Legislação
16/05/2013
#258232

LEI Nº 12.813, DE 16 DE MAIO DE 2013.

Estabelece regras para prevenir e fiscalizar conflitos de interesses e uso de informações privilegiadas no Poder Executivo federal.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

CAPÍTULO I

DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 1º As situações que configuram conflito de interesses envolvendo ocupantes de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal, os requisitos e restrições a ocupantes de cargo ou emprego que tenham acesso a informações privilegiadas, os impedimentos posteriores ao exercício do cargo ou emprego e as competências para fiscalização, avaliação e prevenção de conflitos de interesses regulam-se pelo disposto nesta Lei.

Art. 2º Submetem-se ao regime desta Lei os ocupantes dos seguintes cargos e empregos:

I - de ministro de Estado;

II - de natureza especial ou equivalentes;

III - de presidente, vice-presidente e diretor, ou equivalentes, de autarquias, fundações públicas, empresas públicas ou sociedades de economia mista; e

IV - do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS, níveis 6 e 5 ou equivalentes.

Parágrafo único. Além dos agentes públicos mencionados nos incisos I a IV, sujeitam-se ao disposto nesta Lei os ocupantes de cargos ou empregos cujo exercício proporcione acesso a informação privilegiada capaz de trazer vantagem econômica ou financeira para o agente público ou para terceiro, conforme definido em regulamento.

Art. 3º Para os fins desta Lei, considera-se:

I - conflito de interesses: a situação gerada pelo confronto entre interesses públicos e privados, que possa comprometer o interesse coletivo ou influenciar, de maneira imprópria, o desempenho da função pública; e

II - informação privilegiada: a que diz respeito a assuntos sigilosos ou aquela relevante ao processo de decisão no âmbito do Poder Executivo federal que tenha repercussão econômica ou financeira e que não seja de amplo conhecimento público.

Art. 4º O ocupante de cargo ou emprego no Poder Executivo federal deve agir de modo a prevenir ou a impedir possível conflito de interesses e a resguardar informação privilegiada.

§ 1º No caso de dúvida sobre como prevenir ou impedir situações que configurem conflito de interesses, o agente público deverá consultar a Comissão de Ética Pública, criada no âmbito do Poder Executivo federal, ou a Controladoria-Geral da União, conforme o disposto no parágrafo único do art. 8º desta Lei.

§ 2º A ocorrência de conflito de interesses independe da existência de lesão ao patrimônio público, bem como do recebimento de qualquer vantagem ou ganho pelo agente público ou por terceiro.

CAPÍTULO II

DAS SITUAÇÕES QUE CONFIGURAM CONFLITO DE INTERESSES NO EXERCÍCIO DO CARGO OU EMPREGO

Art. 5º Configura conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal:

I - divulgar ou fazer uso de informação privilegiada, em proveito próprio ou de terceiro, obtida em razão das atividades exercidas;

II - exercer atividade que implique a prestação de serviços ou a manutenção de relação de negócio com pessoa física ou jurídica que tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual este participe;

III - exercer, direta ou indiretamente, atividade que em razão da sua natureza seja incompatível com as atribuições do cargo ou emprego, considerando-se como tal, inclusive, a atividade desenvolvida em áreas ou matérias correlatas;

IV - atuar, ainda que informalmente, como procurador, consultor, assessor ou intermediário de interesses privados nos órgãos ou entidades da administração pública direta ou indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

V - praticar ato em benefício de interesse de pessoa jurídica de que participe o agente público, seu cônjuge, companheiro ou parentes, consanguíneos ou afins, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, e que possa ser por ele beneficiada ou influir em seus atos de gestão;

VI - receber presente de quem tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual este participe fora dos limites e condições estabelecidos em regulamento; e    (Regulamento)

VII - prestar serviços, ainda que eventuais, a empresa cuja atividade seja controlada, fiscalizada ou regulada pelo ente ao qual o agente público está vinculado.

