Este é um tema que já abordei outras vezes por aqui, mas diante de sua relevância, nunca é demais falar sobre as matrizes de riscos, que é uma importante ferramenta de avaliação e comunicação de riscos corporativos, aonde os riscos, que são eventos possíveis que terão impacto negativo nos resultados financeiros da empresa, são alocados em uma célula de uma matriz (mapa de calor) de acordo com a "probabilidade" de ocorrência do evento (vertical) e seu "impacto" na empresa (horizontal).
Assim a análise dos riscos desta forma é comumente decomposta em frequência e consequência, que não deixar de ser uma prática lógica, pois permite gerenciar riscos reduzindo a probabilidade de ocorrência ou mitigando as consequências, caso ocorram.
Feita esta breve introdução ao tema, queria então comentar sobre alguns artigos escritos pelo Graeme Keith exatamente sobre uma nova perspectiva sobre a matriz de risco, aonde ele muito bem questiona se a matriz de risco é a melhor ferramenta para esta análise? E mais do que isto ele até sugere uma alternativa: "o plano de risco".
Ele muito bem destaca a problemática inerente às matrizes de risco, que são criticadas por sua abordagem subjetiva e a aplicação de intervalos que comprometem a avaliação precisa dos riscos. Keith argumenta que a decomposição analítica dos riscos de eventos em frequência e consequência é uma abordagem sensata.
Queria passar abaixo por alguns dos pontos dos artigos que considero mais relevantes:
Interpretação da Matriz:
A probabilidade é interpretada como a frequência esperada, ou seja, quantas vezes eventos ocorrem em média por exemplo em ano. Já o impacto é interpretado como impacto esperado condicional, ou seja, o impacto esperado sob a condição de que o evento ocorra.
Essa abordagem permite multiplicar a frequência pelo impacto para gerar um impacto esperado ponderado pela ocorrência, correspondendo ao custo médio anual desse risco.
Risco "Geral":
Seguindo esta linha de raciocínio, podemos calcular a faixa de impacto esperado representada por cada célula na matriz, aonde o problema evidente e previsível surge nas fileiras e colunas externas. Devido à frequência da linha superior ser arbitrariamente baixa (e a inferior arbitrariamente alta), torna-se impossível comparar o risco "geral", uma medida que captura tanto a frequência quanto o impacto entre as colunas nestas fileiras. Problema da escala e comparabilidade, assim como do efeito de intercorrelação que existe entre os riscos.
Ainda mais preocupante é o fato de que as faixas nas nove células centrais se sobrepõem. Por exemplo, a faixa da célula amarela 4,2 é quase idêntica à da célula vermelha 3,4. Células adjacentes têm sobreposição substancial e há até sobreposição de faixa entre células separadas por duas ou três posições.
Limitações da Matriz ao Plano "Perspicaz":
O autor Keith propõe que a insistência em intervalos decorre da crença de que raramente temos dados suficientes para definir uma frequência com confiança, e seria desonesto apresentar um único número. No entanto, ele argumenta que essa postura é equivocada, pois a incerteza real já está refletida na incerteza dos eventos descritos. Em vez de capitular diante da incerteza, devemos tratar a incerteza dos parâmetros como parte da discussão sobre como usamos dados e opiniões de especialistas para avaliar a incerteza.
Keith defende a remoção dos intervalos e a adoção de uma abordagem que exige a definição de um parâmetro de frequência para cada risco e um impacto esperado para a consequência, frequentemente requerendo um entendimento da gama de resultados e como essa gama é ponderada.
Libertando-se das Amarras e Removendo os Intervalos:
A remoção dos intervalos resolve as questões destacadas. Agregar dois riscos permite um erro de até quatro ordens de magnitude no risco geral. Devido às sobreposições e às faixas semi-infinitas nas células, uma matriz não pode ser usada para classificar ou priorizar riscos. As cinco categorias amplas desencorajam a discussão de dados e encorajam uma imprecisão subjetiva onde riscos são alocados com base na intuição, e não em dados ou expertise.
