Notícia
26/10/2021

ANBIMA Summit: previsibilidade de políticas pós-pandemia pode ditar apetite do investidor por ativos emergentes, dizem economistas

Economistas discutem como a previsibilidade das políticas pós-pandemia influencia o interesse dos investidores por ativos de mercados emergentes.

A retomada do crescimento, o combate à inflação e a retirada dos estímulos monetários e fiscais vão ditar o interesse do investidor por ativos emergentes, segundo os economistas que participaram do painel “Por dentro da mente do investidor estrangeiro: o que pensa do Brasil e dos mercados emergentes”, mediado por David Beker, chefe de economia e estratégia para o Brasil do Bank of America e vice-coordenador do nosso Grupo Consultivo Macroeconômico, durante o ANBIMA Summit. Para eles, os países vivem contextos diferentes, a depender do formato de suas economias e suas relações comerciais, e são as condições fiscais de cada um que vão determinar em que ritmo eles poderão reverter políticas de estímulo para conter a inflação, em meio a um quadro de crescimento global mais baixo.

“A inflação está alta em todo o mundo, mas quando ela sobe nos EUA acaba afetando todo os outros países, porque a inflação em dólar é mundial”, comentou Valentín Carril, economista e estrategista chefe para a América Latina da Principal Internacional. A resposta de grande parte dos bancos centrais do mundo, que subiram as taxas de juros, indica que este não é um problema temporário, embora alguns dos fatores de pressão de preços sejam momentâneos. “Isso significa que o aumento de juro vai acontecer e deve ser maior do que se esperava há seis meses”, disse.

A pandemia começou em um cenário de intensos estímulos fiscais e monetários em todo o mundo, muitos dos quais continuaram quando as economias desaceleraram em 2020. A reversão destes estímulos já está em andamento, mas o ritmo e a magnitude do aperto monetário ainda são incertos, porque o risco de inflação é alto.

“Agora temos duas fontes de preocupação. A primeira é que ainda não solucionamos os gargalos na oferta de suprimentos. E temos ainda uma crise energética global, com aumento do preço do petróleo, que impacta também outras commodities”, comentou Marcela Rocha, economista-chefe da Claritas, para quem o desafio a ser enfrentado pelos emergentes está começando agora, em uma conjuntura global complexa.

Para ela, a recuperação da economia global e os programas de vacinação puxaram um grande fluxo de investimentos para mercados emergentes em 2021, mas o desafio para esses países começa agora, com uma conjuntura global complexa. “Essas nações não têm tanto espaço para ajustes quanto às desenvolvidas, e podem ficar na lanterna em termos de recuperação e reação”, disse a economista, que prevê queda do apetite por ativos de mercados emergentes nos próximos anos.

Em meio a estas incertezas, o investidor já está ficando mais cauteloso. Pesquisa do J.P. Morgan notou que o apetite por ativos emergentes está menor. No caso da América Latina, o entusiasmo é o mais baixo da série histórica, e o Brasil lidera as preocupações com a região, contou Cassiana Fernandez, economista do banco norte-americano, durante o painel.

Transparência pode conter perda de apetite por ativos brasileiros

Valentín Carril destacou que índices preço-lucro apontam cenários muito diferentes entre os países. Em cálculos da Principal feitos no começo de outubro, este índice foi de 19 vezes para o mundo, mas nos emergentes ele caiu para 13. No caso da América Latina, o do México está em 15, o do Chile ficou na casa de 10 e o do Brasil está em 7,5 vezes.

“Isso reflete a visão de que há maior risco político nas próximas eleições. Além disso o Brasil tem sofrido principalmente com a seca, que não só aumenta a inflação, mas também as incertezas,” afirmou Carril. “Ainda há investimento estrangeiro direto, o que significa confiança no longo prazo. Mas no curto prazo há muita preocupação”, disse, acrescentando que a casa tem recomendado a seus clientes reduzir as alocações em ativos brasileiros.

Em meio a este cenário desafiador e incerto para os emergentes nos próximos anos, os receios com o Brasil se destacam. Além das eleições, que se torna uma dúvida adicional, os investidores em geral e, principalmente os estrangeiros, vêm buscando maior clareza sobre a solvência do país e sua política monetária.

“O investidor olha risco e retorno, mas é pragmático. O gatilho para o estrangeiro aproveitar o preço dos ativos é confiança e previsibilidade”, comentou Marcela. “O Brasil vai precisar mostrar que tem coordenação política, coerência, e que o novo regime fiscal não será de irresponsabilidade. O equilíbrio fiscal pode até ser pior do que o anterior, mas o investidor quer saber o que esperar”.

Cassiana acrescentou que tem ouvido relatos de receio quanto à capacidade do Brasil de honrar sua dívida. “Para trazer o investidor estrangeiro, é preciso dar mais previsibilidade e gerar confiança de quais decisões serão tomadas, principalmente de que os compromissos serão honrados”, disse.

A economista do J.P. Morgan comentou ainda que é preciso que o país fale também de crescimento nos moldes demandados atualmente. “As prioridades da sociedade mudaram, hoje ela busca crescimento sustentável e mais igualitário. O investidor já entendeu que muita coisa vai ter que mudar para oferecer isso”, concluiu.

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