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20/06/2025

Como o Ruído Afeta os Investimentos dos RPPS

Analisa como o ruído influencia decisões e riscos nos investimentos dos regimes próprios de previdência.

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No campo da gestão dos investimentos dos regimes próprios de previdência, muito se fala sobre rentabilidade, risco, alocação de ativos e conformidade com as normas legais. No entanto, um fator pouco discutido, mas altamente relevante, é o impacto do ruído — um tipo de erro invisível, muitas vezes ignorado, que pode comprometer a qualidade das decisões de investimento mesmo quando se segue um processo formal e regulamentado.

O conceito de ruído foi desenvolvido por Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia e autor da obra Ruído: Uma Falha no Julgamento Humano, escrita em parceria com Olivier Sibony e Cass R. Sunstein. Segundo os autores, ruído é a variabilidade indesejada e inconsistente nos julgamentos humanos, o oposto do viés, que é uma distorção sistemática. O ruído acontece quando diferentes pessoas — ou a mesma pessoa em momentos distintos — tomam decisões diferentes diante da mesma situação, mesmo que todas as informações relevantes estejam disponíveis.

No ambiente dos RPPS, essa falha de julgamento pode se manifestar de várias formas. Um exemplo clássico é quando há divergência significativa nas avaliações de risco de um mesmo fundo por profissionais distintos. Enquanto um gestor considera determinado fundo conservador, outro o classifica como moderado, mesmo com acesso às mesmas informações. Da mesma forma, a definição de qual percentual alocar em renda variável ou em ativos estruturados pode variar mais por sensações subjetivas do que por fundamentos objetivos, como o perfil atuarial do passivo ou as metas da política de investimentos.

Esse tipo de ruído é particularmente perigoso em regimes próprios, porque eles lidam com recursos públicos e têm a obrigação de atuar com base em critérios técnicos, previsibilidade e segurança. Quando o ruído se infiltra na governança, ele compromete a consistência das decisões ao longo do tempo e aumenta o risco de desenquadramentos, más alocações ou exposição desnecessária a ativos inadequados.

Além disso, o ruído prejudica a capacidade de avaliar o desempenho das decisões. Se as escolhas são tomadas com base em julgamentos inconsistentes, fica difícil saber se uma má rentabilidade decorreu do comportamento do mercado ou de uma decisão mal calibrada — e, pior ainda, torna-se difícil corrigir os erros de forma sistemática.

Para reduzir o ruído nos investimentos dos RPPS, é essencial avançar em três frentes principais:

1. Estruturação de processos decisórios padronizados. A criação de checklists objetivos, critérios de avaliação uniformes para fundos e ativos, e o uso sistemático de dados quantitativos ajudam a diminuir a influência de fatores subjetivos. Um comitê bem estruturado precisa mais do que experiência: precisa de métodos de análise replicáveis.

2. Fortalecimento da governança com foco em evidência. Decisões colegiadas devem ser acompanhadas de justificativas registradas e fundamentadas. A ata de uma reunião de comitê não deve apenas registrar a decisão, mas também os critérios utilizados — se basearam-se na política de investimentos, nas simulações de risco, nas exigências de liquidez do cálculo atuarial, entre outros fatores.

3. Uso de ferramentas de apoio à decisão. A adoção de modelos simples de pontuação de risco, rankings objetivos de fundos, ou mesmo simulações de cenário com base em métricas como Value at Risk (VaR), contribuem para padronizar avaliações e reduzir a dispersão de julgamentos causada por preferências individuais.

É importante destacar que o ruído não é fruto de má-fé nem de falta de conhecimento técnico, mas sim de um funcionamento natural da mente humana. Somos todos suscetíveis a influências que nem sempre percebemos: o contexto de uma reunião, o excesso de otimismo após uma boa performance de mercado, a pressão do gestor público por maior rentabilidade, entre outros. Por isso, reconhecer o ruído é o primeiro passo para construir uma gestão mais profissional, transparente e responsável.

