Artigo
22/03/2025

Gestão de Risco de TI Não é Somente Sobre Gestão de Risco de TI

Explora como a gestão de risco de TI envolve aspectos estratégicos, operacionais e de resiliência organizacional.

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Ao longo da minha carreira, embora eu tenha trabalhado (e continue trabalhando) com temas relacionados à tecnologia como continuidade de negócios, riscos cibernéticos, dados, nuvem, fornecedores de TI, etc., eu estou longe de ser um especialista ou técnico em TI.

No entanto, gestores de risco não especialistas em TI, como eu, podem agregar muito valor sabendo fazer as perguntas certas, tentando entender o que acontecerá e poderá acontecer, fornecendo conselhos sobre como reduzir o risco e como manter um ambiente de TI mais estável e seguro. Com a distância entre “negócios” e “tecnologia” cada vez mais reduzida, e com a tecnologia sendo um facilitador essencial da estratégia empresarial, estas questões devem ser colocadas de forma mais ampla e transversal em todas as organizações.

Essencialmente, o risco de TI é o risco de interrupção dos sistemas de negócios ou da infraestrutura tecnológica. Ele pode ser definido como “o risco associado à falha ou interrupção de sistemas, incluindo hardware, software e redes”. Ou seja, existe uma ligação estreita entre falhas ou interrupções de sistemas e outros riscos relacionados, incluindo segurança cibernética e segurança da informação, gerenciamento de dados e planejamento de continuidade de negócios.

No centro da resiliência empresarial está a capacidade da organização de manter e fornecer tecnologias de informação e serviços de segurança confiáveis e seguros, tanto em circunstâncias normais como extraordinárias. Na verdade, a capacidade de apoiar serviços e processos organizacionais críticos e, ao mesmo tempo, adaptar-se ao ambiente de forma rápida e segura durante períodos de interrupção, não é só essencial, mas também proporciona uma vantagem competitiva distinta.

Fora do ponto de vista puramente de risco operacional, as falhas de tecnologia também podem impactar outros riscos, como o risco financeiro e regulatório (modelagem ou relatórios de liquidez, crédito, risco de mercado) e até riscos estratégicos, incluindo risco de reputação e risco socioambiental.

Essas interações são críticas para qualquer organização. Erros aparentemente simples, como uma política, processo ou controle deficiente (como a gestão de mudanças de TI, as chamadas "GMUDs") podem levar a interrupções significativas, perda de dados ou vulnerabilidades de segurança. Sem os planos adequados de continuidade e recuperação dos negócios, tanto para os sistemas como para os dados, a organização pode sofrer riscos estratégicos, de reputação ou regulatórios significativos. É claro que quanto mais sistemas legados e desatualização tecnológica, maior a complexidade e o risco.

Resiliência e Recuperabilidade

A resiliência e a recuperabilidade têm como objetivo principal o fornecimento de sistemas e dados estáveis. Sistemas sempre falharam e sempre irão falhar. Este fato não deve ser surpresa para ninguém. Através da aplicação eficaz da análise de cenários e das revisões de lessons learned (lições aprendidas), as organizações precisam compreender claramente os riscos que esses dois conceitos representam para o seu negócio, o que lhes deverá permitir, pelo menos, serem capazes de implementar os processos, sistemas, capacidades e controles corretos para evitar incidentes e para minimizar o impacto de uma falha se (e quando) ela acontecer. Nesse contexto, as primeiras três perguntas-chaves que todos deveriam fazer são:

1. “O que pode dar errado? ”;

2. Como posso minimizar a probabilidade de isso acontecer? ”; e

3. “Se der errado, com que rapidez precisamos, podemos e voltaremos a funcionar para minimizar o impacto do que aconteceu? ”.

Resiliência: minimizando a probabilidade de um incidente

Para alcançar a estabilidade em termos de tecnologia, as organizações devem considerar os seus sistemas ponta a ponta e como concebê-los e construí-los para resistir ou responder a falhas potenciais. Isso inclui:

  • Identificar, gerenciar e monitorar centralmente seus ativos (banco de dados integrado de informações de configuração e infraestrutura de TI - Configuration Management Database - CMDB);

  • Garantir que a concepção e construção de sistemas sejam resilientes e seguros (ou seja, "alta disponibilidade" e "seguros desde a concepção” - secure by design -, incluindo segmentação de rede para minimizar a escala do impacto);

  • Implementar e monitorar a adesão a políticas e procedimentos claramente definidos, com a infraestrutura e os controles corretos (automatizados sempre que possível) para gerenciar e monitorar os elementos de "execução" e "alteração" dos sistemas (incluindo a minimização do acesso humano aos sistemas em produção através da segregação de funções);

  • Garantir o investimento contínuo e adequado na manutenção dos sistemas legados (seja através da modernização, do desligamento de sistemas antigos ou da sua atualização quando se aproxima do fim da vida útil);

  • Garantir uma gestão de riscos apropriada, com supervisão, transparência e governança adequadas.

