Notícia
25/10/2021

ANBIMA Summit: nova ordem geopolítica impõe desafios na resposta a crises globais, diz Ian Bremmer

Ian Bremmer analisa desafios geopolíticos na coordenação global diante do foco interno dos EUA e China.

Estados Unidos e China, as duas maiores potências econômicas globais, estão focadas cada vez mais na resolução de questões internas, o que impõe desafios para a coordenação de propostas que envolvam problemas que afetam todo o mundo, como as mudanças climáticas e o aumento da pobreza. A análise é de Ian Bremmer, fundador e presidente da consultoria Eurasia Group, no primeiro dia do ANBIMA Summit, em painel mediado pela jornalista Patrícia Campos Mello.

Os EUA ainda são a nação mais poderosa do mundo, mas também a mais dividida e disfuncional politicamente, além de uma das mais desiguais economicamente entre os grandes países desenvolvidos, disse o cientista político. Ao mesmo tempo, a China é uma das nações autoritárias mais bem consolidadas e politicamente estáveis. E neste cenário, em que as duas maiores potências não confiam uma na outra, fica cada vez mais difícil responder às crises globais que surgem atualmente, seja a pandemia de Covid-19, a resposta ao aquecimento global ou a garantia de estabilidade e desenvolvimento econômico ao redor do mundo.

“Essas duas realidades se tornaram mais evidentes após quase dois anos de pandemia”, afirmou. “Isso não significa que não haverá progresso, mas ele será muito diferente do que víamos décadas atrás, quando organismos como a OMC, o FMI e a ONU tinham uma relevância muito maior na coordenação de ações”.

Para Bremmer, não se pode esperar que as nações mais poderosas do mundo definam juntas estratégias de enfrentamento aos grandes problemas que acometem o planeta, como acontecia no passado com o G7 e o G20. Em compensação, outros agentes estão atuando em resposta a estes desafios: “países europeus, bancos, empresas, ONGs e pessoas já são muito mais ativos do que no passado. Há duas décadas, os governos faziam muito mais do que o setor privado. Hoje, é o setor privado que está na frente”, disse Bremmer.

O foco de Washington e Pequim nas questões internas de seus países, como os investimentos no mercado consumidor doméstico e a melhora dos padrões de vida de suas populações, enfatiza um cenário geopolítico em que as duas nações líderes do mundo seguem valores muito diferentes em relação a diversos aspectos econômicos e sociais. Bremmer ressalta que EUA e China ainda mantêm uma forte interdependência, mas há um processo de desassociação entre eles: “isso não significa que veremos uma guerra fria”.

Para ele, a forte ligação econômica entre EUA e China compõe um cenário em que países em desenvolvimento, como os da América do Sul, não precisam escolher a qual se associar, podendo trabalhar com os dois. Isso não descarta os desafios econômicos que o Brasil deve enfrentar quanto à redução de investimentos externos e crescimento mais lento.

Menor popularidade de Bolsonaro abre caminho para avanço de outros partidos
Ian Bremmer afirmou que a queda da popularidade do presidente Jair Bolsonaro pode dar mais fôlego ao crescimento de outros partidos que não o PT na disputa eleitoral de 2022. Ele mostrou preocupação com a maneira como Bolsonaro tem conduzido esse assunto, nos moldes das estratégias adotadas pelo ex-presidente americano Donald Trump. Para o cientista político, isso enfraquece a democracia brasileira, que não tem instituições tão sólidas quanto as dos EUA. 

Segundo Bremmer, a aprovação de Bolsonaro pode melhorar se os indicadores econômicos avançarem positivamente e os riscos, como o de desabastecimento de energia, arrefecerem. Por outro lado, há um crescente descontentamento dos mercados em relação às condições fiscais do país e ao aumento da probabilidade de recessão em 2022.

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