Notícia
30/11/2020

Congresso 2020: Mohamed El-Erian comenta perspectivas para o mercado no encerramento, em dia que discute também a internacionalização dos investimentos e a atuação do BNDES na crise

Mohamed El-Erian comenta perspectivas do mercado pós-Covid-19 e discute internacionalização dos investimentos e atuação do BNDES na crise.


São Paulo, 30 de novembro de 2020 – Uma recuperação econômica profundamente desigual entre os países e em formato de raiz quadrada – queda forte, alta e depois um platô longo de estabilidade. É este o cenário traçado por Mohamed El-Erian, presidente do Queen’s College (Universidade de Cambrige) e conselheiro econômico da Allianz, ao comentar as perspectivas dos mercados pós-Covid-19. Mohamed El-Erian fechou, num painel moderado pelo presidente da B3, Gilson Finkelsztain, o último dia de palestras do Congresso Brasileiro de Mercado de Capitais, evento realizado em conjunto pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) e pela B3.

Para El-Erian, o mercado terá, daqui em diante, uma vulnerabilidade gigantesca. “Países como Brasil, México e outros emergentes precisam absorver uma mudança de liquidez que pode ocorrer rapidamente. No fim das contas, para passar desta jornada e se beneficiar do destino final, só tendo resiliência para superar o momento ruim e voltar de cabeça em pé”, comenta o executivo. Ele se referia à instabilidade no fluxo global de recursos na direção dos emergentes: “esses dólares não são residentes, são turistas e, como todo turista que curte lugar ensolarados, se as condições mudam ele vai embora”, compara.

Apesar do ano difícil, o mercado de ações de 2020 marca um recorde de IPOs (ofertas públicas iniciais de ações), conforme lembra Finkelsztain, ao falar sobre os juros de 2% ao ano e com taxas reais negativas. “Muitas gerações nunca viram juros neste patamar, o que empurra para cima todo o mercado de capitais. Foram 25 IPOs no Brasil, um recorde, mas ainda não vimos a volta do investidor estrangeiro”, comenta.

O Brasil tem motivos para comemorar. Segundo El-Erian, mesmo com os juros caindo tanto, não houve um colapso da intermediação financeira nem setores permanentemente afetados por aqui. “No câmbio, a relação de R$ 6 por dólar não gerou uma crise ou quebradeira de empresas. A capacidade do Brasil de enfrentar toda esta flutuação nos últimos 12 meses é algo muito importante”, afirma. Sobre o lento retorno do estrangeiro, El-Erian afirma apenas que o Brasil “não se vende muito bem, não faz boas sinalizações que são demandadas pelo estrangeiro”, avalia.

A política de estímulos monetários adotada pelos bancos centrais ao longo do ano, na opinião do presidente da B3 e de El-Erian, em algum momento será revista, mas ambos não visualizam quando isto ocorrerá. “Hoje riscos estão se acumulando, mas toda vez que Banco Centrais deram um passo atrás os mercados reagiram mal. A única forma de os Banco Centrais começarem o caminho de volta é se a situação melhorar rapidamente impactando no preço dos ativos”, comenta El-Erian. “E não vejo isto no curto prazo.”


BDRs impulsionam internacionalização do investidor de varejo

A mudança estrutural no patamar de juros levou o investidor de varejo a diversificar a carteira em busca de melhores retornos. Em 2020, a principal novidade é que essa estratégia foi além das fronteiras brasileiras. Com a publicação da Resolução CVM 3, em agosto, pessoas físicas passaram a ter acesso a recibos de ações de empresas estrangeiras negociados na bolsa local, os chamados BDRs (Brazilian Depositary Receipts). E esse é só o começo de um processo de internacionalização que promete decolar nos próximos anos.

“Os juros baixos causam transformações comportamentais e o processo de diversificação é inescapável para todo o espectro de investidores. O momento é favorável para a incorporação de ativos internacionais na construção de portfólios, ajudando qualquer perfil de investidor a atingir seus objetivos”, afirma Carlos André, vice-presidente da ANBIMA. Ele participou de um painel sobre a “Internacionalização do Mercado Brasileiro” no último dia do Congresso.

Os BDRs caíram no gosto dos investidores pouco mais de um mês após a regra da CVM entrar em vigor. Antes da liberação para o público do varejo, a média de negócios com BDRs na bolsa brasileira era de 1,4 mil por dia, com um volume financeiro de R$ 84 milhões. Hoje, são em média 23 mil negócios diários, com giro financeiro de R$ 220 milhões.

O número de investidores acompanha esse movimento: saltou de 13 mil para 50 mil – atualmente, são 670 BDRs de ações internacionais disponíveis para o varejo. A resolução beneficiou também os emissores e permitiu que eles alcançassem novos bolsos, aponta Flavia Mouta, diretora de Emissores da B3. “Isso porque os papéis de empresas brasileiras que optaram pela listagem no exterior também podem ser negociados no mercado brasileiro por meio de BDRs”, diz.

A expectativa é que novos produtos que facilitem o acesso local a ativos no exterior estejam à disposição dos investidores nos próximos meses. Uma das novidades desembarca nesta segunda-feira (30), com o lançamento de 37 novos BDRs de ETFs (Exchange Traded Funds) na B3. Na prática, são recibos de ações com lastro em fundos que acompanham o desempenho de um índice.