Inspirado pelos alertas de Kahneman e seus colegas, refletir sobre o ruído na gestão dos RPPS significa elevar a qualidade das decisões de investimento, proteger os recursos previdenciários e aumentar a confiança da sociedade na administração pública. É um compromisso que deve começar com a formação contínua dos profissionais envolvidos, mas também com a implantação de estruturas institucionais que favoreçam decisões técnicas, previsíveis e justificáveis.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é "ruído" no contexto do julgamento humano, conforme discutido em relação à gestão de investimentos?
O "ruído" é definido como uma variabilidade indesejada e inconsistente nos julgamentos humanos. Diferentemente do viés, que representa uma distorção sistemática, o ruído ocorre quando diferentes pessoas, ou a mesma pessoa em momentos distintos, chegam a decisões diferentes sobre a mesma situação, mesmo dispondo de todas as informações relevantes. Esse conceito foi notavelmente desenvolvido por Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein.
Quem são os autores creditados pelo desenvolvimento do conceito de ruído como uma falha no julgamento humano e qual obra o apresenta?
O conceito de ruído como uma falha no julgamento humano foi desenvolvido por Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, em parceria com Olivier Sibony e Cass R. Sunstein. Eles apresentaram essa ideia na obra intitulada Ruído: Uma Falha no Julgamento Humano.
Qual é a distinção fundamental entre "ruído" e "viés" no processo de julgamento humano?
A distinção fundamental é que o ruído se refere à variabilidade indesejada e inconsistente nos julgamentos, ou seja, diferentes avaliações para a mesma situação sem um padrão claro. Já o viés representa uma distorção sistemática, indicando um erro que tende a ocorrer consistentemente em uma determinada direção.
Como o ruído pode se manifestar nas decisões de investimento dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS)?
Nos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), o ruído pode se manifestar de diversas formas nas decisões de investimento. Um exemplo clássico é a divergência significativa nas avaliações de risco de um mesmo fundo de investimento por diferentes profissionais, onde um pode considerá-lo conservador e outro, moderado, mesmo ambos tendo acesso às mesmas informações.Outra manifestação ocorre quando a definição do percentual a ser alocado em diferentes classes de ativos, como renda variável ou ativos estruturados, varia mais por sensações subjetivas dos decisores do que por fundamentos objetivos, como o perfil atuarial do passivo ou as metas estabelecidas na política de investimentos do regime.
Quais são os principais perigos associados ao ruído na gestão de investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS)?
O ruído é considerado particularmente perigoso na gestão de investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) porque estes lidam com recursos públicos e possuem a obrigação de atuar com base em critérios técnicos, previsibilidade e segurança. A infiltração do ruído na governança pode comprometer a consistência das decisões ao longo do tempo, aumentar o risco de desenquadramentos em relação às normas, levar a más alocações de recursos, ou resultar em exposição desnecessária a ativos inadequados.
De que forma o ruído pode prejudicar a avaliação do desempenho das decisões de investimento?
O ruído prejudica a capacidade de avaliar o desempenho das decisões de investimento porque, se as escolhas são tomadas com base em julgamentos inconsistentes, torna-se difícil determinar se uma eventual má rentabilidade foi consequência do comportamento do mercado ou de uma decisão mal calibrada. Consequentemente, também se torna mais complicado corrigir os erros de forma sistemática e aprender com as experiências passadas.
Quais são as três frentes principais recomendadas para reduzir o ruído nas decisões de investimento dos RPPS?
Para reduzir o ruído nos investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), é essencial avançar em três frentes principais. A primeira é a estruturação de processos decisórios padronizados, que envolve criar métodos consistentes e objetivos. A segunda frente é o fortalecimento da governança com foco em evidência, requerendo que as decisões sejam bem fundamentadas e documentadas. Por fim, a terceira frente consiste no uso de ferramentas de apoio à decisão, o que implica adotar instrumentos que ajudem a padronizar avaliações e reduzir a subjetividade.
