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17/04/2025

Fortalecimento da relação entre o diretor financeiro (CFO) e o comitê de auditoria (CoAud) e o papel de cada um

Explora como a colaboração entre CFO e comitê de auditoria fortalece governança e controles internos.

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O fortalecimento da relação entre o diretor financeiro, mais conhecido como Chief Financial Officer ou simplesmente "CFO", e o comitê de auditoria se tornou uma prioridade crítica para a governança corporativa contemporânea, especialmente diante do crescente grau de complexidade regulatória, tecnológica e estratégica enfrentado pelas empresas. sem falar em casos e escândalos recentes.

Doria de que a convergência entre essas duas funções do CFO e comitê de auditoria é relevante para assegurar a integridade das informações financeiras, a eficácia dos controles internos e a geração de valor sustentável para a empresa e seus stakeholders. Mas apesar de seus objetivos comuns, manter uma colaboração coesa e fluida entre essas partes tem se tornado cada vez mais desafiador, exigindo um esforço deliberado de alinhamento, comunicação e desenvolvimento conjunto de competências.

Queria então comentar neste texto do que acho que são os três pilares fundamentais que exatamente sustentam uma relação eficaz entre CFOs e comitês de auditoria, que são primero a a evolução do papel do CFO e suas implicações para liderança, talentos e competências, depois os sinais concretos de uma relação saudável entre CFO e comitê de auditoria, e por fim os riscos e impactos da rotatividade do CFO e a necessidade de robustez no planejamento sucessório e fortalecimento do pipeline de liderança financeira. E vou tentar detalhar melhor cada ponto abaixo.

A evolução do papel do CFO e suas implicações para liderança, talentos e competências

Historicamente o CFO era visto como o guardião das finanças, com foco quase exclusivo em garantir a conformidade contábil, a elaboração das demonstrações financeiras, a integridade dos números, a supervisão de auditorias internas e externas e o atendimento às exigências regulatórias. Ainda de que esse perfil clássico, centrado na contabilidade e no controle, ainda é necessário, mas já não é suficiente. O ambiente empresarial atual demanda um CFO com perfil mais abrangente e estratégico, capaz de atuar como arquiteto da estratégia organizacional, parceiro do CEO na definição de prioridades de longo prazo, e integrador de riscos emergentes com implicações financeiras e não financeiras.

Essa ampliação de escopo é impulsionada por fatores como a intensificação de riscos geopolíticos, volatilidade macroeconômica, evolução das exigências regulatórias em ESG, pressão de investidores por maior transparência e accountability, transformação digital, inteligência artificial generativa, e novos padrões de reporte climático e de sustentabilidade.

Por isto mesmo de que o CFO não apenas apoia, mas lidera projetos de inovação tecnológica, participa ativamente do gerenciamento de riscos corporativos e atua como articulador entre diferentes áreas da empresa e o conselho de administração, em que a função financeira passou a ser vista como coautora da estratégia e não apenas como sua executora contábil.

Esse novo papel exige competências que extrapolam a técnica contábil, como a gestão de talentos por exemplo, que diria que figura entre as principais capacidades demandadas, segundo membros de comitês de auditoria. Assim o CFO moderno deve ser capaz de atrair, desenvolver e reter talentos financeiros em um contexto de escassez crítica de profissionais em áreas-chave como contabilidade técnica, análise de dados, ESG e inteligência artificial.

A escassez de contadores técnicos qualificados, agravada por uma tendência de queda no número de formandos em ciências contábeis, exige estratégias proativas de formação interna e desenvolvimento de pipeline.

Por outro lado a incorporação de profissionais com perfil técnico-científico (data scientists, engenheiros ambientais, especialistas em governança de TI) exige do CFO a habilidade de liderar equipes multidisciplinares e promover cultura de colaboração entre perfis diversos.

Adicionalmente o CFO deve demonstrar compreensão profunda do modelo de negócios da empresa, do setor em que atua, de seus drivers econômicos, de seus concorrentes e das dinâmicas de mercado. A capacidade de antecipar riscos e oportunidades emergentes, como disrupções tecnológicas ou alterações regulatórias internacionais, é cada vez mais valorizada. Essa visão prospectiva é fundamental para que o CFO contribua de forma substantiva para o planejamento estratégico e a gestão do portfólio de riscos da empresa, em alinhamento com o apetite de risco definido pelo conselho.

Outro ponto crítico é a habilidade de comunicação, pois o CFO deve ser um tradutor de complexidade, capaz de converter dados financeiros e não financeiros em narrativas estratégicas compreensíveis e relevantes para diferentes públicos: conselheiros, investidores, agências de rating, analistas de mercado, órgãos reguladores e o próprio corpo gerencial interno. Essa comunicação deve ser transparente, tempestiva e contextualizada, promovendo confiança e assegurando a reputação da empresa perante seus stakeholders.

