Você já viu circulando a frase de que o Brasil caiu do 5º para o 32º lugar num ranking global de crescimento econômico em 2025? Eu procurei — não achei fonte confiável que confirme rigorosamente essa transição 5 → 32. Mas achei dados que apontam para quedas ou perda de posições em rankings econômicos diversos. Por exemplo:
Um relatório da Austin Rating colocou o Brasil em 28º lugar num ranking de crescimento com 51 países, após registrar PIB de 0,1% num determinado trimestre. CNN Brasil
Outro dado: Brasil foi 5º no ranking de crescimento de economias (61 países) no primeiro trimestre de 2025, segundo a mesma Austin Rating. O Globo
Ou seja: há inconsistência nas estatísticas exatas, mas há evidências claras de que nossa posição relativa está se deteriorando. Essa mensagem, mesmo que não corresponda exatamente a uma única estatística oficial, serviu como metáfora poderosa da decadência econômica brasileira. O desempenho do Brasil tem sido alvo de críticas e comparações desfavoráveis. Enquanto outros países mostram trajetórias consistentes de crescimento, o Brasil patina em dilemas antigos.
O que é isso que estamos vendo? É o sintoma de decisões que parecem dar certo no curto prazo, mas que cobram um alto custo no médio e longo prazo.
Vou explicar os conceitos centrais:
Ranking de crescimento econômico: compara taxa de crescimento do PIB (produto interno bruto) entre países.
Populismo econômico: prática política de usar medidas de estímulo (gasto público, subsídios, crédito barato) visando agradar população ou garantir votos, muitas vezes desconsiderando sustentabilidade fiscal ou institucional.
Instituições: conjunto de regras, organizações, normas que garantem previsibilidade, responsabilidade, contratos cumpridos, segurança jurídica.
Causas dessa queda relativa
Aqui vão algumas causas principais:
Estímulos de curto prazo focados no consumo, sem investimento proporcional em produtividade.
Gasto público elevado: ajuda imediata, aquece demanda. Mas, sem produtividade, inflação pode subir, dívidas se acumulam.
Déficits públicos persistentes. Governo gasta mais do que arrecada. Juros do serviço da dívida consomem parte crescente do orçamento. Menos espaço para investir em infraestrutura, educação, inovação.
Baixa produtividade. Educação de qualidade desigual. Tecnologia pouco incorporada no setor produtivo. Gastos de importação, pouca inovação doméstica.
Instabilidade institucional e incerteza política. Mudanças frequentes de regras (tributárias, fiscais). Insegurança jurídica. Percepção de risco elevada para investidores.
Dependência de commodities e ciclos externos. Quando os preços das commodities caem, PIB sofre. Pouca diversificação da economia.
Efeitos observáveis
Os efeitos dessas causas aparecem de várias formas:
Crescimento econômico mais baixo em comparação com pares emergentes ou países asiáticos.
Custo do crédito caro. Investimento estrangeiro entrando menos, ou exigindo retorno maior.
Moeda fraca frente ao dólar, real desvalorizado.
Dificuldade em financiar projetos de longo prazo: infraestrutura, ciência, tecnologia.
Vantagens e desvantagens das escolhas feitas
Vantagens
Políticas de estímulo (crédito, gasto público) podem gerar alívio em tempos de crise.
Consumo elevado pode manter certas cadeias produtivas funcionando.
Apoio social pode evitar colapsos sociais e políticos — especialmente em períodos de recessão ou desemprego.
Desvantagens
Sustentabilidade fiscal sacrificada. Déficits crescentes e dívida pública onerosa.
Inflação elevada corrói renda real, afeta população pobre.
Pouca capacidade de competir globalmente em tecnologia ou manufatura avançada.
Dependência de fatores externos (commodities, taxas de câmbio, demanda global) que escapam ao controle nacional.
O contraste com outras nações
Enquanto o Brasil aposta em atalhos de consumo e estímulo fiscal, países da Ásia, como a Coreia do Sul, seguiram outro caminho. Lá, os pilares foram educação, tecnologia e valorização do trabalho produtivo. Não apenas estímulo ao consumo. Essa escolha estratégica permitiu avanços estruturais.
O contraste é doloroso: de um lado, países que se dedicaram a construir fundamentos sólidos de crescimento. Do outro, o Brasil, que insiste em soluções imediatistas e cíclicas. Esse contraste torna as escolhas do Brasil mais visíveis — e seus erros, mais custosos.
O risco da irrelevância
Cair em rankings não é apenas uma questão simbólica. Há efeitos concretos:
Redução da confiança de investidores estrangeiros, que preferem economias previsíveis.
Aumento do custo de crédito, público e privado.
Dificuldade do Estado em financiar projetos estruturantes de longo prazo — infraestrutura, ciência, tecnologia, capital humano.
Enquanto outras economias avançam em competitividade, o Brasil corre o risco de se tornar irrelevante na corrida global.
Tendências futuras
Se mantivermos o curso atual:
Possível estagnação do crescimento, com taxas abaixo de 2-3% ao ano.
Possível aumento da dívida pública como proporção do PIB.
Risco de perda de credibilidade junto a mercados internacionais.
Moeda continuará volátil.
Se mudarmos:
Adoção de reformas institucionais: controle do gasto, revisão tributária, segurança jurídica.
Foco em setores de alta produtividade, tecnologia, exportações com valor agregado.
Educação para a inovação: tanto básica quanto superior.
Visão de longo prazo além de ciclos eleitorais.
O Brasil ainda pode reverter essa trajetória de queda. Mas isso exige escolhas difíceis. Prioridades que fogem à retórica eleitoral. Consistência institucional. Visão estratégica.
É preciso parar de pensar que crescimento é algo que se compra com gasto. Crescimento sustentável é resultado de produtividade, governança, responsabilidade fiscal, investimento humano.
Qual deveria ser a prioridade número um?
Convido você, leitor(a), a opinar: Na sua visão, qual delas deveria ser a prioridade número um para recolocar o Brasil na rota do crescimento sustentável? Disciplina fiscal? Reforma institucional? Investimento em educação e tecnologia? Diversificação econômica e exportações?
Fontes:
Aline Macedo, CNN Brasil. Brasil tem 5ª maior alta no PIB global no 1º trimestre de 2025, mostra ranking da Austin Rating (26/06/2025). Disponível em: CNN Brasil.
Poder360. Brasil tem 5ª maior alta do PIB no 1º trimestre de 2025, diz Austin Rating (26/06/2025). Disponível em: Poder360.
GURIEV, Sergei; PAPAIOANNOU, Elias. The Political Economy of Populism. Journal of Economic Literature, 2020.
AKSOY, Cevat Giray et al. Populist leaders and the political budget cycle. European Economic Review, 2022.
LAMPRECHT, Patrick; FISCHER, Lars. Fiscal implications of the populist radical right in power. West European Politics, 2023.
STANTCHEVA, Stefanie; et al. Populist attitudes, fiscal illusion and fiscal preferences. Economic Policy, 2021.