Artigo
07/10/2025

Brasil em queda: estamos trocando futuro por atalhos de curto prazo?

Analisa fatores que explicam a queda do Brasil em rankings globais de crescimento econômico e discute alternativas para retomada sustentável.

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Você já viu circulando a frase de que o Brasil caiu do 5º para o 32º lugar num ranking global de crescimento econômico em 2025? Eu procurei — não achei fonte confiável que confirme rigorosamente essa transição 5 → 32. Mas achei dados que apontam para quedas ou perda de posições em rankings econômicos diversos. Por exemplo:

Um relatório da Austin Rating colocou o Brasil em 28º lugar num ranking de crescimento com 51 países, após registrar PIB de 0,1% num determinado trimestre. CNN Brasil

Outro dado: Brasil foi 5º no ranking de crescimento de economias (61 países) no primeiro trimestre de 2025, segundo a mesma Austin Rating. O Globo

Ou seja: há inconsistência nas estatísticas exatas, mas há evidências claras de que nossa posição relativa está se deteriorando. Essa mensagem, mesmo que não corresponda exatamente a uma única estatística oficial, serviu como metáfora poderosa da decadência econômica brasileira. O desempenho do Brasil tem sido alvo de críticas e comparações desfavoráveis. Enquanto outros países mostram trajetórias consistentes de crescimento, o Brasil patina em dilemas antigos.

O que é isso que estamos vendo? É o sintoma de decisões que parecem dar certo no curto prazo, mas que cobram um alto custo no médio e longo prazo.

Vou explicar os conceitos centrais:

  • Ranking de crescimento econômico: compara taxa de crescimento do PIB (produto interno bruto) entre países.

  • Populismo econômico: prática política de usar medidas de estímulo (gasto público, subsídios, crédito barato) visando agradar população ou garantir votos, muitas vezes desconsiderando sustentabilidade fiscal ou institucional.

  • Instituições: conjunto de regras, organizações, normas que garantem previsibilidade, responsabilidade, contratos cumpridos, segurança jurídica.

Causas dessa queda relativa

Aqui vão algumas causas principais:

  • Estímulos de curto prazo focados no consumo, sem investimento proporcional em produtividade.

  • Gasto público elevado: ajuda imediata, aquece demanda. Mas, sem produtividade, inflação pode subir, dívidas se acumulam.

  • Déficits públicos persistentes. Governo gasta mais do que arrecada. Juros do serviço da dívida consomem parte crescente do orçamento. Menos espaço para investir em infraestrutura, educação, inovação.

  • Baixa produtividade. Educação de qualidade desigual. Tecnologia pouco incorporada no setor produtivo. Gastos de importação, pouca inovação doméstica.

  • Instabilidade institucional e incerteza política. Mudanças frequentes de regras (tributárias, fiscais). Insegurança jurídica. Percepção de risco elevada para investidores.

  • Dependência de commodities e ciclos externos. Quando os preços das commodities caem, PIB sofre. Pouca diversificação da economia.

Efeitos observáveis

Os efeitos dessas causas aparecem de várias formas:

  • Crescimento econômico mais baixo em comparação com pares emergentes ou países asiáticos.

  • Custo do crédito caro. Investimento estrangeiro entrando menos, ou exigindo retorno maior.

  • Moeda fraca frente ao dólar, real desvalorizado.

  • Dificuldade em financiar projetos de longo prazo: infraestrutura, ciência, tecnologia.

Vantagens e desvantagens das escolhas feitas

Vantagens

  • Políticas de estímulo (crédito, gasto público) podem gerar alívio em tempos de crise.

  • Consumo elevado pode manter certas cadeias produtivas funcionando.

  • Apoio social pode evitar colapsos sociais e políticos — especialmente em períodos de recessão ou desemprego.

Desvantagens

  • Sustentabilidade fiscal sacrificada. Déficits crescentes e dívida pública onerosa.

  • Inflação elevada corrói renda real, afeta população pobre.

  • Pouca capacidade de competir globalmente em tecnologia ou manufatura avançada.

  • Dependência de fatores externos (commodities, taxas de câmbio, demanda global) que escapam ao controle nacional.

O contraste com outras nações

Enquanto o Brasil aposta em atalhos de consumo e estímulo fiscal, países da Ásia, como a Coreia do Sul, seguiram outro caminho. Lá, os pilares foram educação, tecnologia e valorização do trabalho produtivo. Não apenas estímulo ao consumo. Essa escolha estratégica permitiu avanços estruturais.

O contraste é doloroso: de um lado, países que se dedicaram a construir fundamentos sólidos de crescimento. Do outro, o Brasil, que insiste em soluções imediatistas e cíclicas. Esse contraste torna as escolhas do Brasil mais visíveis — e seus erros, mais custosos.

O risco da irrelevância

Cair em rankings não é apenas uma questão simbólica. Há efeitos concretos:

  • Redução da confiança de investidores estrangeiros, que preferem economias previsíveis.

  • Aumento do custo de crédito, público e privado.

  • Dificuldade do Estado em financiar projetos estruturantes de longo prazo — infraestrutura, ciência, tecnologia, capital humano.

Enquanto outras economias avançam em competitividade, o Brasil corre o risco de se tornar irrelevante na corrida global.

Tendências futuras

Se mantivermos o curso atual:

  • Possível estagnação do crescimento, com taxas abaixo de 2-3% ao ano.

  • Possível aumento da dívida pública como proporção do PIB.

  • Risco de perda de credibilidade junto a mercados internacionais.

  • Moeda continuará volátil.

Se mudarmos:

  • Adoção de reformas institucionais: controle do gasto, revisão tributária, segurança jurídica.

  • Foco em setores de alta produtividade, tecnologia, exportações com valor agregado.

  • Educação para a inovação: tanto básica quanto superior.

  • Visão de longo prazo além de ciclos eleitorais.

O Brasil ainda pode reverter essa trajetória de queda. Mas isso exige escolhas difíceis. Prioridades que fogem à retórica eleitoral. Consistência institucional. Visão estratégica.

É preciso parar de pensar que crescimento é algo que se compra com gasto. Crescimento sustentável é resultado de produtividade, governança, responsabilidade fiscal, investimento humano.

Qual deveria ser a prioridade número um?

Convido você, leitor(a), a opinar: Na sua visão, qual delas deveria ser a prioridade número um para recolocar o Brasil na rota do crescimento sustentável? Disciplina fiscal? Reforma institucional? Investimento em educação e tecnologia? Diversificação econômica e exportações?

Fontes:

  • Aline Macedo, CNN Brasil. Brasil tem 5ª maior alta no PIB global no 1º trimestre de 2025, mostra ranking da Austin Rating (26/06/2025). Disponível em: CNN Brasil.

  • Poder360. Brasil tem 5ª maior alta do PIB no 1º trimestre de 2025, diz Austin Rating (26/06/2025). Disponível em: Poder360.

  • GURIEV, Sergei; PAPAIOANNOU, Elias. The Political Economy of Populism. Journal of Economic Literature, 2020.

  • AKSOY, Cevat Giray et al. Populist leaders and the political budget cycle. European Economic Review, 2022.

  • LAMPRECHT, Patrick; FISCHER, Lars. Fiscal implications of the populist radical right in power. West European Politics, 2023.

  • STANTCHEVA, Stefanie; et al. Populist attitudes, fiscal illusion and fiscal preferences. Economic Policy, 2021.

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Autor

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Mónica Sofia Polaco Vieira

Economista | Governança Corporativa | Finanças | Transformação | Estratégia e Desenvolvimento de Negócios | Treinamentos e Palestras in Company