Em diferentes setores de indústria, a ‘mudança’ é de longe a causa mais comum de falhas tecnológicas. O risco de uma mudança não intencional ou mal gerida pode ser significativo. Muitas vezes, grandes mudanças planejadas são perfeitas. Meses de design e desenvolvimento, com avaliações de impacto minuciosas, testes e planos de reversão, são entregues com forte supervisão, resultando num impacto mínimo e num enorme suspiro de alívio em toda a organização.

Por outro lado, uma pequena mudança para atualizar uma peça de hardware ou implementar um patch de software pode colocar toda a organização de joelhos, especialmente quando os sistemas são mais complexos e historicamente foram mal projetados e gerenciados, e/ou não tiveram o investimento necessário.

Recuperabilidade: minimizando o impacto de um incidente

Quando as coisas dão errado, elas podem realmente dar errado. E os incidentes relacionados com a tecnologia que resultaram em impactos catastróficos ou significativos têm acontecido há muito mais tempo do que imaginamos. Num artigo muito interessante sobre desastres tecnológicos para a revista MIT Technology Review, o premiado jornalista e escritor científico Eric Scigliano discutiu 10 grandes exemplos diferentes de desastres tecnológicos que ocorreram desde 1628! (link para o artigo: https://www.technologyreview.com/2002/06/01/234859/10-technology-disasters/).

Exemplos mais recentes desde o início de 2010 incluem um terremoto e uma inundação que destruiu data centers, um fusível de ar condicionado queimado em um data center que causou superaquecimento e desligamento de servidores, certificados de software expirando inadvertidamente e provedores de infraestrutura pública cortando inadvertidamente cabos de rede críticos. Todos estes cenários tiveram um impacto material nos clientes, e a análise da causa raiz muitas vezes deixava a administração pensando: "bem, certamente isso poderia ter sido evitado".

Embora estas questões devam ser colocadas, a forma como a organização se planeja e responde a tais incidentes é importante e precisa corresponder à criticidade do serviço (e, portanto, ao apetite ao risco e ao investimento da organização). Se você dirige um negócio always on (sempre ligado), onde o tempo de inatividade é intolerável, a forma como você investe, gerencia e responde ao risco de falha tecnológica será diferente de outra organização que opera apenas em determinados horários do dia ou da semana, ou cujos serviços não são tão críticos.

Fazendo as perguntas certas

Acredito que hoje não há mais dúvidas de que a tecnologia não é mais domínio apenas dos chamados “techies”, ou especialistas em TI. Portanto, é papel fundamental dos gestores de risco não financeiro considerar o risco tecnológico de forma mais ampla, fazer as perguntas certas para garantir que a tecnologia subjacente permaneça estável e resiliente, e para que os dados estejam seguros e disponíveis durante períodos de instabilidade e também de mudança / inovação. Tudo isso leva a uma maior satisfação do cliente, maior envolvimento dos funcionários, acréscimo de valor para os acionistas e confiança regulatória.

A tabela abaixo apresenta uma lista não exaustiva das principais questões que os gestores de riscos não financeiros podem e devem fazer relacionadas com a gestão de riscos de TI:

Conclusão

Gerenciar a tecnologia e o risco tecnológico é fundamental para a resiliência operacional e a competitividade estratégica de qualquer organização. Lidar com a complexidade do passado enquanto se tenta construir uma tecnologia escalável que apoie a estratégia futura não é uma tarefa fácil (ou barata). Exige que a organização construa bases sólidas sobre as quais possa projetar, construir e implementar serviços em escala, mantendo ao mesmo tempo as capacidades atuais.

Ao fazer isso, será necessária uma racionalização do patrimôio tecnológico, podendo exigir a migração para serviços em nuvem ou uma atualização das capacidades da infraestrutura interna, a análise de processos e ferramentas através de uma visão ponta a ponta, a instituição de repositórios e redes de dados seguros, a adoção de padrões e frameworks de gestão de TI específicos, além da implementação forte gestão de riscos, controles e governança.

