A SXSW 2022 terminou e deixou a certeza de que, para se posicionar em um mundo descentralizado e comandado por IA e por realidades paralelas, a observação, a criatividade e a experimentação são mais necessárias do que nunca.
Aprendizados para além do hype
Dez dias, centenas de horas de palestras e apresentações, muitas buzzwords. Terminou mais um SXSW e agora é hora de digerir o que foi discutido e mostrado no evento. Depois de dois anos de distanciamento físico, participar da SXSW 2022 parecia literalmente como pousar em outro planeta.
Metaverso, cripto, DeFi, Web3, DAOs… o hype sobre essas tendências pode ter atingido seu ápice na última semana. Sim, ainda há muita especulação a respeito desse novo mundo impulsionado pelas Big Techs e VCs receosos pelo excesso de regulação e ansiosos por dinheiro novo.
Mas também há, ao menos, uma certeza: antes de mergulhar de cabeça, ou rejeitar por completo essas tendências e taxá-las de exageradas, convém ajustar as lentes da observação, exercitar a criatividade e experimentar muito, para encontrar os caminhos que mais façam sentido para o seu negócio e a sua marca.
A curiosidade é um dos principais motores da inovação. Mas a curiosidade também é um desafio. Exige que questionemos nossas próprias crenças e nos conscientizemos que as rápidas iterações de novas tecnologias, mudanças sociais, valores e expectativas redefinidas das pessoas podem requerer novos movimentos.
A verdade de ontem pode não ser necessariamente relevante amanhã, e permanecer no jogo certamente exigirá ajustes constantes, como deixaram claro as grandes estrelas do evento. Amy Webb chamou esse exercício de re-percepção. Prática recorrente de Scott Galloway, Rohit Bhargava, e até do próprio Beeple (Mike Winkelmann).
O que podemos extrair da fala de cada um, para nos ajudar a ir além do hype?
- Para chegar a conclusões acionáveis, temos que pensar em cenários e no que eles podem significar para nossas marcas, indústrias, grupos-alvo ou até mesmo para a sociedade como um todo, sinaliza Amy Webb. O brilho excessivo dos NFTs, criptomoedas e imóveis digitais, hoje, pode estar nos distraindo do verdadeiro valor do metaverso, amanhã.
- O potencial de criar experiências mais imersivas por meio de wearables e novas interfaces, enquanto a tecnologia Blockchain serve como ferramenta de identificação com vários aplicativos e sistemas, pode ser o futuro da web. Mas para isso será preciso superar a desconfiança na IA e na biologia sintética, a falta de interoperabilidade entre os aplicativos do metaverso, a necessidade de gerenciar várias versões do próprio eu digital em espaços virtuais e o risco da falta de governança, caso as DAOs instituam o caos.
- Uma relação consumidor-marca em mudança, com um foco muito mais forte nas necessidades individuais, já está em marcha, pontuou Rohit Bhargava. E o metaverso tem tudo para ser a consolidação dessa “Identidade Ampliada”. Atingir grupos-alvo com ofertas e conteúdos relevantes torna-se ainda mais complicado e a divisão acelerada de identidade do consumidor de amanhã é algo para o qual temos de nos preparar.
- Não por acaso, na opinião de Scott Galloway, os estágios iniciais do metaverso serão construídos em torno de conteúdo que gere intimidade e engajamento. O que, inicialmente, será mais fácil de construir com áudio, em vez de apelos visuais e táteis aprimorados. E os NFTs serão expressões da personalidade e satisfação da propriedade. Instrumentos de status e capital social, à medida que a vida se move mais para a Web3, nem tão descentralizada quanto pregam.
- Levará tempo para que as pessoas entendam e apreciem a propriedade virtual, alertou Beeple, que acaba de inaugurar uma exposição física, em uma galeria de Nova York, batizada de “Uncertain Future“, na qual exibe impressões de obras que fez digitalmente, com o objetivo de incentivar o diálogo sobre o papel que as grandes empresas de tecnologia desempenham em nossas vidas e o poder que elas têm na sociedade moderna. Ele também acredita que parte da promessa dos NFTs é que eles permitirão que as pessoas tenham mais propriedade sobre seus eus virtuais.
ANBIMA em Austin: uma playlist
Durante dez dias, a ANBIMA esteve presente no SXSW 2022, acompanhando a programação e produzindo conteúdos reflexivos sobre o maior evento de inovação do mundo. Confira:
- Diversidade racial e de gênero é fundamental para a inovação e a sustentabilidade dos negócios. Com Amanda Brum e Lucas Lucena.
- Como ficam as relações humanas nessa nova era da internet? Reflexões e lições tiradas do maior evento de inovação do mundo.
- As Decentralized Autonomous Organizations (DAOs) apareceram na maioria dos painéis de finanças. Amanda Brum, conta tudo em vídeo.
- Os NFTs (Non Fungible Tokens) devem impactar outros setores, para além da arte. O foi dito no Summit Finance 3.0 sobre o tema.
- O metaverso entrou na pauta cheio de promessas. Lucas Lucena conta o que líderes do mercado financeiro pensam sobre essa tecnologia.
- ESG é um caminho sem volta, e temas associados à diversidade, inclusão e sustentabilidade proliferaram. Amanda Brum, conta tudo o que viu.
- As finanças descentralizadas (DeFi) e seus ativos estavam por todo lado. Mas faltou o contraponto nas conversas.
- Nick de la Mare, líder da Fjord, braço de inovação da Accenture, destacou os cinco comportamentos que irão desafiar as empresas nos próximos anos.
- A futurista Amy Webb falou ao vivo e aqui tem um resumo dos pontos mais marcantes que, segundo ela, precisam ser acompanhados de perto.
