Artigo
14/06/2025

Eventos de Risco Operacional: Análise do Ciclo de Vida e Principais Desafios da sua Gestão

Explora o ciclo de vida dos eventos de risco operacional e os principais desafios para sua gestão nas organizações.

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Se uma organização não tiver uma compreensão clara do seu perfil de perdas operacionais e não tiver uma previsão dos casos comuns de falhas, estará significativamente menos preparada para gerir eficazmente os seus riscos prospectivos. Historicamente, as perdas operacionais foram o primeiro componente de risco operacional implementado pelas organizações, enquanto o apetite de risco, por exemplo, foi introduzido numa fase muito posterior.

Os eventos de risco operacional (também chamados de incidentes), no entanto, vão além das perdas puramente financeiras usadas para o cálculo de capital econômico / regulamentar e provisões. Eles são definidos como “eventos que surgem devido a falhas de processos, pessoas ou sistemas ou do ambiente externo, resultando em exposição financeira real ou potencial e/ou danos ao cliente, danos à reputação ou censura regulatória”. Esta definição demonstra a complexidade do risco operacional, que pode cristalizar-se numa variedade de eventos com impactos financeiros e não financeiros (clientes, reputacionais, regulamentares).

Portanto, podemos afirmar que um evento de risco operacional é “um evento que faz com que o resultado real de um processo de negócio seja diferente do resultado esperado”. Isso enfatiza a natureza errônea ou indesejável do incidente. Nesse sentido, o escopo dos eventos de risco operacional é bem mais abrangente e pode incluir:

  • Perdas reais: incluem encargos diretos no resultado, custos externos, provisões e perdas.

  • Quase perdas (near misses): são os eventos de risco operacional que ocorreram, mas não resultaram em perda (efetivamente, neste caso, a organização teve sorte, porém, como seus controles falharam, na próxima vez que esse evento acontecer, ele poderia simplesmente facilmente levar a uma perda monetária ou outras consequências não financeiras significativas.)

  • Lucros/ganhos de risco operacional.

  • Custos de oportunidade/receitas perdidas.

  • Impactos temporais (distorções financeiras, ou seja, impactos econômicos negativos registrados num determinado período fiscal devido a eventos de risco operacional, mas com impacto nos fluxos de caixa de períodos anteriores).

Ciclo de vida de um evento de risco operacional

Eu entendo que o ciclo de vida de um evento de risco operacional é geralmente composto por 6 etapas, conforme diagrama a seguir:

CICLO DE VIDA DO EVENTO DE RISCO OPERACIONAL

1. Identificação

Devido à amplitude da disciplina de risco operacional e às infinitas possibilidades de ocorrência, os eventos de risco operacional podem não ser facilmente identificados. Neste contexto, outros canais de descoberta podem ser úteis, incluindo principalmente: (i) resultados das verificações de reconciliação; (ii) multas, penalidades e indenizações; (iii) reclamações de clientes; (iv) relatórios de incidentes de tecnologia.

No entanto, o principal mecanismo para capturar os eventos de risco operacional são os próprios colaboradores. As unidades de negócios e funções de suporte precisam ser capazes de entender o que é um evento de risco operacional e saber a quem perguntar em caso de dúvida.

Uma ferramenta poderosa para ajudar a 1ª linha de defesa a entender o que é um evento de risco operacional é compilar uma lista de possíveis exemplos de eventos para cada unidade de negócios/função de suporte de forma a fornecer clareza e ajudar os colaboradores a reconhecer um incidente. Treinamento e educação contínuos e personalizados aos funcionários também são essenciais para manter um nível sólido de compreensão.

2. Reporte

Os reportes devem ser executados dentro de um prazo definido, que pode variar significativamente de organização para organização. Eu já presenciei casos que variavam de 24 horas a 90 dias. No entanto, deve-se encorajar o reporte rápido, para transmitir a essência da questão, em vez de esperar que todos os fatos venham à luz. É sempre melhor apenas inserir o registro do evento e, se necessário, complementá-lo à medida que novos detalhes surgirem.

Outro ponto importante relacionado à fase de reporte é que, em muitos casos, a área que descobre o evento não é aquela que o causou. Por exemplo, o departamento de Finanças identifica um registro incorreto em sistema feito por Operações. Quem é o responsável pelo reporte do evento? Para evitar um debate acalorado, é uma boa prática que a unidade de negócios ou função de suporte identificadora sempre relate o incidente, independentemente de ser responsável ou não. Isso ajuda a acelerar o processo e estimula os departamentos a trabalharem em colaboração. A função de risco operacional pode auxiliar na moderação de eventos mais complexos onde múltiplas áreas estão envolvidas.

