Passados os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro, prevalece a preocupação com os rumos da articulação política necessária para aprovar a reforma da previdência e outras medidas para que país retome o crescimento. Essa é a avaliação de Eduardo Mufarej e Humberto Laudares, do movimento RenovaBR - iniciativa que seleciona e capacita novas lideranças para a política brasileira - durante entrevista conduzida pela jornalista Natuza Nery no 10º Congresso ANBIMA de Fundos de Investimento, nesta quarta-feira, 24.
A jornalista Natuza Nery e os membros do movimento RenovaBR Eduardo Mufarej e Humberto Laudares
Nem a aprovação da proposta de reforma na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, ocorrida ontem, foi vista como um sinal de que agora as coisas caminharão: “já se passaram 100 dias e não há outra prioridade do governo, além da reforma”, questionou Laudares. Para ele, essa é uma evidência de que o governo está titubeando na sua relação com o Congresso, o que pode representar um risco para as futuras pautas.
Mufarej considera que as relações entre governo e Congresso têm sido marcadas pelo antagonismo. O que vem pesando contra o entendimento é o cerco à chamada velha política, baseada na distribuição de cargos a pessoas sem qualificação técnica.
Embora considere que essa prática antiga do “toma lá dá cá” tenha que acabar, Mufarej disse que isso não significa que não possa haver nenhuma indicação política. Como os deputados são eleitos nos municípios, que em sua grande maioria não têm viabilidade econômica e dependem de emendas parlamentares, grande parte do trabalho deles é o de repassar verbas do governo federal para alocar em investimentos em seus estados e municípios.
“Se não for possível discutir com o governo e destravar esses recursos, os parlamentares vão ter menos propensão a apoiar pautas do governo”, explicou. “É muito difícil negociar com o Congresso sem ter nada para oferecer, apenas com base no convencimento”, afirmou Mufarej.
Laudares considera que, para fazer as agendas avançarem, será necessária a mudança no governo e na sua comunicação. No presidencialismo, é preciso que o presidente negocie agendas com Congresso. “Isso é muito preocupante. A gente está com uma crise de liderança. O momento hoje não é de muito otimismo em relação a temas do país ou em relação ao parlamento”, disse.
A solução, acredita, passa por quatro itens: uso das mídias sociais por parte do governo para comunicar a reforma da previdência; assunção do protagonismo do presidente para a aprovação da reforma; negociação com o Congresso da agenda com as próximas medidas; e concessão de autonomia para que os articuladores da reforma toquem as negociações de maneira tranquila. “Precisamos de mais informação e debate”, declarou Laudares.