e inovação é garantir que o Brasil seja protagonista, e não apenas consumidor, da revolução digital.

6. Criar uma big tech pública do Sul Global

As grandes plataformas digitais concentram poder econômico e político. Uma alternativa pública e colaborativa pode oferecer serviços digitais com foco em interesse público, transparência e proteção de dados.

Alguns exemplos concretos são:

  • Desenvolver uma plataforma de comunicação segura para governos e cidadãos.

  • Criar uma rede social pública com moderação ética e sem exploração de dados.

  • Utilizar software livre e código aberto para garantir auditabilidade.

Uma big tech pública não é utopia — é uma resposta concreta ao monopólio das plataformas privadas. O Brasil pode liderar esse projeto como símbolo de um novo modelo digital centrado nas pessoas.

A dependência de tecnologias do Norte Global limita a autonomia dos países em desenvolvimento. A cooperação entre nações do Sul pode gerar soluções mais adaptadas às realidades locais.

A presidência brasileira do BRICS em 2025 é uma oportunidade única para moldar o futuro digital do país e do Sul Global. A soberania digital exige infraestrutura, legislação, cooperação e educação. O Brasil já deu os primeiros passos — agora é hora de consolidar políticas públicas que garantam proteção de dados, inovação ética e autonomia tecnológica. O momento é agora.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é soberania digital?
A soberania digital é o conceito de ter controle sobre a infraestrutura onde os dados de uma nação são armazenados e processados. Ela é fundamental para garantir que dados estratégicos sejam protegidos por sistemas nacionais, auditáveis e seguros, reduzindo a dependência de grandes empresas de tecnologia estrangeiras (big techs).Para ser alcançada, a soberania digital se apoia em quatro pilares principais: infraestrutura robusta, legislação adequada, cooperação internacional e educação para capacitar profissionais qualificados.
Qual foi a principal deliberação sobre tecnologia na 17ª Cúpula dos BRICS em 2025?
Na 17ª Cúpula dos BRICS, realizada no Rio de Janeiro em julho de 2025, o bloco de países, então com 11 membros, aprovou uma declaração que defende o uso ético da inteligência artificial (IA), a proteção de dados e o desenvolvimento de tecnologias que sejam abertas e passíveis de auditoria.
Qual a importância de uma infraestrutura nacional de dados?
Uma infraestrutura nacional de dados é a base para qualquer política de proteção de dados e para alcançar a soberania digital. Ela permite que um país controle o armazenamento e o processamento de suas informações estratégicas em sistemas próprios, seguros e auditáveis.Um exemplo de sua aplicação foi a infraestrutura digital utilizada na Cúpula dos BRICS de 2025, fornecida pelo Serpro, que incluiu o sistema de credenciamento de delegados e prestadores, além do portal oficial do evento, com dados hospedados em servidores nacionais. A expansão dessa capacidade para outros serviços públicos é vista como essencial para reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.
Qual o status e os objetivos do Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil?
Um projeto de lei para criar o Marco Legal da Inteligência Artificial foi aprovado no Senado em 2024 e, em meados de 2025, estava em análise na Câmara dos Deputados. O principal objetivo da legislação é garantir que a IA seja utilizada para o interesse público, estabelecendo regras claras para proteger os direitos dos cidadãos e promover a inovação responsável.A proposta inclui princípios como transparência e responsabilidade, além da exigência de auditorias independentes em sistemas de IA usados pelo governo e a proibição do uso da tecnologia para vigilância em massa sem autorização judicial.
O que o bloco BRICS tem feito para criar um marco comum de governança de dados?
Para lidar com as diferentes legislações de seus países-membros, os ministros do Comércio do BRICS aprovaram um “Entendimento sobre Governança da Economia de Dados”. Esse acordo busca promover a interoperabilidade entre os sistemas, a proteção ao consumidor e o reconhecimento mútuo de padrões técnicos.O objetivo é criar um ambiente digital mais seguro e competitivo, permitindo o fluxo seguro de informações e evitando lacunas regulatórias. Uma das propostas para avançar nesse sentido é a criação de um “selo BRICS de conformidade digital” para garantir segurança e transparência nos fluxos de dados entre os países.
Por que a cooperação Sul-Sul em tecnologia é considerada estratégica?
A cooperação tecnológica entre os países do Sul Global é considerada uma via estratégica para reduzir a dependência de tecnologias desenvolvidas no Norte Global. Essa colaboração permite a criação de soluções mais adaptadas às realidades locais, ajuda a democratizar o acesso à tecnologia e contribui para a construção de um ecossistema digital mais justo e resiliente.Algumas ações concretas para promover essa cooperação incluem a criação de laboratórios conjuntos de pesquisa em IA, o estabelecimento de fundos multilaterais para pesquisa e desenvolvimento, e o incentivo ao intercâmbio de cientistas e startups colaborativas.
Qual a relação entre a capacitação de profissionais e a soberania digital?
A capacitação de profissionais é um pilar essencial para a soberania digital, pois sem talentos qualificados um país não consegue liderar sua própria transformação digital. É fundamental formar especialistas em áreas como inteligência artificial (IA), cibersegurança e ciência de dados.Para isso, são sugeridas ações como a inclusão de educação digital e ética em IA nos currículos escolares, a criação de programas de pós-graduação em soberania digital e o apoio a centros de pesquisa focados em tecnologias abertas e auditáveis.
O que seria uma "big tech pública do Sul Global"?
Uma “big tech pública do Sul Global” seria uma alternativa às grandes plataformas digitais privadas, que atualmente concentram grande poder econômico e político. A proposta é criar uma empresa pública e colaborativa, focada em oferecer serviços digitais que priorizem o interesse público, a transparência e a proteção de dados dos cidadãos.Exemplos de projetos que essa entidade poderia desenvolver incluem uma plataforma de comunicação segura para governos, uma rede social pública com moderação ética de conteúdo e sem exploração comercial de dados, e o uso de software livre e de código aberto para garantir que seus sistemas possam ser auditados.

Autor

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Oerton Fernandes, MsC

Professor MIT | Especialista em Segurança da Informação | Perito Forense Digital | Investigador em Cibersegurança | Auditor Líder | Ethical Hacker | DPO | CPO | DPE | Teólogo