Artigo
04/08/2024
Atualizado em 25/04/2026

Como Questões sobre ESG se Tornam Financeiramente Materiais para Empresas e Seus Investidores X Estudos de Casos Reais

Framework da Harvard Business School explica como questões ESG se tornam financeiramente materiais, impactando empresas e investidores por meio de eventos catalisadores, reações de stakeholders, respostas corporativas e regulações.

Imagem de capa do artigo

A gestão e divulgação de questões ambientais, sociais e de governança (ESG) tem crescido de importância e recebido mais atenção nos últimos tempos, inclusive minhas também, e ao ler um paper sobre o tema, me despertou interesse em compartilhar um pouco mais deste conhecimento, e fazer as pessoas refletirem mais sobre este tema, se ainda não está no seu radar.

Este paper escrito pelos David Freiberg, Jean Rogers e George Serafeim para a Harvard Business School descreve um framework de como as questões sobre ESG se tornam financeiramente materiais, afetando a lucratividade corporativa e a sua avaliação, afinal compreender este processo é importante tanto para pessoas motivadas por fins financeiros quanto sociais. As empresas e investidores focados em retorno podem usar este framework para tomar decisões de alocação de recursos com base em expectativas sobre a materialidade futura, aumentando assim os retornos ajustados ao risco. Por outro lado os reguladores, ONGs e investidores podem usar o framework para projetar e implementar intervenções que criem incentivos de mercado para alinhar o comportamento das empresas e investidores com resultados sociais e ambientais.

Como Questões Tornam-se Financeiramente Materiais?

O processo de materialidade financeira é segmentado em cinco estágios: status quo, eventos catalisadores, reação dos stakeholders, resposta da empresa e resposta regulatória e inovação, aonde cada estágio possui características distintas que influenciam a transição de uma questão sobre ESG de imaterial para material financeiramente.

Status Quo: Inicialmente, o segmento de atuação está em equilíbrio quanto ao nível de externalidades de uma determinada questão sobre ESG, e, portanto, a questão não é financeiramente material. Existe um grau de desalinhamento entre os interesses empresariais e os interesses sociais que é tolerado. Este desalinhamento pode não ser inerentemente malicioso e, em alguns casos, as empresas podem considerar este desalinhamento como um custo social insignificante em comparação aos benefícios criados.

Eventos Catalisadores: Existem dois tipos distintos de catalisadores que iniciam o processo de materialidade. No primeiro caso, o comportamento da empresa se desvia do que é atualmente considerado aceitável socialmente. No segundo caso, as normas sociais sobre o comportamento corporativo aceitável mudam. No primeiro caso, algumas empresas se desviam do equilíbrio buscando capturar rendas adicionais, aumentando ainda mais o desalinhamento entre os interesses empresariais e sociais. No segundo caso, as expectativas sociais sobre o comportamento corporativo mudam devido a novas informações ou consenso.

Reação dos Stakeholders: ONGs, mídia e outros stakeholders reagem ao aumento do desalinhamento entre os interesses empresariais e sociais. Quando os engajamentos diretos com as empresas são mal-sucedidos, os stakeholders podem apelar a políticos ou ao público em geral, buscando reformas regulatórias ou boicotes. A ação dos stakeholders pode aumentar a probabilidade de investigações, futuras ações regulatórias e danos reputacionais.

Resposta da Empresa: Em face da reação dos stakeholders, as empresas tentam responder e recuperar a confiança pública. No entanto, essas tentativas nem sempre significam ações para abordar o desalinhamento subjacente. As respostas podem variar de esforços para manter o desalinhamento existente a tentativas genuínas de corrigir o desalinhamento.

Resposta Regulatória e Inovação: Um novo equilíbrio é formado após a resposta da empresa ou do segmento a menos que ocorram mudanças regulatórias ou inovações que alterem significativamente as práticas empresariais. A regulação pode forçar as empresas a reduzir o desalinhamento, enquanto a inovação pode disruptar a indústria, levando a um novo equilíbrio.

Este processo dinâmico de materialidade financeira acima, mostra que as questões sobre ESG evoluem de acordo com mudanças em comportamentos corporativos, normas sociais, reações de stakeholders e intervenções regulatórias ou inovadoras, por isto ser tão importante compreender esses estágios, para antecipar e gerenciar a materialidade financeira de questões de ESG, beneficiando empresas, investidores e a sociedade como um todo.

Desenvolvimento da Materialidade em Alguns Segmentos e Estudos de Casos:

O processo de transformação de questões ambientais, sociais e de governança (ESG) em materialidade financeira envolve vários estágios distintos, aonde cada estágio possui características únicas e hipóteses específicas sobre como e por que uma questão sobre ESG pode se tornar material financeiramente. Para ilustrar esses estágios o paper mostra alguns estudos de casos que queria compartilhar abaixo que dão uma visão mais prática do que estamos falando e vale a pena conhecer:

1) Segurança na Mineração:

Status Quo: A segurança nas minas não era obrigatoriamente divulgada, resultando em condições de trabalho inseguras.

