No início da década de 1990, a inflação mensal atingiu valores superiores a 80%. Na prática, isso significava que o poder de compra dos salários se reduzia quase à metade após 30 dias. Isso mesmo: o dinheiro necessário para a compra de 2kg de carne, após 30 dias, só permitia a compra de pouco mais de 1kg. O resultado dessa desvalorização acelerada da moeda era visto nos supermercados no começo de cada mês: famílias com carrinhos lotados e longas filas.
Comprar e estocar alimentos e itens de necessidade básica era a estratégia utilizada para tentar driblar a elevação constante de preços. Os comerciantes também tiveram que se adaptar, organizando a logística de recebimento e de distribuição de produtos para atender à demanda intensa nos primeiros dias do mês – e corredores praticamente vazios nas semanas seguintes.
Esse cenário mudou completamente após a implementação do real, em 1º de julho de 1994. A nova moeda trouxe estabilidade de preços e alterou hábitos de consumo no país: a correria para pegar mercadorias antes que fossem remarcadas, as compras do mês estocadas em freezers e despensas, as longas filas em postos de gasolina para abastecer o carro antes de reajustes, as dificuldades para planejar a compra de um imóvel ou uma viagem, as visitas quase diárias a agências bancárias para garantir a movimentação de investimentos financeiros, o uso de cheques para fazer pagamentos após as 16h – como o desconto seria feito apenas no dia seguinte, o emissor podia ganhar com a transação. Tudo isso deixou de fazer parte da rotina dos brasileiros com o real.
A inflação funciona como um imposto sobre a posse da moeda. Isso significa que, quando a inflação aumenta, o poder de compra diminui. A elevação do custo de vida provocada pela alta de preços reduz a quantidade de bens e serviços que o salário mínimo pode comprar, por exemplo, e esse fato explica porque a inflação é especialmente prejudicial para as faixas mais pobres da população – que geralmente não têm como fazer investimentos para proteger seus recursos.
Altamir Lopes, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, explica que a inflação desorganiza o sistema econômico, dificulta o planejamento empresarial, levando à inibição do investimento e, consequentemente, à redução do crescimento, à diminuição da renda e ao aumento do desemprego.
“O desgaste do poder de compra pelo fenômeno inflacionário mede a dimensão do que se convencionou chamar de imposto inflacionário, que é o ganho obtido pelo governo ao emitir mais dinheiro para financiar seus gastos. O aumento no volume de moeda em circulação pressiona a inflação, e os efeitos são mais perceptíveis pelos mais pobres, que retiram a receita apenas de salário. A inflação, impondo deterioração ao poder de compra, cobra suas consequências mais perversas de quem não tem acesso a aplicações financeiras defensivas. Um ambiente de inflação baixa é mais propício à manutenção do poder de compra dos mais pobres”, afirma Lopes.
Como proteger o dinheiro?
Em dezembro de 1990, o número de contas bancárias no país atingiu 16.701.135, ante uma população que se aproximava de 146 milhões de pessoas. Isso significa que pouco mais de 10% da população brasileira tinha acesso a serviços bancários, um percentual baixo quando pensamos que, atualmente, 86,5% dos brasileiros com 15 anos ou mais possuem conta bancária.
Para garantir o rendimento dos investimentos, muitos correntistas iam aos bancos diariamente porque o dinheiro parado perdia valor rapidamente. As aplicações de curto prazo eram as mais utilizadas e as operações de compra e venda de títulos públicos pelo prazo de uma noite, conhecidas como
overnight, tornaram-se símbolo de uma época superinflacionária.
Atualmente, ainda existem aplicações financeiras com rendimento diário, mas, em um cenário em que a
taxa básica de juros da economia (Selic) se encontra no mesmo patamar – 6,5% ao ano, o menor valor histórico – há mais de 12 meses, os investidores possuem maior liberdade na hora de decidir onde aplicar seus recursos. Além disso, desde o final da década de 1990, o BC tem atuado no sentido de tornar o sistema financeiro mais eficiente e mais acessível à população brasileira em geral.