A remoção dos intervalos permite a validação e revisão das avaliações de frequência e simplifica a agregação e a priorização. A matriz de risco se torna um plano de risco, onde os riscos são posicionados verticalmente de acordo com sua frequência e horizontalmente de acordo com o impacto condicional esperado. Utilizando escalas logarítmicas, as linhas de risco geral constante são linhas retas. Podemos também ilustrar a gama completa de resultados.
Se for necessária uma matriz de risco para reportar, simplesmente podemos reincorporar as linhas. Há mais informação do que antes, pois a posição dentro de uma célula agora importa, mas a informação que estava lá antes ainda está clara para todos. No entanto, os dados básicos que coletamos e o processo que nos leva a fazer isso são fundamentalmente diferentes e abrem a porta para uma riqueza de possibilidades.
Avançando na análise proposta por Keith, quando desconsideramos os intervalos prescritos e adotamos uma metodologia que requer a definição precisa de frequência e impacto, avançamos para um modelo mais sofisticado e revelador na gestão de riscos: o plano de risco. Essa abordagem representa uma evolução significativa em relação às matrizes tradicionais, pois enfatiza a importância de parâmetros mais exatos e um entendimento mais detalhado dos riscos. Vou tentar detalhar mais:
Gestão de Riscos Baseada em Dados:
Remover as amarras dos intervalos significa que cada risco é considerado individualmente, com a sua frequência e impacto avaliados de forma precisa. Essa abordagem requer uma compreensão aprofundada dos dados históricos, padrões de ocorrência e uma análise detalhada das consequências potenciais. Ao invés de se apoiar em categorias largas e imprecisas, a gestão baseada em dados impulsiona um diálogo informado sobre riscos, fundamentado em observações concretas e na peritagem técnica.
Agilidade na Priorização de Riscos:
Ao oferecer uma análise mais granular, a abordagem do plano de risco proporciona uma ferramenta para a priorização ágil de riscos. Compreendendo a distribuição exata de frequências e impactos, os gestores podem priorizar esforços de mitigação onde serão mais efetivos. Isso se traduz em uma alocação de recursos mais eficiente, tanto em termos de capital quanto de esforços operacionais.
Comunicação e Compreensão Melhoradas:
O plano de risco mantém a acessibilidade visual da matriz enquanto fornece um meio de comunicação mais eficaz para a natureza multidimensional dos riscos. As partes interessadas podem visualizar e compreender mais facilmente o espectro dos riscos, com sua localização precisa no plano indicando a sua gravidade e frequência.
O Papel do Modelo de Monte Carlo:
Keith salienta o uso do modelo de Monte Carlo como uma poderosa ferramenta de simulação que pode ser usada para avaliar a distribuição total do impacto dos riscos. Esse método de simulação proporciona uma análise probabilística que pode capturar as nuances dos riscos, permitindo que as empresas não apenas respondam a riscos conhecidos, mas também se preparem para incertezas e variações.
Impacto Estratégico da Gestão de Riscos:
A adoção dessa metodologia quantitativa para a gestão de riscos promove uma integração mais profunda da gestão de riscos nas operações estratégicas da empresa. Ao entender como os riscos afetam o lucro operacional e outros objetivos financeiros, a gestão de riscos se torna parte fundamental da formulação de estratégias, planejamento financeiro e análise de investimentos.
Keith conclui que, embora as matrizes de risco tradicionais tenham fornecido um ponto de partida para a análise de riscos, é tempo de avançar para uma abordagem mais rigorosa e baseada em evidências. Isso não apenas vai melhorar a precisão da gestão de riscos, mas também fortalece o processo de tomada de decisões estratégicas, ajudando as empresas a se posicionarem melhor em um ambiente de negócios cada vez mais incerto e complexo.
Por fim, queria falar de cada uma das abordagens, com as desvantagens e limitações da tradicional, assim como as vantagens segundo ele desta alternativa que ele propõe:
1) Desvantagens e Limitações da Avaliação Tradicional:
Avaliação de Recompensa Potencial X Risco:
Sua limitação está na incapacidade de analisar de forma coerente o nível de risco em relação à recompensa potencial de diferentes opções de mitigação. Isso pode levar a decisões que não otimizam o equilíbrio entre o custo das medidas de mitigação e os benefícios potenciais da redução de riscos.