Catalisador: Explosão de uma mina matando mineiros.

Reação dos Stakeholders: Condenação de políticos e comunidades locais.

Resposta da Empresa: Empresa alegou que a explosão foi devido a condições físicas e não violações de segurança.

Resposta Regulamentar: Novas regras de divulgação de segurança nas minas pela SEC e ações corretivas pela MSHA.

2) Práticas de Marketing:

Status Quo: Uso de cigarros eletrônicos estava crescendo rapidamente entre jovens, sem regulamentação sobre produtos aromatizados.

Catalisador: Relatos de aumento no uso de cigarros eletrônicos por estudantes do ensino médio e aumento nas receitas da empresa.

Reação dos Stakeholders: A FDA rotulou o vaping entre jovens como uma "epidemia".

Resposta da Empresa: A empresa pediu desculpas publicamente, apoiou o aumento da idade legal para fumar e interrompeu a venda de pods aromatizados em lojas físicas.

Resposta Regulamentar: Novas restrições da FDA sobre a venda de cigarros eletrônicos aromatizados e aumento da idade legal para comprar tabaco em vários estados.

3) privacidade de dados e mudança climática:

Status Quo: No caso do Facebook, a coleta e uso de dados pessoais dos usuários eram práticas comuns e amplamente aceitas, sem grande preocupação pública ou regulatória.

Na indústria de petróleo e gás, a relação entre a queima de combustíveis fósseis e a mudança climática era conhecida, mas a ação significativa para mitigar esse impacto não era exigida.

Eventos Catalisadores: O processo de materialidade financeira começa a ganhar impulso com a ocorrência de eventos catalisadores. No caso do Facebook, o escândalo da Cambridge Analytica em 2018, onde dados de milhões de usuários foram coletados sem consentimento e utilizados para propaganda política, serviu como um evento catalisador. Esse incidente revelou a extensão da coleta de dados e o uso indevido, despertando a atenção do público e dos reguladores.

Para a indústria de petróleo e gás, o Acordo de Paris de 2015 foi um catalisador significativo, destacando a necessidade urgente de reduzir as emissões de carbono e incentivar a transição para fontes de energia mais limpas.

Reação dos Stakeholders: À medida que a atenção sobre a questão sobre ESG aumenta, os stakeholders começam a reagir. No caso do Facebook, os usuários, mídia, políticos e reguladores reagiram fortemente ao escândalo de privacidade de dados, resultando em uma série de investigações e audiências públicas. Os stakeholders exigiram maior transparência e melhores práticas de proteção de dados.

Na indústria de petróleo e gás, investidores, ONGs e o público aumentaram a pressão sobre as empresas para reduzir as emissões de carbono e investir em tecnologias de energia limpa. Grandes investidores começaram a exigir relatórios detalhados sobre o impacto das mudanças climáticas nos negócios das empresas de petróleo e gás.

Resposta da Empresa: Em resposta à crescente pressão dos stakeholders, as empresas tentam recuperar a confiança pública e mitigar os riscos financeiros associados. O Facebook implementou uma série de mudanças para melhorar a proteção de dados, incluindo a limitação do acesso a dados de terceiros, aprimoramento de políticas de privacidade e maior transparência em suas operações.

Na indústria de petróleo e gás, várias empresas começaram a investir em projetos de energia renovável e tecnologias de captura e armazenamento de carbono. Algumas empresas também começaram a divulgar metas de redução de emissões e a relatar seus progressos anualmente.

Resposta Regulamentar e Inovação: Se a resposta da empresa não for suficiente para resolver o desalinhamento, intervenções regulatórias ou inovações disruptivas podem ocorrer para estabelecer um novo equilíbrio. No caso do Facebook, a regulamentação sobre proteção de dados foi fortalecida em várias jurisdições, com a União Europeia implementando o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR). Nos Estados Unidos, várias audiências no Congresso levaram a debates sobre a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa.

Na indústria de petróleo e gás, as regulamentações ambientais tornaram-se mais rigorosas, com vários países implementando ou fortalecendo políticas de precificação de carbono. Além disso, a inovação tecnológica está desempenhando um papel relevante, com avanços em energias renováveis e tecnologias de eficiência energética forçando as empresas de petróleo e gás a adaptarem seus modelos de negócios.

Esses casos ilustram bem como estas questões sobre ESG podem evoluir de imateriais para financeiramente materiais através de um processo dinâmico que envolve eventos catalisadores, reações dos stakeholders, respostas das empresas e intervenções regulatórias ou inovações.

