Artigo
05/07/2025

Inteligência Artificial no Brasil: Entre a Estratégia de Fomento e o Marco Regulatório

Analisa o impacto do PBIA e do PL 2338/23 na governança e regulação da inteligência artificial no Brasil.

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O avanço da inteligência artificial (IA) representa uma das transformações tecnológicas mais profundas do século XXI. No Brasil, esse movimento é impulsionado por duas iniciativas centrais: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que visa fomentar o desenvolvimento e a aplicação da IA em setores estratégicos, e o Projeto de Lei 2338/2023, que propõe um marco regulatório para o uso ético e responsável dessa tecnologia. Embora ambos compartilhem o objetivo de posicionar o país como protagonista na era digital, há tensões evidentes entre a ambição estratégica do PBIA e as exigências regulatórias do PL 2338/23. Este artigo analisa essa relação, seus impactos e caminhos possíveis para uma governança equilibrada da IA no Brasil.

A governança da IA no Brasil exige um equilíbrio delicado entre inovação, proteção de direitos e soberania tecnológica.

O PBIA: Estratégia Nacional de Fomento à IA

O PBIA é o principal instrumento de planejamento estratégico do governo federal para o desenvolvimento da IA no Brasil. Lançado oficialmente em 2021 e atualizado em 2025, o plano estabelece diretrizes para o uso ético, sustentável e soberano da IA em áreas como saúde, educação, agricultura e segurança pública.

  • Investimento previsto: R$ 23 bilhões até 2028, oriundos de fontes públicas e privadas.

  • Eixos estratégicos: infraestrutura computacional, formação de talentos, pesquisa aplicada, inovação regulatória e soberania tecnológica.

  • Exemplo prático: o projeto SoberanIA, desenvolvido no Piauí, é uma IA treinada com dados 100% nacionais e alinhada ao PBIA.

O PBIA representa uma tentativa robusta de inserir o Brasil na vanguarda da IA global, com foco em inclusão digital, autonomia tecnológica e desenvolvimento sustentável. No entanto, sua implementação depende de um ambiente regulatório que não iniba a inovação.

O PL 2338/2023: O Marco Legal da Inteligência Artificial

O PL 2338/23, aprovado no Senado e em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe um marco regulatório abrangente para o uso da IA no Brasil. Inspirado no AI Act da União Europeia, o projeto busca garantir a centralidade da pessoa humana, a proteção de direitos fundamentais e a segurança jurídica.

  • Classificação de risco: sistemas de IA são divididos em risco excessivo, alto, médio e baixo.

  • Obrigações: desenvolvedores e usuários devem cumprir requisitos de transparência, explicabilidade, rastreabilidade e responsabilidade civil.

  • Direitos autorais: o PL exige que empresas informem quais obras protegidas foram usadas no treinamento de IA e permite que autores vetem esse uso.

O PL 2338/23 é um avanço importante na tentativa de regular a IA de forma ética e responsável. No entanto, sua abordagem baseada em risco e suas exigências extensas podem representar um desafio para a inovação, especialmente no setor público.

Conflitos entre PBIA e PL 2338/23

Apesar de complementares em teoria, o PBIA e o PL 2338/23 apresentam contradições práticas que podem comprometer a eficácia da política nacional de IA. Um relatório do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) aponta que mais da metade das ações do PBIA seriam classificadas como de alto risco pelo PL.

  • 68 obrigações regulatórias: ações como o “Prontuário Falado no SUS” e tutores de matemática com IA enfrentariam até 68 exigências legais.

  • Desigualdade regulatória: 89% das ações do PBIA são voltadas ao setor público, que enfrenta até 14 obrigações adicionais em relação ao setor privado.

  • IA generativa: 30% das ações do PBIA usam IA generativa, que por si só já acarreta 9 obrigações extras.

A falta de alinhamento entre o PBIA e o PL 2338/23 revela uma tensão estrutural onde, de um lado, o PBIA aponta para um fomento e regulação, e de outro, o PL 2338/23 busca garantir que esse futuro seja construído com responsabilidade, ética e respeito aos direitos fundamentais.