Nesse cenário, a formação técnica tradicional do CFO, baseada exclusivamente em contabilidade e finanças, já não cobre todas as exigências do cargo, aonde muitos CFOs atuais já não possuem background contábil puro e dependem de times de apoio altamente qualificados, como controllers experientes, diretores de contabilidade, especialistas em controles internos e chief audit executives (CAEs) com visão integrada de risco. O comitê de auditoria deve avaliar não apenas a competência do CFO, mas a robustez da estrutura sob sua liderança e a resiliência técnica da primeira linha de defesa da área financeira.

Sinais de uma relação saudável entre CFO e comitê de auditoria

Uma relação eficaz entre o CFO e o comitê de auditoria se constrói com base em confiança mútua, franqueza, fluidez de comunicação e clareza de papéis. O relacionamento direto entre o CFO e o presidente do comitê de auditoria é particularmente estratégico, pois é esse elo que viabiliza o alinhamento institucional em temas sensíveis, o tratamento prévio de riscos emergentes e a condução adequada de episódios críticos. A ausência desse canal direto, ou sua deterioração, é um dos principais indicadores de disfunção na governança.

Um dos pontos centrais é a transparência na comunicação de más notícias. É essencial que o CFO comunique antecipadamente e diretamente ao presidente do comitê qualquer evento adverso, como falhas em controles internos, perdas financeiras relevantes, exposições não mapeadas, investigações internas ou riscos reputacionais. Casos em que essas informações chegam ao comitê por vias indiretas, como pelo CAE, controller ou áreas jurídicas, minam a credibilidade do CFO e comprometem a confiança no relacionamento.

Outros sinais de alerta incluem hesitações ou evasivas por parte de membros da equipe financeira durante reuniões do comitê, inconsistências nas informações reportadas, ou tentativas de gerenciamento excessivo da agenda do comitê por parte do CEO, com o CFO em posição passiva. Nessas situações o presidente do comitê deve agir como aliado institucional do CFO, servindo de sounding board para discutir dilemas éticos, pressões internas ou conflitos de interesses, especialmente quando o CFO se vê pressionado a restringir o fluxo de informações ao conselho.

A cadência da comunicação entre CFO e presidente do comitê também é fundamental. Embora não exista um padrão único, boas práticas indicam contatos regulares fora do ciclo formal de reuniões, podendo variar de encontros mensais a conversas semanais, conforme a complexidade do momento. Antes de cada reunião é essencial que CFO e presidente alinhem previamente a pauta, os principais pontos críticos e os participantes estratégicos. Em casos de investigações, denúncias, reclassificações contábeis, eventos subsequentes ou falhas operacionais, reuniões extraordinárias e contatos adicionais são recomendados.

Outro ponto central é a qualidade da informação, pois o CFO deve garantir que os materiais enviados antecipadamente ao comitê sejam objetivos, claros, com destaques bem definidos sobre riscos, variações relevantes, juízos contábeis críticos e temas que demandam deliberação. O ideal é que o comitê receba esse material com pelo menos sete dias de antecedência. A sobrecarga de dados sem hierarquização ou contextualização é contraproducente. A informação deve ser orientada à decisão, e não à mera conformidade.

Rotatividade de CFO e robustez da sucessão

A alta rotatividade dos CFOs, conforme apontado pelo índice da Russell Reynolds Associates, é um fenômeno com implicações significativas de risco para empresas. O índice indica que, em 2024, a média de permanência de um CFO no cargo atingiu apenas 5,6 anos, o menor patamar em cinco anos. Esse movimento resulta de aposentadorias, promoções para CEO, reposicionamentos estratégicos por parte de conselhos em contextos de incerteza, e uma disputa crescente por CFOs experientes no mercado global.

Dado o papel transversal e estratégico do CFO, sua saída especialmente se abrupta ou não planejada pode gerar disfunções severas, como perda de continuidade estratégica, interrupção de projetos estruturantes, risco de desalinhamento regulatório e enfraquecimento da cultura de controles internos. Por isso o comitê de auditoria deve acompanhar ativamente o processo de sucessão do CFO, assegurando que ele seja estruturado, contínuo, alinhado à estratégia da empresa e baseado em critérios de competências futuras, não apenas histórico de desempenho.