A Natureza Dinâmica da Materialidade Financeira:

A materialidade financeira das questões ambientais, sociais e de governança (ESG) é um conceito intrinsecamente dinâmico, sujeito a mudanças e evolução ao longo do tempo. Este dinamismo é impulsionado por uma série de fatores que interagem de maneira complexa, resultando em impactos financeiros que podem ser substanciais para as empresas e seus investidores.

Inicialmente, as questões ESG podem não ser vistas como financeiramente materiais. No entanto, à medida que eventos específicos ou mudanças nas expectativas sociais ocorrem, essas questões começam a ganhar importância. O primeiro estágio desse processo é o status quo, onde existe um desalinhamento tolerado entre os interesses empresariais e sociais. Nesse estágio, as externalidades negativas das atividades empresariais são vistas como custos inevitáveis ou insignificantes em comparação com os benefícios econômicos e sociais proporcionados.

A transição do status quo para a materialidade financeira geralmente é desencadeada por eventos catalisadores. Esses eventos podem incluir escândalos, desastres ambientais, mudanças regulatórias ou até mesmo a crescente conscientização pública sobre uma questão específica. Os eventos catalisadores aumentam a visibilidade das questões ESG e podem levar a uma maior pressão por parte dos stakeholders, incluindo ONGs, mídia, investidores e o público em geral. Um exemplo clássico é o caso da crise dos opioides nos Estados Unidos, onde as práticas de marketing agressivo das empresas farmacêuticas se tornaram catalisadores que levaram a um escrutínio público e regulatório significativo.

Com a crescente atenção, as reações dos stakeholders tornam-se mais pronunciadas. ONGs, mídia e outros stakeholders começam a pressionar as empresas a mudar suas práticas. Essa pressão pode se manifestar de várias formas, como campanhas de mídia, protestos, boicotes ou ações legais. A resposta dos stakeholders pode aumentar a percepção de risco entre os investidores, afetando negativamente os preços das ações e a avaliação das empresas envolvidas.

Em resposta à pressão dos stakeholders, as empresas geralmente tentam responder e recuperar a confiança pública. Essa resposta pode variar de mudanças superficiais a reformas profundas nas operações e na governança corporativa. As empresas podem implementar políticas de sustentabilidade, melhorar a transparência e a divulgação de informações ESG, ou até mesmo adotar práticas inovadoras que abordem diretamente as preocupações dos stakeholders. A eficácia dessas respostas depende da seriedade com que as empresas abordam as questões subjacentes e da magnitude das mudanças implementadas.

No entanto, as respostas das empresas nem sempre são suficientes para resolver o desalinhamento entre os interesses empresariais e sociais. Em muitos casos, são necessárias mudanças regulatórias para estabelecer um novo equilíbrio. A regulamentação pode forçar as empresas a internalizar os custos das externalidades negativas e a adotar práticas mais sustentáveis. A implementação de novas leis e regulamentos pode criar um ambiente onde as questões ESG se tornam financeiramente materiais para todas as empresas de um setor específico. Por exemplo, a regulamentação sobre emissões de carbono e a adoção de preços de carbono têm um impacto significativo na materialidade financeira das questões climáticas.

Além da regulamentação, a inovação também desempenha um papel crucial na dinâmica da materialidade financeira. Inovações tecnológicas e de processos podem transformar indústrias inteiras, criando novos padrões e expectativas. Empresas inovadoras podem desenvolver vantagens competitivas significativas, forçando outras a se adaptarem ou enfrentarem consequências financeiras adversas. A Tesla, por exemplo, revolucionou a indústria automobilística com seus veículos elétricos, forçando outras montadoras a seguir o exemplo e investirem em tecnologias sustentáveis.

A natureza dinâmica da materialidade financeira é ilustrada por um processo contínuo de evolução e adaptação. Questões de ESG que uma vez foram consideradas imateriais podem, com o tempo, tornar-se críticas para a viabilidade financeira de uma empresa. Esse processo de materialidade é impulsionado por mudanças nas expectativas sociais, eventos catalisadores, reações dos stakeholders, respostas corporativas, regulamentação e inovação. Portanto, é essencial que empresas e investidores estejam atentos a essas dinâmicas para gerenciar riscos e oportunidades associadas às questões de ESG de maneira eficaz.

Os interessados em saber mais deixo o link para o paper original em:

https://media.licdn.com/dms/document/media/D4E1FAQFC0yzDnPhibg/feedshare-document-pdf-analyzed/0/1722188799275?e=1723075200&v=beta&t=vdTJ9ujU7czo5_ktmoIyRGxScC1Ggaxuqf-fYbEjh1c

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Autor

Foto de perfil de Luiz Henrique Lobo

Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante