Artigo
01/04/2026

Quando a Confiança Vira Custo: O Efeito Sistêmico das Liquidações Bancárias no Brasil

Analisa os efeitos das recentes liquidações bancárias no Brasil sobre o sistema financeiro, custo do crédito e estabilidade econômica.

Imagem de capa do artigo

Nos últimos meses, o sistema financeiro brasileiro passou por três liquidações bancárias relevantes. Em novembro de 2025, o Banco Central liquidou o Master. Em janeiro de 2026, foi a vez do Will Bank. Em 19 de fevereiro de 2026, a autoridade monetária determinou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno. Os casos apresentam elementos de conexão e estão inseridos no mesmo contexto investigativo.

O que aconteceu?

Instituições financeiras perderam a capacidade de honrar compromissos e tiveram sua continuidade considerada inviável pelo Banco Central. Quando isso ocorre, a autarquia intervém e promove a liquidação extrajudicial. A medida tem um objetivo claro: proteger o sistema financeiro e evitar contaminação.

Onde isso acontece?

No coração do sistema bancário brasileiro.

Como funciona?

O Banco Central encerra as atividades da instituição e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) entra para ressarcir depositantes dentro dos limites legais.

Por que isso importa?

Porque o FGC é financiado pelos próprios bancos.

Ou seja, quando um banco quebra, o sistema paga. E os números são expressivos. Somados, os rombos já equivalem a 48% de todo o lucro dos quatro maiores bancos do país em 2025. Isso não é trivial. Mas o ponto mais relevante não está apenas nas instituições que caíram. Está nas que continuam operando.

O impacto além da quebra

Uma liquidação isolada pode ser absorvida pelo sistema. Três, em sequência e conectadas por um mesmo escândalo, mudam a percepção de risco. E percepção de risco é um ativo econômico. Quando investidores e depositantes percebem aumento de fragilidade, eles reavaliam decisões. Passam a exigir maior retorno para manter recursos aplicados. Passam a buscar instituições consideradas mais seguras. Esse movimento altera o equilíbrio do mercado.

O conceito de “pooling equilibrium”

Na economia da informação, existe um fenômeno chamado “pooling equilibrium”. Ele ocorre quando o mercado não consegue diferenciar empresas boas de empresas ruins. Em um cenário normal, instituições sólidas conseguem captar mais barato. As frágeis pagam mais caro.

Mas quando escândalos se tornam frequentes, a distinção fica turva. O investidor deixa de analisar caso a caso. Ele passa a generalizar. O raciocínio muda. Sai a pergunta: “Qual banco é sólido?” Entra a pergunta: “Qual pode ser o próximo?”

Nesse momento, o mercado começa a tratar todos de forma semelhante. Bons e maus passam a pagar o mesmo preço pelo risco. Esse é o pooling equilibrium. E ele é extremamente custoso.

O custo invisível da desconfiança

Quando o risco percebido aumenta, o custo de captação sobe. Bancos passam a oferecer taxas mais altas para atrair recursos. O spread aumenta. O prêmio de risco sobe.

Esse custo não fica no banco. Ele é repassado. Empresas pagam mais caro por capital de giro. Famílias pagam mais caro por financiamento. O crédito desacelera.

Menos crédito significa menos investimento. Menos investimento significa menor crescimento econômico. A confiança, quando se deteriora, vira custo macroeconômico.

Efeitos sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e o sistema bancário

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é um mecanismo de proteção importante. Ele evita pânico bancário e protege pequenos investidores.

Mas ele não é infinito. Quando os rombos crescem, os bancos precisam aumentar suas contribuições. Os bancos sólidos acabam financiando o custo das falhas de governança dos que quebraram. Isso gera um efeito distributivo relevante dentro do sistema.

Além disso, investidores tendem a migrar para instituições maiores, percebidas como mais seguras. O resultado pode ser maior concentração bancária. E concentração excessiva pode reduzir concorrência e manter spreads estruturalmente elevados.

O impacto econômico para o Brasil

1. Aumento do custo de captação

O sistema financeiro opera com base em confiança e precificação de risco. Quando o risco percebido aumenta, o mercado exige compensação maior para emprestar recursos.

Esse adicional é o prêmio de risco. Ele funciona como um “seguro” embutido na taxa de juros. Se investidores passam a enxergar maior probabilidade de inadimplência ou instabilidade, exigem taxas mais altas para aplicar em CDBs, LCIs, LCAs ou debêntures financeiras. O banco, por sua vez, precisa pagar mais para captar. Captação mais cara significa custo médio ponderado de funding mais elevado. E o custo do funding é a base de toda a estrutura de crédito.

Quando o custo do dinheiro sobe na origem, ele sobe na ponta. A intermediação financeira repassa essa elevação para empresas e famílias. Em termos econômicos, ocorre um deslocamento da curva de oferta de crédito. O crédito passa a ser ofertado a preços maiores, mesmo que a taxa básica permaneça estável. O resultado é simples: o dinheiro fica mais caro para toda a economia.

2. Crédito mais caro e mais restrito

A incerteza altera o comportamento das instituições financeiras. Bancos se tornam mais seletivos. Revisam modelos de risco. Elevam exigências de garantias. Reduzem exposição a setores considerados mais sensíveis.

Não se trata apenas de preço. Trata-se também de quantidade. O volume de crédito desacelera. A taxa de aprovação cai. O prazo médio encurta.

Esse movimento afeta diretamente o investimento produtivo. Empresas dependem de crédito para financiar expansão, inovação e capital de giro. Sem crédito adequado, projetos são adiados ou cancelados. Famílias também são impactadas. O financiamento imobiliário desacelera. O crédito ao consumo encolhe. A demanda agregada perde força.

Do ponto de vista macroeconômico, isso reduz o multiplicador financeiro. Cada real emprestado gera menos atividade econômica.

Menor crédito significa menor formação bruta de capital fixo. Menor investimento significa menor crescimento potencial do PIB. O efeito não é apenas conjuntural. Ele pode afetar a trajetória de longo prazo da economia.

3. Pressão indireta sobre juros e política monetária

A política monetária depende de canais de transmissão. Um dos principais é o canal de crédito. Quando o Banco Central do Brasil ajusta a Selic, espera que o custo do crédito acompanhe esse movimento.

Mas se o risco sistêmico aumenta, ocorre um descolamento. Mesmo com a Selic estável, o custo efetivo ao tomador sobe. Isso significa que a política monetária perde eficiência. A taxa básica deixa de ser suficiente para influenciar plenamente as condições financeiras.

Em um ambiente de maior prêmio de risco, o Banco Central pode enfrentar um dilema. Se reduz juros, o efeito pode ser parcialmente neutralizado pelo aumento do risco percebido. Se mantém juros elevados por mais tempo, pode aprofundar a desaceleração.

A instabilidade financeira, portanto, adiciona ruído à condução da política monetária. E aumenta a volatilidade das expectativas. Expectativas desancoradas elevam a incerteza. Incerteza reduz investimento. E o ciclo de crescimento se enfraquece.

4. Impacto no Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e risco moral

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é um pilar de estabilidade. Ele reduz o risco de corridas bancárias e protege pequenos depositantes. Do ponto de vista sistêmico, é um mecanismo essencial.

Mas todo sistema de garantia cria incentivos. Se investidores acreditam que sempre estarão protegidos dentro do limite legal, podem reduzir a diligência na análise das instituições onde aplicam recursos. Esse comportamento é conhecido como risco moral. Ao mesmo tempo, bancos podem assumir estratégias mais agressivas se percebem que existe uma rede de proteção institucional.

Quando eventos de liquidação se acumulam, o FGC precisa utilizar recursos. Para recompor o fundo, as contribuições das instituições participantes tendem a aumentar. Isso significa que bancos prudentes subsidiam o custo das falhas de governança de outros. No longo prazo, esse mecanismo pode gerar distorções competitivas. Instituições menores e bem geridas passam a enfrentar um custo adicional que não decorre de sua própria gestão.

5. Concentração bancária e efeito estrutural

O Brasil já possui um sistema financeiro relativamente concentrado. Em cenários de instabilidade, depositantes tendem a migrar para instituições maiores, percebidas como mais resilientes.

Surge o chamado efeito “too big to fail”. Instituições grandes passam a ser vistas como implicitamente protegidas pelo sistema.

Essa percepção altera o fluxo de depósitos e investimentos. Bancos médios e pequenos perdem participação. Os grandes ampliam sua base de funding.

Maior concentração pode reduzir a concorrência. Menor concorrência tende a manter spreads elevados no longo prazo. Além disso, pode reduzir incentivos à inovação financeira e à eficiência operacional.

O impacto estrutural pode ser mais relevante do que o valor nominal das perdas iniciais. Porque ele altera a dinâmica competitiva do setor. No médio e longo prazo, isso influencia o custo estrutural do crédito no país. E o custo estrutural do crédito influencia o potencial de crescimento da economia brasileira.

O papel da governança

Liquidações não surgem do nada. Elas são resultado de decisões mal supervisionadas, controles frágeis e falhas na gestão de risco. Governança corporativa não é burocracia. É estrutura de controle. É sistema de incentivos. É supervisão estratégica. Quando falha, o problema não fica restrito ao balanço de uma empresa. Ele atinge a confiança sistêmica.

O que está em jogo

O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, um sistema bancário considerado robusto. Mas robustez regulatória não elimina riscos de governança. A repetição de eventos em curto intervalo acende um alerta. Não apenas sobre solvência. Mas sobre qualidade de supervisão, transparência e cultura de risco. O maior risco não é o valor do rombo. É a perda gradual da capacidade do mercado de diferenciar instituições sólidas das problemáticas. Quando isso acontece, todos pagam mais caro. E o crescimento do país desacelera.

Confiança é o principal ativo do sistema financeiro. Ela não aparece no balanço. Mas sustenta todos eles. Quando a confiança enfraquece, o custo do capital sobe para todos.

A pergunta que precisamos fazer é clara: Estamos diante de episódios pontuais ou de um sinal estrutural mais profundo sobre governança no setor financeiro brasileiro?

Se o mercado entrar definitivamente em um equilíbrio de desconfiança, o impacto será difuso, persistente e macroeconômico.

Estabilidade financeira não é um tema técnico isolado. É condição essencial para o desenvolvimento do Brasil.

Fontes

  • Comunicados oficiais e atos de liquidação do Banco Central do Brasil.

  • Regulamento e informações institucionais do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

  • Lei nº 6.024/1974 (Intervenção e Liquidação Extrajudicial de Instituições Financeiras).

  • Resoluções do Conselho Monetário Nacional sobre garantia de depósitos.

  • Conceitos de economia da informação e equilíbrio de pooling (literatura de microeconomia e teoria dos contratos).

As opiniões dos autores convidados da nossa comunidade são independentes e não necessariamente representam a opinião da Okai.

Autor

Foto de perfil de Mónica Sofia Polaco Vieira

Mónica Sofia Polaco Vieira

Economista | Governança Corporativa | Finanças | Transformação | Estratégia e Desenvolvimento de Negócios | Treinamentos e Palestras in Company