Com reportagem de Adriana Nicacio e Gustavo Gantois
Meirelles diz que o Brasil terá um longo ciclo de expansão se não houver retrocessos
O que determinou o grau de investimento?
A aplicação consistente e sem hesitação do regime de metas de inflação, do câmbio flutuante e do superávit primário. O importante são as palavras consistência e rigor. Além do mais, zeramos o endividamento cambial.
Por que isso era tão importante?
O Brasil tinha quase 40% da dívida doméstica indexada ao dólar, além da dívida externa. Com isso, tínhamos um circulo vicioso. Quando havia turbulências no mercado cambial, isso aumentava a dívida pública em relação ao PIB, o que causava preocupação com relação à solvência do setor público. Isso gerava uma maior saída de recursos, o que desvalorizava mais a moeda. Hoje, nós somos um credor líquido em moeda externa.
Quando o sr. tomou esta decisão, pesou a experiência como banqueiro?
Sim, nos meios financeiros internacionais, isso é conhecido como pecado original. Éramos um país que não conseguia se endividar na própria moeda.
Como gestor, como o sr. define rigor?
É estar à frente da curva. Não cair na tentação de fazer o mínimo possível. Veja o caso da inflação. Em maio de 2002, ela bateu em 17%. Tempos depois, quando nós agimos, um empresário me disse: “Henrique, você vai criar a maior crise da história do País.” Então, eu disse a ele: “Quando você se convenceu de que o presidente Lula ia ganhar a eleição, concluiu que ele adotaria uma política monetária frouxa e se preparou para isso. Foi um erro. A inflação está caindo e você tem um estoque caro. Se você estivesse em outro país, assumiria o prejuízo. Mas o primeiro passo da sua estratégia é me intimidar. Eu vou lhe adiantar que isso não vai funcionar. Aí você vai trabalhar pela minha demissão. Na minha avaliação, você corre um grande risco de fracassar.”
Passado o fogo amigo, quais são os próximos desafios da economia brasileira?
Uma das discussões que vejo no Brasil é que, quando um governante começa a adotar um modelo vencedor, existe uma argumentação de que é um mero continuísmo. Uma coisa que ouvi de analistas internacionais na época de instabilidade é que o brasileiro tem a impressão de que deve a cada dia reiventar a roda.
O feijão-com-arroz não basta?
Não é bem arroz com feijão, que é uma dieta que faz a pessoa sobreviver, mas é insuficiente. Uma dieta completa é mais rica. Existe esta idéia de que a boa política é nova. Isso gera imprevisibilidade e medidas malfeitas.
Qual deve ser o próximo objetivo do País?
Não ficar limitado à política monetária, tem que ir além. Como nós tivemos algumas décadas de crise monetária, cambial e fiscal, nós temos uma tentação de continuarmos discutindo este assunto. Vamos começar com a política monetária. O sistema de metas de inflação foi aplicado com sucesso no Brasil, mostrou que funciona. A mesma coisa na política cambial, com reservas elevadas. Isso não muda.
Dito isso, quais são os próximos passos?
Vamos começar com as grandes questões nacionais: investimento em infra-estrutura, educação, aumento da poupança, do investimento privado. O Banco Central tem que continuar não procurando novas missões.
Como o sr. vê a discussão do fundo soberano?
Eu tenho duas normas pessoais. Eu não discuto decisão futura. E, segundo, eu não fico comentando possíveis decisões de outras áreas.
Seu grande trabalho no BC já foi feito?
Não há dúvida de que hoje nos podemos dizer que estamos em velocidade de cruzeiro.
Isso o levará a buscar novos desafios?
Se acontecer, você vai saber na hora certa.
Há uma especulação hoje no jornal Correio Braziliense de que o sr. já comunicou ao presidente que vai deixar o BC. Isso procede?
Outra norma que eu tenho é não comentar boato. O fato de ser publicado não significa que deixa de ser boato. Notícia publicada que não tem fonte para mim continua sendo boato. Não acho adequado a um presidente do Banco Central ficar desenvolvendo planos futuros.
No passado, o sr. dizia que sonhava até com a Presidência da República.
Eu nunca disse que eu pretendia ser candidato a um cargo ou outro, a não ser ao que eu fui. O que eu tinha era uma decisão de me dedicar à vida pública, até com certa ansiedade. O presidente Lula me deu a oportunidade aqui no BC e eu dei minha contribuição. Então, neste aspecto, eu já cumpri o meu sonho.
Mas essa política econômica ainda não tem um herdeiro claro?
O grau de investimento é resultado de uma conquista do País em diversas áreas. O Banco Central é uma delas. Mas o desempenho do Brasil de entregar um superávit fiscal todos esses anos foi fundamental. O fato de o Brasil estar crescendo também é vital. Um país que não consegue crescer não pode ser investment grade. Portanto, gostaria de deixar bem claro que cada um tem o seu papel.
O fato de a sua experiência pública ter se dado no governo do PT a torna mais rica?
A minha experiência tem sido gratificante, interessante e desafiante. O presidente Lula, aliás, é o maior responsável pelo investment grade, como líder que é. O trabalho com ele é muito bom. Temos relações pessoais excelentes e ambos temos honrado nossos compromissos e compartilhado a experiência de criar um novo modelo de crescimento para o Brasil. Ele passa por uma administração econômica racional, que usa os mecanismos mais modernos para fazer com que a economia produza de forma mais eficiente e o use parte dos recursos na distribuição da renda. Portanto, é um modelo que eu considero vencedor para a América Latina.
Muitos dizem que o Brasil está entrando num longo ciclo de crescimento. Verdade?
Pode ser, não será necessariamente. Qual é o grande risco de não ser? É o retrocesso. É a busca do atalho. O Brasil deve aprender com os erros dos outros – e com os próprios também – para evitálos. A outra coisa que eu acrescentaria é aprender com os acertos também – e isso inclui os próprios.
Quem pode representar essa política vencedora na disputa presidencial em 2010?
A política é a política do presidente Lula, não é a política de um ou de outro ministro. E, portanto, suponho que diversas pessoas poderiam representar a continuidade em 2010.