Sob a presidência do Brasil, a nova rodada de encontros das principais economias do mundo, o G20, ocorreu entre segunda e sexta-feira da semana que passou, no Palácio do Itamaraty. Visto que o Banco Central terá participação fundamental na presidência brasileira do G20, a Diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central (BC), Fernanda Guardado, participou de toda a programação, que incluiu a primeira reunião de Sherpas, representantes dos chefes de governo que coordenam a agenda da cúpula, e as reuniões conjuntas das trilhas de Sherpas e das Finanças do G20 Brasil – foi a primeira vez que as duas trilhas fizeram reunião conjunta na fase inicial de discussões do G20.

Em discurso na abertura da reunião da Trilha de Finanças do G20, Fernanda afirmou que o Brasil assume a presidência do G20 “com grande responsabilidade, mas também com entusiasmo”. “O Brasil teve o prazer de sediar o G20 em 2008 em seu formato original, como um fórum de ministros da Economia e presidentes de bancos centrais, pouco antes de ser elevado à categoria de fórum de Chefes de Estado, em 2009”, lembrou, em companhia do embaixador Maurício Carvalho Lyrio, Secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores, e de Tatiana Rosito, Secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda.
“Desde então, o grupo tem desempenhado um papel importante na estrutura de governança do sistema econômico e financeiro internacional, permitindo aos membros, aos países convidados e às organizações internacionais coordenar políticas, compartilhar experiências e trocar opiniões sobre importantes questões globais”, completou a diretora.
Ela lembrou que, mais recentemente, durante a pandemia da Covid-19, “o G20 desempenhou um papel fundamental ao coordenar o financiamento de ações para conter a crise sanitária e no desenvolvimento de programas de apoio aos mais vulneráveis”. Além de apoiar o fortalecimento das reservas internacionais dos países e direcionar recursos financeiros adicionais para os países mais necessitados.
Ao falar sobre os planos do Banco Central para o ano que vem, Fernanda disse que “manter a taxa de inflação baixa, estável e previsível é a melhor contribuição que a política monetária do BC pode fazer para o crescimento econômico sustentável e a melhora nas condições de vida da população”.
“Lutar contra a pobreza e a desigualdade está no centro das propostas brasileiras para o G20 em 2024”. “Reduzir a desigualdade é a chave para obter estabilidade financeira”, emendou.
Parceria
Sobre a parceria entre Fazenda e BC no G20, ela comentou que “o Banco Central sempre esteve totalmente engajado na Trilha Financeira do G20”. “E esperamos trabalhar em conjunto para melhorar a coordenação entre as duas trilhas”, complementou.
Segundo a diretora, o BC trabalhou em estreita colaboração com a pasta do Ministro Haddad para obter as prioridades propostas para serem discutidas no evento do G20. “Esperamos receber o feedback de vocês no decorrer das reuniões e construir uma agenda significativa para 2024 que reflita tanto as nossas prioridades desejadas quanto as questões que os membros consideram mais relevantes”, apontou.
Sustentabilidade
A Trilha Financeira do G20 também tem dedicado especial atenção às questões de sustentabilidade, apontou Fernanda, procurando, segundo ela, soluções técnicas e promovendo a mobilização de recursos financeiros para enfrentar as mudanças climáticas. “Fizemos muito e vamos fazer ainda mais”, destacou.
O Banco Central brasileiro foi reconhecido pela implementação de uma série de medidas com foco na promoção da sustentabilidade socioambiental, lembrou Fernanda. “Nossas ações estão alinhadas com a agenda global de sustentabilidade e com as iniciativas e melhores práticas de outros bancos centrais. Estivemos entre os primeiros a apoiar as recomendações do TCFD (Task Force on Climate related Financial Disclosures) e um dos primeiros a torná-las obrigatórias na nossa regulamentação”, explicou.
“Acreditamos que é fundamental continuar avançando na padronização da divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade”, ressaltou em seu discurso.
Fernanda também apontou que é preciso “reconhecer o progresso que fizemos em relação aos riscos relacionados à sustentabilidade, especialmente o trabalho no âmbito do ‘Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos do Banco Central (RIS)’”.