Na prática, isto significa que a empresa pode não ser capaz de justificar o investimento em certas medidas de segurança ou de prevenção de riscos, uma vez que não pode determinar claramente o retorno esperado desses investimentos, levando a uma alocação de recursos potencialmente ineficaz.
Agregação de Incerteza e Otimização de Contingência:
A limitação está na falta de capacidade para agregar incerteza e otimizar contingência, o que dificulta a visão global dos riscos e a resposta coordenada a múltiplas incertezas.
Sem a capacidade de compreender como diferentes riscos podem interagir e se acumular, as organizações enfrentam dificuldades em criar planos de contingência efetivos que considerem a interdependência dos riscos.
Exposição ao Risco Correlacionado no Portfólio:
A limitação está na avaliação semi-quantitativa que não consegue capturar a exposição ao risco correlacionado em todo o portfólio, o que pode levar a subestimação do risco agregado.
Em situações onde riscos distintos têm causas ou consequências interligadas, a falha em reconhecer essa correlação pode resultar em uma compreensão incompleta do impacto potencial no portfólio da empresa.
Influência dos Parâmetros-Chave e Distribuição de Recursos:
A limitação está em não considerar a influência relativa de parâmetros-chave, o que impede a distribuição estratégica de recursos.
Sem um entendimento dos fatores que mais influenciam a frequência e o impacto dos riscos, as empresas podem não ser capazes de alocar seus recursos de forma que efetivamente reduzam o risco mais significativo.
Avaliação de Investimentos e Diversidade de Riscos:
A limitação está na baixa capacidade para avaliar investimentos em relação ao seu efeito no perfil de risco devido à diversidade e correlação.
A incapacidade de avaliar como diferentes investimentos afetam o perfil geral de risco de uma organização impede uma gestão eficaz de portfólio e pode levar a surpresas desagradáveis se riscos correlacionados se materializarem simultaneamente.
2) Vantagens do Método Alternativo Quantitativo:
Mitigação de Riscos para Maximização de Retorno:
A vantagem está nas medidas de mitigação serem escolhidas e calibradas para maximizar o retorno considerando um nível de risco específico.
Isto significa que as decisões relativas a como e onde investir em mitigação são baseadas em uma análise detalhada do custo-benefício, garantindo que cada dólar gasto contribua o máximo possível para a redução de riscos.
Otimização da Contingência Através da Agregação de Riscos:
A vantagem está em que os riscos são agregados em todo o portfólio para otimizar a contingência e explorar a diversificação.
Isso permite que uma organização veja o panorama completo dos riscos e desenvolva planos de contingência que levem em conta o efeito combinado de múltiplos riscos, reduzindo a probabilidade de impactos inesperadamente altos.
Identificação e Gestão de Riscos Correlacionados:
A vantagem está em que os riscos comuns e correlacionados podem ser identificados e gerenciados de maneira apropriada.
Esta abordagem permite a identificação de riscos que compartilham causas comuns ou que estão inter-relacionados, possibilitando uma gestão de riscos mais integrada e estratégica.
Otimização de Fluxos de Trabalho e Incerteza:
A vantagem está em que os fluxos de trabalho são otimizados focando nos parâmetros que mais reduzem ou controlam a incerteza.
A atenção aos detalhes dos parâmetros mais influentes pode resultar em uma otimização dos processos e políticas internas, de modo a minimizar a incerteza e maximizar a eficiência operacional.
Avaliação de Investimentos Baseada no Impacto no Risco:
A vantagem está em que os investimentos podem ser avaliados pelo seu impacto no perfil de risco através da diversidade e correlação.
Com essa abordagem, os investimentos são analisados não apenas pelo seu retorno esperado, mas também por como eles afetam a diversificação do risco e a resiliência geral do portfólio da empresa.
Como podemos ver acima, os artigos de Keith enfatizam a importância de superar as limitações das matrizes de risco tradicionais através de uma abordagem mais refinada que alinha a análise de riscos com métodos quantitativos precisos. Ao invés de se basear em categorias amplas e subjetivas, a proposta é utilizar dados e modelos quantitativos para uma avaliação de risco mais precisa e uma gestão de risco mais eficaz e estratégica.