E no centro de tudo isso, como sempre, está a cultura de riscos. Alcançar os imperativos tecnológicos e de negócios da organização exigirá o desenvolvimento de novas competências de engenharia e arquitetura de TI nos colaboradores, mantendo ao mesmo tempo competências anteriores para lidar com a complexidade histórica e desligar os sistemas à medida que se tornam obsoletos. Além disso, exigirá também uma maior conscientização de riscos. Não só por parte do pessoal (que utiliza os sistemas e processos de suporte), mas também dos gestores de risco (que consideram os riscos de ponta a ponta decorrentes da entrega das tecnologias que suportam os produtos e serviços) e dos executivos e diretores (responsáveis pela fiscalização e entrega de valor aos acionistas).

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Perguntas e respostas

O que é risco de TI?
O risco de TI é o risco de interrupção dos sistemas de negócios ou da infraestrutura tecnológica. Pode ser definido como o risco associado à falha ou interrupção de sistemas, incluindo hardware, software e redes.
Qual é o papel dos gestores de risco não especialistas em TI?
Gestores de risco não especialistas em TI podem agregar valor ao fazer as perguntas certas, entender o que pode acontecer, fornecer conselhos sobre como reduzir riscos e manter um ambiente de TI estável e seguro. Com a tecnologia sendo um facilitador essencial da estratégia empresarial, essas questões devem ser abordadas de forma ampla em todas as organizações.
Qual a importância da resiliência empresarial no contexto de TI?
No centro da resiliência empresarial está a capacidade da organização de manter e fornecer tecnologias de informação e serviços de segurança confiáveis, tanto em circunstâncias normais quanto extraordinárias. Isso é essencial para apoiar serviços críticos, adaptar-se ao ambiente rapidamente e proporcionar uma vantagem competitiva distinta.
Como as falhas de tecnologia podem impactar outros tipos de riscos?
As falhas de tecnologia podem impactar riscos financeiros, regulatórios (como modelagem de liquidez, crédito, risco de mercado) e riscos estratégicos, incluindo risco de reputação e socioambiental.
O que são GMUDs?
GMUDs são políticas, processos ou controles de gestão de mudanças de TI que, se deficientes, podem levar a interrupções significativas, perda de dados ou vulnerabilidades de segurança.
Quais são os objetivos principais da resiliência e recuperabilidade?
Os objetivos principais são fornecer sistemas e dados estáveis, definir e implementar processos, sistemas, capacidades e controles corretos para evitar incidentes e minimizar o impacto das falhas quando ocorrerem.
Quais são as três perguntas-chave para garantir resiliência e recuperabilidade?
As três perguntas-chave são: 1. O que pode dar errado? 2. Como posso minimizar a probabilidade de isso acontecer? 3. Se der errado, com que rapidez precisamos, podemos e voltaremos a funcionar para minimizar o impacto do que aconteceu?
Como as organizações podem garantir a estabilidade dos sistemas de TI?
As organizações devem considerar seus sistemas ponta a ponta, investir na concepção e construção de sistemas resilientes e seguros, implementar e monitorar políticas e procedimentos definidos, manter investimentos nos sistemas legados e garantir gestão de riscos com supervisão e governança adequadas.
Qual é a causa mais comum de falhas tecnológicas em diferentes setores?
A mudança é de longe a causa mais comum de falhas tecnológicas. Mudanças não intencionais ou mal geridas podem ser significativas e muitas vezes mais prejudiciais que grandes mudanças planejadas.
Qual a importância da gestão de incidentes tecnológicos para a continuidade dos negócios?
A forma como a organização se planeja e responde a incidentes tecnológicos é crucial. Isso deve corresponder à criticidade do serviço, apetite ao risco e investimento, especialmente se o negócio exige alta disponibilidade, como empresas que operam em regime 'always on'.
Por que a tecnologia não é mais domínio apenas dos especialistas em TI?
A tecnologia é fundamental para todas as áreas de uma organização, e gestores de risco não financeiro precisam estar envolvidos para garantir que a tecnologia suporte os objetivos estratégicos, assegure a resiliência e segurança dos dados e sistemas, e ofereça valor e confiança regulatória.
Quais são as recomendações finais para a gestão de tecnologia e risco tecnológico nas organizações?
As recomendações incluem a racionalização do patrimônio tecnológico, migração para serviços em nuvem ou atualização da infraestrutura interna, análise de processos e ferramentas ponta a ponta, adoção de frameworks de gestão de TI, e uma forte cultura de riscos, conscientização e treinamento dos colaboradores.

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Victor Machado

Director, Risk Management @Mastercard | Turning risks into opportunities | Doing well by doing good