Um plano de sucessão eficaz deve contemplar: mapeamento dos potenciais sucessores internos, com acompanhamento estruturado de sua evoluçãom, desenvolvimento de talentos diretos do CFO como controllers, diretores de tesouraria, diretores de planejamento financeiro, responsáveis por ESG e transformação digital, exposições cruzadas e capacitações para membros-chave da área financeira, abertura de espaço para o comitê de auditoria conhecer os candidatos potenciais, seja por meio de apresentações técnicas, reuniões temáticas ou workshops; e análise periódica de lacunas de competências e alinhamento com as exigências futuras da função financeira.

Além disso deve observar se o plano de talentos da área financeira está alinhado à estratégia corporativa, avaliando a aderência entre as competências disponíveis e os desafios estratégicos futuros. A pressão por talentos especializados, como especialistas em relato integrado, contadores com conhecimento em IFRS de sustentabilidade, profissionais de finanças com fluência digital, entre outros, exige que a empresa tenha uma abordagem proativa para atrair, desenvolver e reter esses perfis. A ausência de um plano estruturado pode colocar a empresa em desvantagem competitiva em um cenário de escassez prolongada.

À medida que CFOs e comitês de auditoria ampliam suas atribuições para responder às transformações do ambiente empresarial, a relação entre eles deve ser igualmente fortalecida, estruturada e estratégica. Esse relacionamento não deve se limitar a interações operacionais ou formais, mas deve se configurar como uma parceria de longo prazo, baseada em confiança, alinhamento de expectativas, transparência, coordenação contínua e compromisso mútuo com a integridade, a conformidade, a geração de valor e a resiliência organizacional. Fortalecer essa relação é um investimento estrutural em governança eficaz e em sustentabilidade corporativa.

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

Qual é a importância do relacionamento entre o CFO e o comitê de auditoria na governança corporativa?
O relacionamento entre o CFO e o comitê de auditoria é crucial para assegurar a integridade das informações financeiras, a eficácia dos controles internos e a geração de valor sustentável para a empresa e seus stakeholders. Esse relacionamento ganha ainda mais relevância devido ao crescente grau de complexidade regulatória, tecnológica e estratégica enfrentado pelas empresas.
Como o papel do CFO evoluiu nos últimos anos?
O papel do CFO evoluiu de guardião das finanças para um perfil mais abrangente e estratégico. O CFO moderno é visto como um arquiteto da estratégia organizacional, parceiro do CEO na definição de prioridades de longo prazo, integrador de riscos emergentes com implicações financeiras e não financeiras e líder de projetos de inovação tecnológica.
Quais são alguns dos fatores que impulsionam a ampliação do escopo do CFO?
A ampliação do escopo do CFO é impulsionada por fatores como a intensificação de riscos geopolíticos, volatilidade macroeconômica, evolução das exigências regulatórias em ESG, pressão de investidores por maior transparência, transformação digital, inteligência artificial generativa e novos padrões de reporte climático e de sustentabilidade.
Quais competências são exigidas do CFO moderno além da técnica contábil?
O CFO moderno deve possuir competências além da técnica contábil, como a gestão de talentos, habilidade de liderar equipes multidisciplinares, compreensão profunda do modelo de negócios e do setor de atuação, capacidade de antecipar riscos e oportunidades emergentes, e habilidade de comunicação para converter dados financeiros e não financeiros em narrativas estratégicas compreensíveis.
Quais são os sinais de uma relação saudável entre o CFO e o comitê de auditoria?
Uma relação saudável entre o CFO e o comitê de auditoria é construída com base em confiança mútua, franqueza, fluidez de comunicação e clareza de papéis. O relacionamento direto entre o CFO e o presidente do comitê é estratégico, facilitando o alinhamento institucional em temas sensíveis, tratamento de riscos emergentes e condução de episódios críticos. A transparência na comunicação de más notícias e contatos regulares fora do ciclo formal de reuniões também são essenciais.
Quais são os riscos e impactos da alta rotatividade dos CFOs?
A alta rotatividade dos CFOs pode gerar disfunções severas, como perda de continuidade estratégica, interrupção de projetos estruturantes, risco de desalinhamento regulatório e enfraquecimento da cultura de controles internos. A saída abrupta ou não planejada de um CFO pode ter impactos significativos na empresa.
Como o comitê de auditoria deve acompanhar o processo de sucessão do CFO?
O comitê de auditoria deve acompanhar ativamente o processo de sucessão do CFO, garantindo que ele seja estruturado, contínuo e alinhado à estratégia da empresa. O plano de sucessão deve contemplar mapeamento de potenciais sucessores internos, desenvolvimento de talentos, exposições cruzadas e capacitações, além de permitir ao comitê conhecer os candidatos potenciais por meio de apresentações técnicas, reuniões temáticas ou workshops.

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Luiz Henrique Lobo

Membro Independente de Conselhos | Comitê de Riscos da Caixa e de Auditoria da BR Partners | Consultor e Palestrante