3. Escalamento

Eventos relevantes precisam ser escalados imediatamente para evitar possíveis desdobramentos adicionais indesejáveis. No caso de inatividade tecnológica, por exemplo, clientes afetados podem recorrer às redes sociais para sinalizar a indisponibilidade do serviço. Os incidentes graves também podem exigir a rápida convocação do time de gestão de crises, que assumirá a liderança na coordenação das ações de acompanhamento. Além disso, alguns eventos de risco operacional devem ser notificados aos reguladores, dependendo das diretrizes de supervisão locais, que variam de acordo com a jurisdição.

Dependendo da natureza do evento, poderão existir outros participantes na cadeia. Os casos de fraude ou crime financeiro serão encaminhados para Recursos Humanos, Prevenção à Fraudes, Departamento Jurídico ou alguma outra combinação de departamentos. Há vantagens em direcionar todos os eventos através da função de risco operacional, que pode servir como ponto central para determinar a escalada subsequente.

4. Análise Individual e Resolução

Um dos desafios fundamentais enfrentados pela 2ª linha de defesa é garantir que os eventos de risco operacional não sejam vistos apenas como um exercício de reporte. É dada muita atenção ao aspecto da coleta das informações – escopo, template, prazo de reporte – a ponto de, por vezes, o elemento mais importante, a gestão ativa do risco, ser subestimado.

Os eventos de risco operacional materiais necessitam de uma análise exaustiva da causa raiz, incluindo o chamado “mergulho profundo” (deep dive) e lições aprendidas. Uma análise de evento pode ser eficazmente realizada através de uma reunião com os especialistas no assunto e as partes interessadas certas presentes na sala. Para auxiliar no processo, pode-se aplicar técnicas que são amplamente empregadas na metodologia de melhoria contínua de processos, como o 5W e o Diagrama de Ishikawa.

Tão importante quanto a análise da causa raiz é criação dos planos de ação para evitar futuras recorrências, com proprietários e datas-alvo. O departamento de Risco Operacional deve monitorizar o progresso destes planos, encaminhar para os comitês relevantes quaisquer planos que não tenham sido encerrados até a data prevista de resolução e confirmar que as melhorias de controle pretendidas realmente abordam o risco associado.

5. Análise Agregada e Comunicação à Alta Gestão

A classificação correta de eventos usando a categoria de taxonomia de risco e identificando-a com a principal unidade de negócios responsável / entidade legal ajuda a construir uma base sólida para uma análise agregada. O departamento de Risco Operacional tem uma visão de todos os eventos de risco operacional da organização e está em melhor posição para conduzir essa análise agregada, fornecendo informações significativas sobre o conjunto de eventos à alta administração e aos comitês apropriados.

Outra técnica poderosa é apresentar tendências e descobertas às unidades de negócios e às funções de suporte, que às vezes podem sentir que os seus eventos de risco operacional relatados parecem desaparecer num buraco negro, sem qualquer feedback de acompanhamento. Este tipo de reporte pode ser feito, por exemplo, numa sessão de revisão trimestral com cada área de 1ª linha, onde os eventos do próprio departamento são discutidos e análises adicionais de toda a organização são partilhadas pela equipe de risco operacional.

6. Validação

A fase de validação concentra-se na precisão e integridade dos dados. Um processo adequado de recolhimento dos dados, e a qualidade / integridade dos dados recolhidos são cruciais para gerar resultados de capital que estejam alinhados com a exposição às perdas operacionais da organização. A etapa de validação deve incluir a reconciliação regular dos eventos de risco operacional registrados no sistema de risco com os registros contábeis. Isto garante que as perdas sejam refletidas corretamente no Balanço e, no sentido inverso, que os respectivos lançamentos do Balanço correspondem ao que está sendo captado pelo sistema de risco.

Um mecanismo de certificação adicional pode ser usado, onde a 1ª linha é solicitada a atestar a integridade e a precisão dos eventos de risco operacional em um determinado no período (geralmente o período coberto pelo relatório de perdas operacionais). Para facilitar este processo, é uma boa prática fornecer às unidades de negócios e às funções de suporte os eventos de risco operacional que eles submeteram, solicitando confirmação por escrito do chefe do departamento de que não ocorreu nenhum outro incidente.