Desafios e Caminhos para a Governança da IA

A governança da IA no Brasil exige um equilíbrio delicado entre inovação, proteção de direitos e soberania tecnológica. O atual cenário revela lacunas institucionais e desafios estruturais que precisam ser enfrentados com urgência.

  • Infraestrutura computacional: o Brasil ainda depende de data centers e chips estrangeiros, o que compromete sua soberania computacional.

  • Educação e capacitação: mais de 120 mil alunos no Piauí já estudam IA, mas o país ainda carece de formação técnica em larga escala.

O ITS Rio apresentou propostas, com o objetivo de melhor controlar e direcionar:

  • Criar exceções regulatórias para projetos públicos de interesse social.

  • Estabelecer sandboxes regulatórios para testar soluções com menor burocracia.

  • Promover interoperabilidade entre políticas públicas e normas legais.

A construção de uma governança eficaz da IA no Brasil passa pela articulação entre estratégia e regulação. É preciso garantir que o marco legal não inviabilize as metas do PBIA, mas sim as fortaleça com segurança jurídica e flexibilidade adaptativa.

O Brasil está diante de uma encruzilhada estratégica. De um lado, o PBIA aponta para um futuro de inovação, inclusão e soberania digital. De outro, o PL 2338/23 busca garantir que esse futuro seja construído com responsabilidade, ética e respeito aos direitos fundamentais. O desafio é alinhar essas duas visões em um modelo de governança que não sacrifique o desenvolvimento em nome da precaução, nem ignore os riscos em nome da inovação.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA)?
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) é o principal instrumento de planejamento estratégico do governo federal para o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) no Brasil. Lançado em 2021 e atualizado em 2025, o plano define diretrizes para o uso ético, sustentável e soberano da IA em setores estratégicos como saúde, educação, agricultura e segurança pública.O PBIA prevê um investimento de R$ 23 bilhões até 2028, com recursos de fontes públicas e privadas, e visa inserir o Brasil na vanguarda da IA global, com foco em inclusão digital, autonomia tecnológica e desenvolvimento sustentável.
Quais são os eixos estratégicos do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA)?
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) é estruturado em cinco eixos estratégicos principais para orientar o desenvolvimento da IA no país. São eles:1. Infraestrutura computacional: Foco em desenvolver a capacidade de processamento e armazenamento de dados necessária para a IA.2. Formação de talentos: Capacitação de profissionais qualificados para atuar no campo da IA.3. Pesquisa aplicada: Incentivo à pesquisa científica e ao desenvolvimento de soluções inovadoras.4. Inovação regulatória: Criação de um ambiente de normas que estimule a inovação de forma segura.5. Soberania tecnológica: Busca pela autonomia do Brasil no desenvolvimento e uso de tecnologias de IA.
O que é o Projeto de Lei 2338/2023?
O Projeto de Lei 2338/2023, também conhecido como o Marco Legal da Inteligência Artificial, é uma proposta legislativa que busca criar um regulamento abrangente para o uso da IA no Brasil. Inspirado no AI Act da União Europeia, o projeto foi aprovado no Senado e está em tramitação na Câmara dos Deputados.Seus principais objetivos são garantir a centralidade da pessoa humana, proteger direitos fundamentais e oferecer segurança jurídica para o desenvolvimento e aplicação de sistemas de IA no país.
Como o Projeto de Lei 2338/2023 classifica os sistemas de Inteligência Artificial?
O Projeto de Lei 2338/2023 adota uma abordagem baseada em risco para regular a Inteligência Artificial. Os sistemas de IA são classificados em quatro categorias, de acordo com o seu potencial de impacto:1. Risco excessivo: Sistemas cujo uso é considerado inaceitável e, portanto, deveriam ser proibidos.2. Alto risco: Sistemas que podem impactar significativamente a segurança ou os direitos fundamentais das pessoas, sujeitos a obrigações rigorosas.3. Médio risco: Sistemas com menor potencial de dano, sujeitos a requisitos de transparência.4. Baixo risco: Sistemas com impacto mínimo, com poucas ou nenhuma obrigação regulatória.
Quais são as principais obrigações propostas pelo PL 2338/2023 para desenvolvedores e usuários de IA?