- O SXSW 2022 mostrou o poder da inovação do marketing, da indústria da arte até alimentos. As marcas impactaram o público por meio de experiências inovadoras e imersivas. Confira o vídeo!
OLHAR DO MERCADO – A SXSW 2022 e o shift da Internet
A SXSW 2022 apresentou novas tendências ao mundo da tecnologia. Acompanhei toda a trilha Tech da conferência e vejo, em um futuro breve, um grande movimento de desaprender e aprender novamente. Observando as sessões de Amy Webb, Scott Galloway, Mark Zuckerberg e Joost van Dreunen, entre muitas outras apresentações de personalidades marcantes, vejo uma nova disrupção à frente. A Internet vai, mais uma vez, avançar para um novo modelo.
A Web vai passar por um novo grande shift, uma nova grande revolução. No seu início, que ficou conhecido como Web 1.0 (ou Web1) o grande impacto foi a distribuição da informação. Nessa época nos tornamos a Sociedade da Informação, democratizando o acesso a um grande volume de dados para todos que podiam se conectar a ela. As discussões sobre inclusão digital começaram a se formar, lá atrás, por conta da falta de acesso para todos.
Em seguida evoluímos para Web 2.0 (Web2), um período marcado pela migração dos negócios para o mundo digital, e nos tornamos a Economia da Informação. Empresas, marketplaces e instituições financeiras incorporaram a internet aos seus negócios, o e-commerce se fortaleceu, e novos modelos digitais nasceram. Avançamos nossos processos, crescemos a nossa produtividade por meio da tecnologia, mas os processos tradicionais de negócios e transações financeiras permaneceram ainda, na grande maioria, centralizados em grandes corporações e regulados por governos.
A nova transformação da Internet será na Web 3.0 (Web3). Com tecnologias como Blockchain, Metaverso, NFT (Non-fungible token), entre outras, nasce um novo modelo - a Propriedade da Informação. A Web3 cria uma nova infraestrutura de transparência, confiança e controle da informação, na qual os pilares básicos são descentralização, privacidade, identidade digital, comunidade, dados abertos e finanças descentralizadas.
Mas o que é a Web3? É um novo ambiente no qual a imersão sensorial (visão, audição, tato, olfato e paladar) nos permitirá interagir de forma mais humanizada com pessoas e “Inteligências Artificiais (IA)” usando dispositivos computacionais. Você terá controle de seus dados por meio de uma identidade digital, e não precisará ter diferentes logins para diversos sites e aplicativos. Os usuários passam a ter a posse e o controle do uso dos seus dados pessoais, apoiados fortemente por novas regras como a LGPD e a GPDR.
Uma nova infraestrutura de tecnologia e padrões abertos trará um revolução enorme para os negócios, marketing digital e transações financeiras. Haverá mudança nos processos centralizados nas instituições tradicionais para descentralizados. Organizações Autônomas e Descentralizadas (DAO – Decentralized Autonomous Organization) com objetivos definidos, serão formadas com o senso de comunidade e propósito.
Processos descentralizados e governança permitirão que essas organizações estabeleçam objetivos de maior impacto no planeta para além dos resultados de negócios apenas. As Finanças Descentralizadas (DeFi – Decentralize Finance) estarão muito mais alinhadas às DAOs, criando um sistema financeiro global, descentralizado, independente, mais barato, menos burocrático e acessível a todos, impactando significativamente as verticais de finanças, varejo, saúde e educação.
Uma revolução tecnológica será iniciada com a Web3, já que o uso do Metaverso, NFT e Blockchain implicarão em novos aplicativos e dispositivos. Novos serviços e arquiteturas serão desenvolvidos. Trabalhar com dados pessoais privados será bem diferente, uma vez que o controle e a posse do dado passam para os usuários, que podem conceder ou não seu acesso e uso para diferentes organizações.
Visualizar e entender comportamentos dos usuários será um novo desafio para o Marketing Digital. Descobrindo um novo mundo digital de possibilidades para comércio, moda, educação etc., onde o limite é somente a imaginação. O ponto importante aqui é a experiência. A Web3 abrirá uma nova fronteira de experiências digitais sem precedentes através do uso do Metaverso.
Moda, mídia, shopping e varejo são apenas exemplo de segmentos que terão suas experiências totalmente alteradas. O mais interessante aqui será observar como esses novos ambientes se conectaram ao mundo físico. Por exemplo, entrar num shopping no Metaverso e experimentar um tênis com seu avatar. Comprar o tênis virtual para utilizar em eventos no Metaverso e, em paralelo, receber o mesmo tênis físico por drone na sua casa de forma rápida. Será muito interessante observar essa conexão nos diversos segmentos de negócio. Tornando o mundo virtual cada vez mais próximo do real.
A Web3 está só começando. Embora já tenhamos vários exemplos de ambientes operacionais, ainda há muito por desenvolver. O choque de paradigma de modelos centralizado vs descentralizados será ainda um grande impasse para atingirmos o potencial que essa tecnologia pode proporcionar. Mesmo assim, ainda temos que evitar o uso inadequado desse novo ambiente visando privilegiar poucos, tentando ainda manter o modelo centralizado. É nossa responsabilidade desenvolver uma novo ambiente que beneficie todas as pessoas. Esse certamente será o legado que deixaremos para futuras gerações.
Esse conteúdo é resultado de uma parceria entre ANBIMA e The Shift. Para conferir outros conteúdos relacionados ao SXSW 2022, acesse:
+ SXSW 2022: Hora de explicar as buzzwords
+ SXSW 2022: Daos, muito além do óbvio
+ SXSW 2022: 10 lições não-óbvias de Rohit Bhargava
+ SXSW 2022: As tecnologias emergentes de Austin
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