Desafios mais comuns na gestão de eventos de risco operacional

Na minha experiência, pude perceber que os principais desafios na gestão de eventos de risco operacional estão relacionados à:

1. Relutância em reportar os eventos de risco operacional

Este é um obstáculo muito real, especialmente em organizações caracterizadas por uma "cultura de culpa", onde a primeira pergunta geralmente é “quem fez isso”? A cultura de risco da organização deve garantir que os colaboradores se sintam confortáveis e capacitados para falar quando algo corre mal. Promover um ambiente sem culpa e enfatizar o valor das lições aprendidas incentivará os funcionários a levantar questões. A função de risco operacional pode ser um catalisador de mudanças positivas nesta direção, proporcionando treinamento aos colaboradores sobre o valor do reporte de eventos, solicitando à alta gestão que evite reagir aos eventos com comentários negativos e concentrando-se construtivamente na abordagem da causa, em vez de nomear e envergonhar os colaboradores.

2. Falta de ação após o reporte do evento de risco operacional

Muitas vezes os planos de ação são definidos mas não são executados ou concluídos devido a outras prioridades, orçamento insuficiente, apatia ou diversas outras razões. Nestes casos, as ações de melhoria ficam atrasadas e as datas previstas são prorrogadas várias vezes. Para evitar este cenário, é necessário adotar uma abordagem pragmática, diferenciando as questões menores das questões materiais. Para eventos insignificantes, as melhorias podem ser muito dispendiosas e a aceitação do risco é a solução ideal. Contudo, se o evento e as ações correspondentes forem materiais, eles precisam ser tratados com o mesmo rigor que os planos de ação de auditoria interna.

3. “Administração” em vez de gestão de riscos

Este é outro ponto relacionado à materialidade dos eventos. Caso os limites que definem a materialidade de eventos relevantes sejam inadequadamente baixos, em conjunto com funcionários no departamento de Risco Operacional que perseguem cada evento, ação e data prevista, independentemente da materialidade, todo o exercício de gestão de eventos de risco operacional pode ser negativamente impactado. Embora seja importante ter uma abordagem disciplinada para registrar e analisar eventos, é igualmente essencial aplicar uma perspectiva baseada no risco/retorno e bom senso quando se trata de questões menores.

4. Falta de senso de propriedade em eventos de risco operacional envolvendo múltiplas áreas

Quando múltiplas áreas estão envolvidas num evento, geralmente nenhuma das áreas de 1ª linha está disposta a intervir e liderar a remediação, e a responsabilidade acaba sendo continuamente transferida (“este evento não é meu”). Nesses casos, o departamento de Risco Operacional deve moderar a resolução, facilitando as conversas e acordando os passos certos a seguir.

5. Formulário de reporte de eventos de risco operacional muito complexo

Se o formulário de reporte de eventos de risco operacional for muito complicado e parecer não agregar nenhum valor, a 1ª linha irá hesitar na sua utilização. A simplificação do processo de reporte garante que, do ponto de vista do usuário, haja uma percepção de valor em comparação com o tempo e esforço investidos.

6. Envolvimento desequilibrado do departamento de Risco Operacional

Críticas são diversas vezes dirigidas ao departamento de Risco Operacional no sentido de que ele só se torna visível quando ocorre um evento de risco operacional. E embora a unidade de negócios esteja determinadamente focada na investigação e resolução do incidente, risco operacional acompanha inutilmente à cada hora exigindo o envio do reporte do evento. É verdade que a 2ª linha necessita de estar ativamente envolvida em todas as fases do processo de gestão de eventos de risco operacional, mas este não deve ser o único momento onde há interação com a 1ª linha. A construção de relacionamentos, a compreensão das funções de cada um e o trabalho em parceria durante todo o ciclo de vida da gestão de riscos são fundamentais para a sua gestão eficaz.