O Projeto de Lei 2338/2023 estabelece diversas obrigações para desenvolvedores e usuários de sistemas de Inteligência Artificial, visando garantir um uso ético e responsável. As principais exigências incluem:
  • Transparência: Informar claramente quando uma pessoa está interagindo com um sistema de IA.
  • Explicabilidade: Ser capaz de explicar como o sistema de IA chegou a uma determinada decisão ou resultado.
  • Rastreabilidade: Manter registros que permitam verificar o funcionamento e os dados utilizados pelo sistema.
  • Responsabilidade civil: Definir quem é responsável por danos causados por sistemas de IA.
Adicionalmente, o PL exige que empresas informem quais obras protegidas por direitos autorais foram usadas no treinamento de suas IAs, permitindo que os autores possam vetar esse uso.
Quais são os principais pontos de conflito entre o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e o Projeto de Lei 2338/2023?
Embora o PBIA e o PL 2338/2023 tenham o objetivo comum de promover o avanço da IA no Brasil, existem contradições práticas entre eles. Um relatório do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) aponta que o rigor regulatório do PL pode inviabilizar as metas estratégicas do PBIA.Os principais conflitos são:
  • Classificação de risco: Mais da metade das ações previstas no PBIA seriam classificadas como de alto risco pelo PL 2338/23, submetendo projetos estratégicos, como o “Prontuário Falado no SUS”, a um conjunto de até 68 obrigações legais.
  • Desigualdade regulatória: O setor público, foco de 89% das ações do PBIA, enfrentaria até 14 obrigações adicionais em comparação com o setor privado, criando um desequilíbrio.
  • IA generativa: Cerca de 30% das ações do PBIA utilizam IA generativa, tecnologia que, por si só, já acarreta 9 obrigações extras segundo o projeto de lei.
Essa falta de alinhamento gera uma tensão entre o fomento à inovação, defendido pelo PBIA, e a abordagem de precaução e controle do PL 2338/23.
Quais desafios estruturais o Brasil enfrenta para a governança da Inteligência Artificial?
O Brasil enfrenta desafios estruturais e institucionais significativos para uma governança eficaz da Inteligência Artificial. Os principais são:
  • Dependência de infraestrutura: O país ainda depende de data centers e chips de origem estrangeira, o que compromete sua soberania computacional e aumenta a vulnerabilidade a fatores externos.
  • Carência de formação em larga escala: Embora existam iniciativas pontuais de sucesso, como a que envolve mais de 120 mil alunos no Piauí, o Brasil ainda carece de programas de educação e capacitação técnica em larga escala para formar os profissionais necessários para o setor de IA.
Que soluções são propostas para equilibrar a inovação e a regulação da IA no Brasil?
Para harmonizar o fomento à inovação com a necessidade de uma regulação responsável da Inteligência Artificial, o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) apresentou algumas propostas. O objetivo é garantir que o marco legal fortaleça as metas estratégicas do país com segurança jurídica e flexibilidade.As principais sugestões são:
  • Criar exceções regulatórias para projetos públicos que tenham comprovado interesse social, reduzindo a carga burocrática sobre eles.
  • Estabelecer sandboxes regulatórios, que são ambientes de teste controlados onde novas tecnologias de IA podem ser desenvolvidas e avaliadas com menor burocracia antes de serem lançadas em larga escala.
  • Promover a interoperabilidade entre políticas públicas, como o PBIA, e as normas legais, como o PL 2338/23, para garantir que ambas caminhem de forma alinhada.
O que é o projeto SoberanIA?
O projeto SoberanIA é uma iniciativa de Inteligência Artificial desenvolvida no estado do Piauí. Este projeto é um exemplo prático das diretrizes do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), pois se destaca por ser uma IA treinada com um conjunto de dados 100% nacional, o que contribui para o objetivo de soberania tecnológica do Brasil.

Autor

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Oerton Fernandes, MsC

Professor MIT | Especialista em Segurança da Informação | Perito Forense Digital | Investigador em Cibersegurança | Auditor Líder | Ethical Hacker | DPO | CPO | DPE | Teólogo