Carlos André lembra que o movimento de internacionalização do mercado brasileiro é um fenômeno recente, com regras datadas de 2008. As alocações no exterior, entretanto, começaram efetivamente em 2013, com investidores institucionais, como os fundos de pensão, buscando ativos internacionais para diversificar seus portfólios. A meta, a partir de agora, é ampliar cada vez mais o cardápio de aplicações no exterior para diferentes públicos, incluindo o investidor de varejo. “Não dá para ‘condenar’ o investidor não-qualificado a rentabilidades menores por falta de acesso a ativos e instrumentos que permitam uma alocação ótima do portfólio”, diz.

Ele comenta que a ANBIMA apresentou à CVM propostas de flexibilização das regras dos fundos para garantir maior acesso desses veículos a ativos internacionais. Entre elas estão: permitir que os fundos apliquem até 100% em ativos que possam ser lastreados por BDRs e dar acesso ao varejo para os fundos que tenham 67% do patrimônio no exterior – seguem regras específicas da Instrução CVM 555 –, retirando a exclusividade do qualificado. Além disto, pelas regras atuais, fundos voltados ao investidor de varejo podem alocar até 20% do patrimônio líquido em ativos no exterior, enquanto aqueles destinados aos investidores qualificados podem aplicar até 40%. A sugestão é aumentar os limites para 40% e 60%, respectivamente.

O processo de internacionalização do mercado brasileiro passa também pela criação de um ambiente propício para a atração do investidor estrangeiro. Nesse cenário, é primordial desobstruir os canais de acesso, o que significa derrubar barreiras (operacionais, tributárias e cambiais) e criar regras mais amigáveis que possibilitem que fundos soberanos, gestoras de recursos e até pessoas físicas enxerguem o Brasil como um mercado atrativo entre os países emergentes.

Marcus Vinicius Gonçalves, CEO da gestora de ativos Franklin Templeton, citou o Projeto de Lei 5.387, que moderniza o mercado de câmbio e revoga algumas leis da década de 1920. “Temos um arcabouço legal arcaico e anacrônico. Sempre fomos um país muito isolado e, com a oportunidade apresentada por essa grande liquidez global, o Brasil deveria aproveitar a chance para se inserir nas cadeias globais. Hoje competimos com asiáticos como Malásia, Singapura e Tailândia, que têm regulação amigável e regras de câmbio transparentes. Precisamos tornar as coisas mais simples e amigáveis”, opina.

BNDES muda estratégia e concentra esforços nas MPMEs

Gustavo Montezano, presidente do BNDES, também participou do último dia do Congresso e contou que na hora de prestar socorro e amenizar os impactos da pandemia no mercado, o BNDES tomou uma decisão historicamente diferente, reforçando seu papel como banco de serviços. “Pegamos nossos esforços, energia e dinheiro para salvar o micro, pequeno e médio empresário que não tem liquidez e tem mais dificuldade no canal bancário. Eles carregam o Brasil nas costas”, conta.

Fernando Honorato, coordenador do Grupo Consultivo Macroeconômico da ANBIMA e moderador do painel, lembra da atuação passada do banco. “Em outros episódios de crise, o BNDES era chamado para salvar empresas. Desta vez, o banco teve atuação cirúrgica”, avalia.

Enquanto isso, as grandes empresas recorreram ao mercado de capitais na hora de buscar recursos financeiros por meio de emissões de ações, por exemplo, transformando 2020 em um ano com bom desempenho a despeito da crise. “2020 foi planejado para ser um belo ano para o mercado de capitais. Quando a sociedade percebeu que teríamos vida pós-pandemia, conseguimos concluir um ano que já era esperado e planejado a despeito desta situação inóspita que vivemos”, afirma Montezano.

Fatores externos contribuíram para os bons resultados, como os juros mais baixos, a continuação do alívio monetário, o estímulo fiscal nas pequenas empresas, estados e municípios e a migração do capital privado da renda fixa para a variável.

O Fundo Garantidor de Crédito teve importante atuação. “Esse fundo, até o fim de novembro, terá originado R$ 92 bilhões para pequenos e médios empresários no Brasil e algumas poucas grandes empresas. O mercado de MPME é da ordem de R$ 600 bilhões, ou seja, contribuiremos com 15% do mercado em apenas cinco meses”, conta.

Outro produto criado pela instituição financeira neste ano foi a letra financeira verde. O banco emitiu R$ 1 bilhão, com lançamento no mercado doméstico brasileiro, com vencimento de dois anos. “Vamos ajudar o Brasil a desbravar as fronteiras das finanças verdes”, afirma o presidente do BNDES. A sustentabilidade está na pauta do banco e Montezano fez um chamado para a sociedade: “todos são convidados a participar dessa agenda. Cada um toma decisões em sua empresa e é um agente de transformação. Quer coisa mais divertida do que fazer o que somos apaixonados e mudar o Brasil?”, finaliza.

Sobre a ANBIMA

A ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) representa mais de 270 instituições de diversos segmentos. Dentre seus associados, estão bancos comerciais, múltiplos e de investimento, asset managements, corretoras, distribuidoras de valores mobiliários e consultores de investimento. Ao longo de sua história, a Associação construiu um modelo de atuação inovador, exercendo atividades de representação dos interesses do setor; de regulação e supervisão voluntária e privada de seus mercados; de oferta de produtos e serviços que contribuam para o crescimento sustentável dos mercados financeiro e de capitais; e de educação para profissionais de mercado, investidores e sociedade em geral.

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