Concluindo: como podemos ver, o percurso para gerir de forma eficaz os eventos de risco operacional ainda está longe de ser perfeito. Os profissionais de risco operacional precisam continuamente perseverar na melhoria deste instrumento de gestão aparentemente básico, afastando-se da mera conformidade regulamentar, trabalhando em colaboração com outros departamentos e continuando a contribuir positivamente para o desenvolvimento de uma cultura de não culpabilidade, que conduza os colaboradores a se manifestarem e apresentarem reportes de incidentes.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual a importância de uma organização compreender seu perfil de perdas operacionais?
Uma organização que não possui uma compreensão clara do seu perfil de perdas operacionais e não tem uma previsão dos casos comuns de falhas estará significativamente menos preparada para gerir eficazmente os seus riscos prospectivos.
Como os eventos de risco operacional são definidos e qual sua abrangência?
Eventos de risco operacional são definidos como “eventos que surgem devido a falhas de processos, pessoas ou sistemas ou do ambiente externo, resultando em exposição financeira real ou potencial e/ou danos ao cliente, danos à reputação ou censura regulatória”.Essa definição demonstra a complexidade do risco operacional, que pode se manifestar em uma variedade de eventos com impactos tanto financeiros quanto não financeiros, como aqueles relacionados a clientes, reputação e aspectos regulatórios. Assim, um evento de risco operacional pode ser entendido como “um evento que faz com que o resultado real de um processo de negócio seja diferente do resultado esperado”, enfatizando a natureza errônea ou indesejável do incidente.
Quais tipos de ocorrências podem ser incluídas no escopo dos eventos de risco operacional?
O escopo dos eventos de risco operacional é bastante abrangente e pode incluir:Perdas reais: que incluem encargos diretos no resultado, custos externos, provisões e perdas.Quase perdas (near misses): são os eventos de risco operacional que ocorreram, mas não resultaram em perda. Nestes casos, a organização teve sorte, porém, como seus controles falharam, na próxima vez que esse evento acontecer, ele poderia simplesmente facilmente levar a uma perda monetária ou outras consequências não financeiras significativas.Lucros/ganhos de risco operacional.Custos de oportunidade/receitas perdidas.Impactos temporais: que são distorções financeiras, ou seja, impactos econômicos negativos registrados num determinado período fiscal devido a eventos de risco operacional, mas com impacto nos fluxos de caixa de períodos anteriores.
Quais são as etapas do ciclo de vida de um evento de risco operacional?
O ciclo de vida de um evento de risco operacional é geralmente composto por seis etapas. São elas:Primeira etapa: Identificação.Segunda etapa: Reporte.Terceira etapa: Escalamento.Quarta etapa: Análise Individual e Resolução.Quinta etapa: Análise Agregada e Comunicação à Alta Gestão.Sexta etapa: Validação.
Como ocorre a etapa de Identificação no ciclo de vida de um evento de risco operacional?
A etapa de Identificação pode ser desafiadora devido à amplitude da disciplina de risco operacional. Os eventos podem não ser facilmente identificados, tornando úteis outros canais de descoberta como: resultados das verificações de reconciliação, multas, penalidades e indenizações, reclamações de clientes e relatórios de incidentes de tecnologia.O principal mecanismo para capturar eventos de risco operacional são os próprios colaboradores. É crucial que as unidades de negócios e funções de suporte compreendam o que constitui um evento de risco operacional e saibam a quem recorrer em caso de dúvida. Ferramentas como listas de exemplos de eventos por área e treinamento contínuo e personalizado aos funcionários são essenciais para auxiliar a 1ª linha de defesa a reconhecer e identificar incidentes.
Quais são as considerações importantes na etapa de Reporte de um evento de risco operacional?
Na etapa de Reporte, os eventos devem ser comunicados dentro de um prazo definido, que pode variar entre organizações, com exemplos citados variando de 24 horas a 90 dias. É incentivado o reporte rápido para transmitir a essência do problema, mesmo que todos os fatos ainda não estejam disponíveis; o registro pode ser complementado posteriormente.Um ponto importante é que, frequentemente, a área que descobre o evento não é a que o causou. Para evitar debates sobre responsabilidade e acelerar o processo, é uma boa prática que a unidade de negócios ou função de suporte que identificou o incidente sempre o relate, independentemente de ser a causadora. A função de risco operacional pode auxiliar na moderação de eventos mais complexos envolvendo múltiplas áreas.
O que envolve a etapa de Escalamento no ciclo de vida de um evento de risco operacional?