Parágrafo único. As situações que configuram conflito de interesses estabelecidas neste artigo aplicam-se aos ocupantes dos cargos ou empregos mencionados no art. 2º ainda que em gozo de licença ou em período de afastamento.

CAPÍTULO III

DAS SITUAÇÕES QUE CONFIGURAM CONFLITO DE INTERESSES

APÓS O EXERCÍCIO DO CARGO OU EMPREGO

Art. 6º Configura conflito de interesses após o exercício de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal:

I - a qualquer tempo, divulgar ou fazer uso de informação privilegiada obtida em razão das atividades exercidas; e

II - no período de 6 (seis) meses, contado da data da dispensa, exoneração, destituição, demissão ou aposentadoria, salvo quando expressamente autorizado, conforme o caso, pela Comissão de Ética Pública ou pela Controladoria-Geral da União:

a) prestar, direta ou indiretamente, qualquer tipo de serviço a pessoa física ou jurídica com quem tenha estabelecido relacionamento relevante em razão do exercício do cargo ou emprego;

b) aceitar cargo de administrador ou conselheiro ou estabelecer vínculo profissional com pessoa física ou jurídica que desempenhe atividade relacionada à área de competência do cargo ou emprego ocupado;

c) celebrar com órgãos ou entidades do Poder Executivo federal contratos de serviço, consultoria, assessoramento ou atividades similares, vinculados, ainda que indiretamente, ao órgão ou entidade em que tenha ocupado o cargo ou emprego; ou

d) intervir, direta ou indiretamente, em favor de interesse privado perante órgão ou entidade em que haja ocupado cargo ou emprego ou com o qual tenha estabelecido relacionamento relevante em razão do exercício do cargo ou emprego.

Art. 7º (VETADO).

CAPÍTULO IV

DA FISCALIZAÇÃO E DA AVALIAÇÃO DO CONFLITO DE INTERESSES

Art. 8º Sem prejuízo de suas competências institucionais, compete à Comissão de Ética Pública, instituída no âmbito do Poder Executivo federal, e à Controladoria-Geral da União, conforme o caso:

I - estabelecer normas, procedimentos e mecanismos que objetivem prevenir ou impedir eventual conflito de interesses;

II - avaliar e fiscalizar a ocorrência de situações que configuram conflito de interesses e determinar medidas para a prevenção ou eliminação do conflito;

III - orientar e dirimir dúvidas e controvérsias acerca da interpretação das normas que regulam o conflito de interesses, inclusive as estabelecidas nesta Lei;

IV - manifestar-se sobre a existência ou não de conflito de interesses nas consultas a elas submetidas;

V - autorizar o ocupante de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal a exercer atividade privada, quando verificada a inexistência de conflito de interesses ou sua irrelevância;

VI - dispensar a quem haja ocupado cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal de cumprir o período de impedimento a que se refere o inciso II do art. 6º , quando verificada a inexistência de conflito de interesses ou sua irrelevância;

VII – dispor, em conjunto com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, sobre a comunicação pelos ocupantes de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal de alterações patrimoniais relevantes, exercício de atividade privada ou recebimento de propostas de trabalho, contrato ou negócio no setor privado; e

VIII - fiscalizar a divulgação da agenda de compromissos públicos, conforme prevista no art. 11.

Parágrafo único. A Comissão de Ética Pública atuará nos casos que envolvam os agentes públicos mencionados nos incisos I a IV do art. 2º e a Controladoria-Geral da União, nos casos que envolvam os demais agentes, observado o disposto em regulamento.