“Esta é uma questão que tem ganhado importância na agenda dos supervisores e reguladores nos últimos anos. No entanto, entendemos que é importante reconhecer a forte interligação e o reforço mútuo entre os riscos financeiros relacionados com as mudanças climáticas e os riscos financeiros ambientais e analisá-los a partir de uma abordagem integrada”, disse Fernanda Guardado.
Assim, para além do trabalho de implementação do RIS, ela lembrou que o BC propôs ao Comitê de Estabilidade Financeira (FSB) que realizasse um balanço das iniciativas regulamentares e de supervisão associadas à identificação e avaliação dos riscos financeiros relacionados com o meio ambiente com os membros do G20 que já têm trabalhos em curso sobre esse assunto.
“Gostaríamos também de conhecer a percepção dos bancos centrais e seus supervisores sobre se consideram a perda de biodiversidade como um risco financeiro relevante nas suas jurisdições.”
Inovações
Outra parte importante da agenda do BC para a presidência do Brasil no G20 visa discutir os impactos das inovações digitais no sistema financeiro. “Embora seja importante reconhecer os seus benefícios, é também crucial que os reguladores e os supervisores compreendam os seus riscos e ajustem as suas práticas em conformidade”, afirmou a diretora.
“É por isso que achamos relevante priorizar a discussão sobre as implicações para a estabilidade financeira da tokenização de ativos, DeFi (Pool de Liquidez) e Inteligência Artificial”, continuou. “Neste contexto, sugerimos também uma análise do conceito de tokenização em relação a dinheiro e outros ativos, bem como em explorar a criação de um ambiente tokenizado que se baseie nos melhores atributos do atual sistema monetário e financeiro, ao mesmo tempo que considera possíveis consequências futuras”, completou.
Brasil na Presidência do G20
Desde 1º de dezembro, o Brasil passou a presidir o G20, fórum de cooperação econômica internacional que reúne dezenove das principais economias do mundo, além da União Europeia e alguns convidados eventuais. Essa é uma oportunidade de o país colocar em pauta assuntos que considera prioritários. Durante esse mandato, o Banco Central terá papel de liderança na condução de trabalhos da Trilha de Finanças.
O país será responsável pela organização de mais de cem reuniões técnicas e conferências ministeriais que culminarão na 19ª Cúpula do G20, que será realizada em novembro de 2024, no Rio de Janeiro. Alguns dos eventos serão virtuais, mas a maioria será presencial, em diferentes cidades do Brasil.
O G20 está organizado em duas trilhas de atuação paralela, que conversam entre si. A Trilha de Sherpas, comandada pelo Itamaraty, trata de temas como emprego, educação e saúde. Já a Trilha de Finanças, com assuntos macroeconômicos estratégicos, é conduzida pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central do Brasil.
Nas trilhas, há diversos grupos de trabalho temáticos, que se reúnem regularmente, e o Brasil, em sua posição de presidente, tem o papel de propor prioridades para cada grupo e levá-las para discussão entre os membros e os organismos internacionais. O consenso é necessário em todo o processo de trabalho do G20.
Trilha de Finanças
A Trilha de Finanças possui sete grupos técnicos: Economia Global, Arquitetura Financeira Internacional, Infraestrutura, Finanças Sustentáveis, Taxação Internacional, Inclusão Financeira e Assuntos do Setor Financeiro Internacional. Além desses, conta com uma Força-Tarefa Conjunta de Finanças e Saúde.
Trilha de Sherpas
A Trilha de Sherpas possui 15 grupos de trabalho: Agricultura, Anticorrupção, Cultura, Desenvolvimento, Economia Digital, Redução do Risco de Desastres, Educação, Emprego, Transições Energéticas, Sustentabilidade Climática e Ambiental, Saúde, Turismo, Comércio e Investimentos, Empoderamento das Mulheres e Pesquisa e Inovação. Além desses grupos, serão criadas duas forças-tarefas: para o lançamento de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e para a Mobilização Global contra a Mudança de Clima. A Trilha também contará com uma iniciativa sobre Bioeconomia.