Eventos relevantes precisam ser escalados imediatamente para evitar possíveis desdobramentos adicionais indesejáveis. No caso de inatividade tecnológica, por exemplo, clientes afetados podem recorrer às redes sociais para sinalizar a indisponibilidade do serviço. Os incidentes graves também podem exigir a rápida convocação do time de gestão de crises, que assumirá a liderança na coordenação das ações de acompanhamento.Além disso, alguns eventos de risco operacional devem ser notificados aos reguladores, dependendo das diretrizes de supervisão locais, que variam de acordo com a jurisdição. Dependendo da natureza do evento, poderão existir outros participantes na cadeia, como Recursos Humanos, Prevenção à Fraudes ou Departamento Jurídico em casos de fraude ou crime financeiro. Há vantagens em direcionar todos os eventos através da função de risco operacional, que pode servir como ponto central para determinar a escalada subsequente.
Como deve ser conduzida a etapa de Análise Individual e Resolução de um evento de risco operacional?
A etapa de Análise Individual e Resolução foca na gestão ativa do risco, indo além do simples reporte do evento. É dada muita atenção ao aspecto da coleta das informações, mas o elemento mais importante, a gestão ativa do risco, por vezes é subestimado.Os eventos de risco operacional materiais necessitam de uma análise exaustiva da causa raiz, incluindo o chamado “mergulho profundo” (deep dive) e lições aprendidas. Uma análise de evento pode ser eficazmente realizada através de uma reunião com os especialistas no assunto e as partes interessadas certas. Para auxiliar no processo, pode-se aplicar técnicas amplamente empregadas na metodologia de melhoria contínua de processos, como o 5W e o Diagrama de Ishikawa.Tão importante quanto a análise da causa raiz é a criação dos planos de ação para evitar futuras recorrências, com proprietários e datas-alvo. O departamento de Risco Operacional deve monitorizar o progresso destes planos, encaminhar para os comitês relevantes quaisquer planos que não tenham sido encerrados até a data prevista de resolução e confirmar que as melhorias de controle pretendidas realmente abordam o risco associado.
Qual o objetivo da etapa de Análise Agregada e Comunicação à Alta Gestão no ciclo de vida de um evento de risco operacional?
A etapa de Análise Agregada e Comunicação à Alta Gestão visa construir uma base sólida para uma análise mais ampla dos eventos de risco operacional. Isso é facilitado pela correta classificação dos eventos usando a categoria de taxonomia de risco e identificando-a com a principal unidade de negócios responsável ou entidade legal.O departamento de Risco Operacional tem uma visão de todos os eventos de risco operacional da organização e está em melhor posição para conduzir essa análise agregada, fornecendo informações significativas sobre o conjunto de eventos à alta administração e aos comitês apropriados. Outra técnica poderosa é apresentar tendências e descobertas às unidades de negócios e às funções de suporte, que às vezes podem sentir que os seus eventos de risco operacional relatados parecem desaparecer sem qualquer feedback de acompanhamento. Este tipo de reporte pode ser feito, por exemplo, numa sessão de revisão trimestral com cada área de 1ª linha.
Em que consiste a etapa de Validação no ciclo de vida de um evento de risco operacional?
A fase de Validação concentra-se na precisão e integridade dos dados dos eventos de risco operacional. Um processo adequado de recolhimento dos dados, e a qualidade e integridade dos dados recolhidos são cruciais para gerar resultados de capital que estejam alinhados com a exposição às perdas operacionais da organização.A etapa de validação deve incluir a reconciliação regular dos eventos de risco operacional registrados no sistema de risco com os registros contábeis. Isto garante que as perdas sejam refletidas corretamente no Balanço e, no sentido inverso, que os respectivos lançamentos do Balanço correspondem ao que está sendo captado pelo sistema de risco. Um mecanismo de certificação adicional pode ser usado, onde a 1ª linha é solicitada a atestar a integridade e a precisão dos eventos de risco operacional em um determinado período, solicitando confirmação por escrito do chefe do departamento de que não ocorreu nenhum outro incidente.
Qual é um dos principais desafios na gestão de eventos de risco operacional relacionado ao reporte?
Um dos principais desafios é a relutância em reportar os eventos de risco operacional. Este é um obstáculo real, especialmente em organizações caracterizadas por uma "cultura de culpa", onde a primeira pergunta geralmente é “quem fez isso”?A cultura de risco da organização deve garantir que os colaboradores se sintam confortáveis e capacitados para falar quando algo corre mal. Promover um ambiente sem culpa e enfatizar o valor das lições aprendidas incentivará os funcionários a levantar questões. A função de risco operacional pode ser um catalisador de mudanças positivas, proporcionando treinamento aos colaboradores sobre o valor do reporte de eventos, solicitando à alta gestão que evite reagir aos eventos com comentários negativos e concentrando-se construtivamente na abordagem da causa, em vez de nomear e envergonhar os colaboradores.