Art. 9º Os agentes públicos mencionados no art. 2º desta Lei, inclusive aqueles que se encontram em gozo de licença ou em período de afastamento, deverão:

Art. 9º Os agentes públicos mencionados no art. 2º deverão: (Redação dada pela Medida Provisória nº 792, de 2017) (Vigência encerrada)

Art. 9º Os agentes públicos mencionados no art. 2º desta Lei, inclusive aqueles que se encontram em gozo de licença ou em período de afastamento, deverão:

I - enviar à Comissão de Ética Pública ou à Controladoria-Geral da União, conforme o caso, anualmente, declaração com informações sobre situação patrimonial, participações societárias, atividades econômicas ou profissionais e indicação sobre a existência de cônjuge, companheiro ou parente, por consanguinidade ou afinidade, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, no exercício de atividades que possam suscitar conflito de interesses; e

II - comunicar por escrito à Comissão de Ética Pública ou à unidade de recursos humanos do órgão ou entidade respectivo, conforme o caso, o exercício de atividade privada ou o recebimento de propostas de trabalho que pretende aceitar, contrato ou negócio no setor privado, ainda que não vedadas pelas normas vigentes, estendendo-se esta obrigação ao período a que se refere o inciso II do art. 6º .

Parágrafo único. As unidades de recursos humanos, ao receber a comunicação de exercício de atividade privada ou de recebimento de propostas de trabalho, contrato ou negócio no setor privado, deverão informar ao servidor e à Controladoria-Geral da União as situações que suscitem potencial conflito de interesses entre a atividade pública e a atividade privada do agente.

CAPÍTULO V

DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 10. As disposições contidas nos arts. 4º e 5º e no inciso I do art. 6º estendem-se a todos os agentes públicos no âmbito do Poder Executivo federal.

Art. 11. Os agentes públicos mencionados nos incisos I a IV do art. 2º deverão, ainda, divulgar, diariamente, por meio da rede mundial de computadores - internet, sua agenda de compromissos públicos.    (Regulamento)

Art. 12. O agente público que praticar os atos previstos nos arts. 5º e 6º desta Lei incorre em improbidade administrativa, na forma do art. 11 da Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992, quando não caracterizada qualquer das condutas descritas nos arts. 9º e 10 daquela Lei.

Parágrafo único. Sem prejuízo do disposto no caput e da aplicação das demais sanções cabíveis, fica o agente público que se encontrar em situação de conflito de interesses sujeito à aplicação da penalidade disciplinar de demissão, prevista no inciso III do art. 127 e no art. 132 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, ou medida equivalente.

Art. 13. O disposto nesta Lei não afasta a aplicabilidade da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, especialmente no que se refere à apuração das responsabilidades e possível aplicação de sanção em razão de prática de ato que configure conflito de interesses ou ato de improbidade nela previstos.

Art. 14. (VETADO).

Art. 15. (VETADO).

Brasília, 16 de maio de 2013; 192º da Independência e 125º da República.

DILMA ROUSSEFF
Miriam Belchior
Jorge Hage Sobrinho

Este texto não substitui o publicado no DOU de 17.5.2013 e retificado em 20.5.2013