Como a estruturação de processos decisórios padronizados pode auxiliar na diminuição do ruído em investimentos?
A estruturação de processos decisórios padronizados ajuda a diminuir a influência de fatores subjetivos, que são uma das causas do ruído. Isso pode ser alcançado através da criação de checklists objetivos, da definição de critérios de avaliação uniformes para fundos e ativos, e do uso sistemático de dados quantitativos nas análises. Um comitê de investimentos bem estruturado, por exemplo, precisa utilizar métodos de análise que sejam replicáveis, garantindo maior consistência nas decisões.
Qual a importância do fortalecimento da governança com foco em evidência para mitigar o ruído nas decisões de investimento?
O fortalecimento da governança com foco em evidência é crucial para mitigar o ruído, pois incentiva que as decisões colegiadas sejam acompanhadas de justificativas registradas e devidamente fundamentadas. Por exemplo, a ata de uma reunião de comitê de investimentos não deve apenas registrar a decisão tomada, mas também detalhar os critérios utilizados para chegar a ela, como a conformidade com a política de investimentos, as simulações de risco realizadas, as exigências de liquidez do cálculo atuarial, entre outros fatores objetivos. Isso promove transparência, responsabilidade e consistência.
De que maneira o uso de ferramentas de apoio à decisão pode contribuir para a redução do ruído em julgamentos de investimento?
O uso de ferramentas de apoio à decisão contribui para padronizar avaliações e reduzir a dispersão de julgamentos causada por preferências individuais ou subjetividade. Exemplos dessas ferramentas incluem modelos simples de pontuação de risco, rankings objetivos de fundos de investimento, ou mesmo simulações de cenário com base em métricas como o Value at Risk (VaR). Ao fornecer uma base mais objetiva e consistente para a análise, essas ferramentas ajudam a minimizar a variabilidade indesejada nas decisões.
O ruído nas decisões de investimento é um indicativo de má-fé ou de falta de conhecimento técnico por parte dos profissionais?
Não, o ruído não é necessariamente fruto de má-fé nem de falta de conhecimento técnico. Ele é descrito como um resultado de um funcionamento natural da mente humana. As pessoas são suscetíveis a diversas influências que nem sempre percebem conscientemente, como o contexto de uma reunião, o excesso de otimismo após um período de boa performance do mercado, ou a pressão por maior rentabilidade. Reconhecer essa característica humana é o primeiro passo para lidar com o ruído de forma construtiva.
Quais são os principais benefícios de reconhecer e trabalhar para reduzir o ruído na gestão dos investimentos dos RPPS?
Reconhecer e trabalhar para reduzir o ruído na gestão dos investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) traz benefícios significativos. Isso permite elevar a qualidade das decisões de investimento, contribuindo para uma melhor proteção dos recursos previdenciários. Além disso, promove um aumento da confiança da sociedade na administração pública e auxilia na construção de uma gestão mais profissional, transparente e responsável.
O que é fundamental para construir uma gestão de investimentos em RPPS que seja menos suscetível ao ruído?
Para construir uma gestão de investimentos em Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) menos suscetível ao ruído, é fundamental, além do reconhecimento da existência do ruído, investir na formação contínua dos profissionais envolvidos. Igualmente importante é a implantação de estruturas institucionais que favoreçam a tomada de decisões técnicas, previsíveis e justificáveis, minimizando a influência de fatores subjetivos e inconsistentes.
O que é informado sobre o <em>Value at Risk (VaR)</em>?
O Value at Risk (VaR) é mencionado como um exemplo de métrica que pode ser utilizada em simulações de cenário. O uso de tais simulações, com base em métricas como o VaR, é apresentado como uma ferramenta de apoio à decisão que contribui para padronizar avaliações e reduzir a dispersão de julgamentos causada por preferências individuais. Não é fornecida uma definição detalhada do que é o Value at Risk (VaR) em si, apenas se indica sua utilidade no contexto da redução do ruído nas decisões de investimento.

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