O que pode causar a falta de ação após o reporte de um evento de risco operacional e como lidar com isso?
Muitas vezes, os planos de ação definidos após o reporte de um evento de risco operacional não são executados ou concluídos devido a outras prioridades, orçamento insuficiente, apatia ou diversas outras razões. Nestes casos, as ações de melhoria ficam atrasadas e as datas previstas são prorrogadas várias vezes.Para evitar este cenário, é necessário adotar uma abordagem pragmática, diferenciando as questões menores das questões materiais. Para eventos insignificantes, as melhorias podem ser muito dispendiosas e a aceitação do risco pode ser a solução ideal. Contudo, se o evento e as ações correspondentes forem materiais, eles precisam ser tratados com o mesmo rigor que os planos de ação de auditoria interna.
Como a abordagem de "administração" em vez de gestão de riscos pode ser um desafio na gestão de eventos de risco operacional?
A abordagem de "administração" em vez de gestão de riscos torna-se um desafio quando os limites que definem a materialidade de eventos relevantes são inadequadamente baixos. Se, adicionalmente, funcionários no departamento de Risco Operacional perseguem cada evento, ação e data prevista, independentemente da materialidade, todo o exercício de gestão de eventos de risco operacional pode ser negativamente impactado.Embora seja importante ter uma abordagem disciplinada para registrar e analisar eventos, é igualmente essencial aplicar uma perspectiva baseada no risco/retorno e bom senso quando se trata de questões menores.
De que forma a falta de senso de propriedade pode dificultar a gestão de eventos de risco operacional envolvendo múltiplas áreas?
Quando múltiplas áreas estão envolvidas num evento de risco operacional, geralmente nenhuma das áreas de 1ª linha está disposta a intervir e liderar a remediação. Isso leva a uma falta de senso de propriedade, onde a responsabilidade acaba sendo continuamente transferida, comumente expresso pela frase “este evento não é meu”.Nesses casos, o departamento de Risco Operacional deve moderar a resolução, facilitando as conversas e auxiliando no acordo sobre os passos certos a seguir para remediar o evento.
Por que um formulário de reporte de eventos de risco operacional muito complexo pode ser um desafio?
Se o formulário de reporte de eventos de risco operacional for muito complicado e parecer não agregar nenhum valor, a 1ª linha de defesa irá hesitar na sua utilização. A simplificação do processo de reporte garante que, do ponto de vista do usuário, haja uma percepção de valor em comparação com o tempo e esforço investidos no preenchimento do formulário, o que é crucial para a adesão ao processo.
Qual o problema de um envolvimento desequilibrado do departamento de Risco Operacional na gestão de eventos?
Críticas são diversas vezes dirigidas ao departamento de Risco Operacional no sentido de que ele só se torna visível quando ocorre um evento de risco operacional. Enquanto a unidade de negócios está focada na investigação e resolução do incidente, a área de risco operacional pode ser percebida como acompanhando inutilmente e apenas exigindo o envio do reporte do evento.É verdade que a 2ª linha de defesa necessita estar ativamente envolvida em todas as fases do processo de gestão de eventos de risco operacional, mas este não deve ser o único momento onde há interação com a 1ª linha. A construção de relacionamentos, a compreensão das funções de cada um e o trabalho em parceria durante todo o ciclo de vida da gestão de riscos são fundamentais para a sua gestão eficaz.
O que são "quase perdas" (near misses) no contexto de risco operacional?
No contexto de risco operacional, "quase perdas" (near misses) são eventos de risco operacional que efetivamente ocorreram, mas que, por sorte ou outros fatores, não resultaram em uma perda financeira ou outras consequências negativas significativas para a organização.Apesar de não gerarem perdas imediatas, esses eventos são importantes porque indicam que os controles falharam. Se o mesmo tipo de evento ocorrer novamente, ele poderia facilmente levar a uma perda monetária ou outros impactos não financeiros relevantes.
Qual a diferença histórica na implementação de perdas operacionais e apetite a risco nas organizações?
Historicamente, as perdas operacionais foram o primeiro componente de risco operacional implementado pelas organizações. Em contraste, o conceito de apetite a risco, por exemplo, foi introduzido numa fase muito posterior na gestão de riscos das empresas.

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Victor Machado

Director, Risk Management @Mastercard | Turning risks into opportunities | Doing well by doing good