*

Perguntas e respostas

Quais situações configuram conflito de interesses após o desligamento do cargo?
Após deixar o cargo, há conflito se o ex-agente:
1. Em qualquer tempo, divulgar ou usar informação privilegiada obtida no cargo;
2. Nos seis meses seguintes (quarentena), salvo autorização da Comissão de Ética Pública ou CGU:
  a) Prestar serviços a pessoa com quem manteve relacionamento relevante em razão do cargo;
  b) Aceitar cargo de administrador, conselheiro ou vínculo profissional em área relacionada à antiga competência;
  c) Celebrar contratos de serviço, consultoria ou similares com o órgão onde atuou;
  d) Intervir em favor de interesse privado perante o órgão onde trabalhou ou com o qual teve relacionamento relevante.
Que declaração anual os agentes públicos abrangidos precisam apresentar?
Devem encaminhar à Comissão de Ética Pública ou à CGU, conforme o caso, declaração anual contendo informações sobre situação patrimonial, participações societárias, atividades econômicas ou profissionais e dados sobre cônjuge, companheiro ou parentes até o 3º grau que atuem em atividades potencialmente conflitantes.
Qual é o período de impedimento (quarentena) previsto para certas atividades após a saída do cargo?
O ex-ocupante deve observar um intervalo de seis meses a partir da dispensa, exoneração, destituição, demissão ou aposentadoria para realizar as atividades listadas no art. 6º, salvo autorização expressa da Comissão de Ética Pública ou da CGU.
O conflito de interesses depende de causar prejuízo ao patrimônio público ou gerar vantagem ao agente?
Não. A lei afirma que a ocorrência de conflito de interesses inde­pende de existir lesão ao patrimônio público ou de haver qualquer ganho para o agente ou para terceiros.
Quais são as sanções previstas para quem pratica atos de conflito de interesses?
A prática dos atos listados nos arts. 5º e 6º configura ato de improbidade administrativa conforme o art. 11 da Lei nº 8.429/1992. Além disso, o agente pode sofrer demissão, nos termos dos arts. 127 III e 132 da Lei nº 8.112/1990, sem prejuízo de outras sanções aplicáveis.
Quais são exemplos de situações que configuram conflito de interesses durante o exercício do cargo?
A lei menciona, entre outras, as seguintes práticas:
• Divulgar ou usar informação privilegiada em benefício próprio ou de terceiro;
• Manter negócios com quem tenha interesse em decisões do agente ou de colegiado que ele integre;
• Exercer atividade incompatível com as atribuições do cargo;
• Atuar como procurador, consultor ou intermediário de interesses privados perante órgãos públicos;
• Praticar ato que beneficie pessoa jurídica da qual o agente ou parente até terceiro grau participe;
• Receber presente de quem tenha interesse em decisões suas ou de colegiado, fora dos limites regulamentares;
• Prestar serviços, mesmo eventuais, a empresa controlada, fiscalizada ou regulada pelo órgão ao qual está vinculado.
O que é conflito de interesses, segundo a Lei nº 12.813/2013?
Conflito de interesses é a situação gerada pelo confronto entre interesses públicos e privados que possa comprometer o interesse coletivo ou influenciar, de maneira imprópria, o desempenho da função pública.
Quem fiscaliza e avalia possíveis conflitos de interesses no Poder Executivo federal?
A competência é compartilhada entre a Comissão de Ética Pública e a Controladoria-Geral da União, que podem: estabelecer normas preventivas, avaliar casos concretos, autorizar atividades privadas, dispensar quarentena e fiscalizar a divulgação de agendas públicas. A Comissão atua em casos que envolvam os agentes dos incisos I a IV do art. 2º, e a CGU nos demais.
Como a Lei nº 12.813/2013 define "informação privilegiada"?
Trata-se de informação relativa a assuntos sigilosos ou relevante para a tomada de decisões no âmbito do Poder Executivo federal, com repercussão econômica ou financeira, que ainda não seja de amplo conhecimento público.
Quais ocupantes de cargo ou emprego estão sujeitos ao regime da Lei nº 12.813/2013?
Estão submetidos:
1. Ministros de Estado;
2. Cargos de Natureza Especial ou equivalentes;
3. Presidentes, vice-presidentes e diretores (ou equivalentes) de autarquias, fundações públicas, empresas públicas ou sociedades de economia mista;
4. Cargos do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores (DAS) níveis 6 e 5 ou equivalentes.
Além desses, qualquer agente cujo cargo dê acesso a informação privilegiada capaz de gerar vantagem econômica ou financeira também se enquadra.
Que obrigações têm os agentes públicos para prevenir ou esclarecer conflitos de interesses?
Devem agir para prevenir ou impedir o conflito e resguardar informação privilegiada. Em caso de dúvida, devem consultar a Comissão de Ética Pública ou a Controladoria-Geral da União (CGU). Além disso, precisam anualmente enviar declaração patrimonial e comunicar exercícios ou propostas de atividade privada que possam gerar conflito.
Quem deve divulgar a agenda de compromissos públicos diariamente na internet?
Os agentes públicos enquadrados nos incisos I a IV do art. 2º (ministros, cargos de natureza especial, dirigentes de entidades e titulares de DAS 6 e 5) são obrigados a tornar pública, diariamente, sua agenda de compromissos na internet.

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