Artigo
09/02/2026
Atualizado em 02/06/2026

A Agenda ESG na Gestão Pública

A incorporação da agenda ESG na gestão pública enfrenta desafios como superficialidade na interpretação de indicadores, falta de integração nos processos decisórios e limitações técnicas, exigindo revisão profunda da governança para efetivar mudanças sustentáveis.

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Quando o ESG começou a ser incorporado na gestão pública brasileira, um dos primeiros movimentos foi a adoção de indicadores e índices de avaliação. Eles ajudam a organizar o debate, criam parâmetros de comparação e dão alguma objetividade a um tema que, por natureza, é complexo e transversal, mas o problema não está na existência desses instrumentos, mas na superficialidade com que muitas vezes, eles são alimentados e interpretados dentro das estruturas públicas.

Grande parte dos índices trabalha com evidências verificáveis e padronizáveis. Planos publicados, normativos instituídos, comitês formalmente criados, relatórios divulgados e metas declaradas. Esses elementos são importantes, mas representam apenas a camada mais visível da gestão, sendo que a profundidade da governança está nos critérios que orientam decisões difíceis, na forma como prioridades são definidas quando os recursos são escassos, em como conflitos de interesse são administrados e em como riscos de longo prazo entram, ou não entram, na lógica cotidiana da administração.

O que se observa com frequência é um descolamento entre o que é reportado e o que efetivamente orienta a tomada de decisão. Não por má-fé, mas porque a estrutura de governança que deveria sustentar a agenda ainda não foi redesenhada para isso e assim, o órgão público consegue responder a questionários, preencher requisitos formais e até avançar em alguns indicadores, mas sem que isso signifique mudança consistente na forma como decide, prioriza e executa políticas públicas.

Existe também uma limitação técnica importante, haja vista que muitos organismos públicos ainda não têm sistemas de informação integrados, bases de dados confiáveis e rotinas de monitoramento capazes de produzir evidências de qualidade sobre impactos ambientais e sociais das suas próprias políticas. Sem dados robustos, os indicadores acabam refletindo mais a existência de iniciativas do que efetivamente seus resultados. Isso enfraquece o uso desses instrumentos como suporte à decisão e os aproxima de um exercício de conformidade, quando deveriam ser ferramentas de inteligência para a gestão.

Outro desafio é que ESG continua sendo tratado, em muitos contextos, como uma agenda temática e não como um critério estruturante da gestão. Fica concentrado em áreas específicas, grupos de trabalho ou unidades técnicas que não têm poder direto sobre orçamento, planejamento ou definição de prioridades estratégicas e claro que dessa forma, os indicadores produzidos até podem mostrar evolução em determinados pontos, mas não conseguem capturar a ausência de integração do tema nos núcleos onde as escolhas mais relevantes são feitas e podem ou não inserir as métricas de ESG.

Isso gera um efeito preocupante, os índices passam a refletir a capacidade da instituição de organizar informação sobre si mesma, mas não necessariamente a sua capacidade de governar riscos, antecipar problemas e gerar valor público de forma sustentável. A métrica se desenvolve mais rápido do que a governança que ela deveria retratar e com o tempo, cria-se uma sensação de avanço que não se traduz na mesma intensidade em decisões mais qualificadas ou em políticas mais consistentes.

Se a intenção é que os indicadores deixem de ser apenas retratos parciais e passem a funcionar como insumos de construção de governança, o caminho depende de um movimento muito mais profundo. É preciso aproximar a agenda dos sistemas centrais de gestão pública e isso significa conectar os temas ambientais, sociais e de integridade aos processos de planejamento plurianual, à elaboração do orçamento, aos critérios de priorização de projetos, à gestão de riscos institucionais e aos mecanismos de avaliação de desempenho das lideranças.

Também passa por fortalecer a capacidade institucional de produzir e analisar dados, não exclusivamente com o intuito de prestar contas, mas para aprender com a própria prática, já que os indicadores precisam dialogar com decisões concretas, retroalimentar ajustes de rota e apoiar escolhas complexas, inclusive aquelas que envolvem trade-offs entre diferentes políticas públicas. Sem essa integração, eles seguem só como uma camada paralela de informação, respeitada no discurso, mas pouco determinante na prática.

Acredito que o ponto principal seja ter clareza de que profundidade em governança não se constrói só com novos indicadores, mas com revisão de papéis, fluxos decisórios e responsabilidades. Quem tem a palavra final quando há conflito entre resultado de curto prazo e risco de longo prazo, como a alta gestão é cobrada por decisões que afetam gerações futuras e também, como órgãos de controle e instâncias de participação social entram nesse desenho de forma a qualificar, e não somente travar a ação estatal.

A agenda ESG no setor público tende a amadurecer quando deixa de ser um conjunto de requisitos e vira um filtro de tomada de decisão e os índices podem e devem continuar existindo e se atualizando, mas como consequência de uma governança mais estruturada e não como ponto de partida. Sem essa inversão de lógica, vamos continuar medindo com cada vez mais precisão uma realidade que ainda não conseguimos transformar em realidade e assim, nos fixamos nos números e não na prática, aumentando a dificuldade de entender nossas maiores lacunas para uma agenda que realmente funcione e gere frutos.

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Luiz Goi

Especialista em ESG e gestão | Autor de 5 livros | Mais de 40.000 alunos | 20 anos de experiência de mercado